Busca

Vatican News
O mosteiro trapista de Notre Dame de l'Atlas, em Midelt, Marrocos, que acolheu o legado dos religiosos de Tibhirine O mosteiro trapista de Notre Dame de l'Atlas, em Midelt, Marrocos, que acolheu o legado dos religiosos de Tibhirine  (AFP or licensors)

O testemunho ainda vivo dos monges de Tibhirine

O legado espiritual dos trapistas barbaramente assassinados nos anos 90 nas montanhas do Atlas argelino está no centro do “Colóquio do 25º aniversário do martírio dos sete irmãos”, que se realiza no Pontifício Ateneu Santo Anselmo, nos dias 3 e 4 de dezembro. Dom Thomas Georgeon: “eles viveram aquela fraternidade respeitosa da fé de outros, almejada pela Encíclica Fratelli Tutti do Papa Francisco.

Tiziana Campisi – Cidade do Vaticano

Chamam-no de “espírito Tibhirine” aquele que ainda continua a se espalhar hoje, 25 anos após a morte dos sete monges trapistas sequestrados de seu mosteiro, perto de Medéia, Argélia, na noite entre 26 e 27 de março de 1996, e depois trucidados.

É aquele testemunho de vida evangélica – doado em terras muçulmanas em uma vida cotidiana feita de coisas simples, marcada por uma coexistência pacífica, alimentada por um diálogo respeitoso pela diversidade – oferecido no mosteiro de Tibhirine por fr. Christian, fr. Luc, fr. Christophe, fr. Michel, fr. Bruno, fr. Celestin e fr. Paul, até o martírio e em sua longevidade fr. Amédée e fr. Jean-Pierre, que escaparam do sequestro.

Fr. Jean-Pierre faleceu em 21 de novembro passado, aos 97 anos, e fr. Amédée em 27 de julho de 2008, aos 87 anos. Os dois religiosos, os “petit reste” - assim os definiam os confrades depois do ocorrido -, continuaram a cultivar o “espírito de Tibhirine”, na Mildet Trappe, no Marrocos, que acolheu o legado da comunidade argelina ao adotar o mesmo nome, Notre Dame de l’Atlas.

O Colóquio Internacional em Roma para recordar os monges de Tibhirine

 

E precisamente com objetivo de explorar o legado espiritual dos monges de Tibhirine, nos dias 3 e 4 de dezembro o Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, acolhe o “Colóquio pelo 25º aniversário do martírio dos sete irmãos”, organizado pela Associação para Proteção dos Escritos dos Sete de Atlas e pela Comissão Científica dos Escritos de Tibhirine, sob o cuidado do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso.

 

O primeiro dia foi reservado aos estudantes e quis sensibilizar a comunidade científica à espiritualidade dos nove trapistas que viveram em estreito contato com os muçulmanos da Argélia. Este segundo dia, no entanto, é aberto ao público e foi pensado para divulgar melhor a experiência vivida pelos monges e para contribuir para a difusão de sua mensagem. A tradução dos seus escritos para o italiano, em andamento, permitirá aprofundar e meditar ainda mais sobre seu pensamento e sua fé.

A experiência dos trapistas na Argélia 

 

Faz parte do Comitê científico do colóquio, D. Thomas Georgeon, abade da Trappe de Soligny, na França, e postulador da causa de beatificação dos sete monges de Tibhirine, elevados à honra dos altares em 8 de dezembro de 2018. “O testemunho deles oferece um exemplo de pacífica convivência entre cristãos e muçulmanos – explica o abade. O diálogo deles com os argelinos não dizia respeito a questões de fé, mas se desenvolvia na vida cotidiana. Seu legado está na Fratelli Tutti, do Papa Francisco”:

Eles viveram antes de tudo a experiência de uma vida totalmente doada a Cristo, e esta vida foi doada até as últimas consequências, isto é, o martírio. Aceitar a morte em nome de Cristo, pela fé em Cristo e depois deixaram um testemunho que fala muito ao mundo de hoje, do viver juntos. Eles eram cristãos em meio a um país muçulmano e sempre viveram em um modelo aberto em relação ao outro, ainda se o outro era diferente na própria fé. Foi um caminho de amizade, no respeito pela alteridade.

Seria possível nos descrever a vida cotidiana dos monges de Tibhirine?

Era uma vida muito simples, havia a vida comunitária e normal de todos os mosteiros da nossa Ordem, isto é, a oração litúrgica sete vezes ao dia na igreja, acolhimento dos hóspedes e depois o trabalho cotidiano, o trabalho manual para manter a casa funcionando. Uma particularidade do Mosteiro de Tibhirine era que os irmãos tinham uma pequena associação com quatro pais de família muçulmanos para cuidar do jardim, da horta, do pomar, e ali todos trabalham juntos e depois no final, o resultado era dividido entra a comunidade e esses pais. Já era um modo de viver essa fraternidade, e depois, obviamente, havia o dispensário de fr. Luc, um médico de boa reputação na comunidade. Ainda hoje, muitos argelinos conhecem o mosteiro pela figura do médico.

 

A Argélia é um país de maioria muçulmana, ainda assim, os monges conseguiram se inserir nessa realidade...

Eles conseguiram se adaptar porque eles fizeram de uma maneira muito humilde, muito simples. Em primeiro lugar, eles quiseram promover um diálogo da vida cotidiana. Não houve grandes debates com os muçulmanos a nível de dogmas ou de teologia, o seu desejo era, antes de tudo, aprender a conhecer o outro e, obviamente, ao redor deles, o outro era muçulmano. Depois, eu acho que para entender bem a presença deles, é necessário recordar que não tentaram converter os muçulmanos para o catolicismo. Procuraram entender o que na fé muçulmana poderia ajudá-los, os monges, a crescer na própria fé e também como ajudar os muçulmanos a crescer na sua fé muçulmana.

Que legado espiritual eles deixaram?

Eles deixaram uma fama de santidade incrível no coração das pessoas e o legado hoje me parece que podemos encontra-lo na Encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco: este desejo de uma fraternidade humana, que pode ir para além das diferentes religiões, poder viver juntos em fraternidade, não obstante a diferença da nossa fé, como construir, dia após dia, essa fraternidade universal que tentaram viver em Tibhirine.

O que o testemunho dos monges de Tibhirine ensina hoje?

Ensina que na Igreja não devemos permanecer fechados em nós mesmos e que a Igreja deve abrir-se à diversidade e à diferença. Isto é, abrir um caminho de conhecimento do outro, é exatamente o que faz o Papa Francisco. Eu, às vezes me pergunto se todo o seu pontificado não estava em germinação naquilo que viveram os irmãos de Tibhirine, seria necessário perguntar a ele se é assim. Ou seja, é precisamente essa Igreja que vai às periferias e os irmãos estavam precisamente nas periferias do mundo cristão, estando em um país muçulmano, portanto havia a possibilidade de permanecer fechados e viver entre si, enquanto a comunidade nunca se fechou em si mesma, sempre esteve aberta: quando havia algum problema com a mesquita da cidade na qual o mosteiro estava localizado, era preparada uma sala do mosteiro para que os muçulmanos pudessem rezar e ter um lugar para se reunir, portanto realmente era uma abertura não no temor, mas na acolhida da diferença.

Os escritos dos monges de Tibhirine ainda suscitam muitas reflexões, em particular o testamento do irmão Christian de Chergé, um texto muito intenso...

O testamento do padre Christian poderia ser o testamento de todos os irmãos, penso que eles teriam assinado todos juntos. Descreve um pouco o itinerário pessoal de fr. Christian, isto é, sua infância na Argélia, o modo como ele viveu essa busca de Deus pela própria fé, mas no confronto com a fé muçulmana. Depois há um profundo desejo de encontrar o outro e de entender qual é o desígnio de Deus. Uma frase que o padre Christian diz no seu testamento é o fato de que Deus constrói uma unidade por meio das diferenças e, portanto, seu desejo é reunir seus filhos ao seu redor, mesmo que sejam diferentes.

04 dezembro 2021, 07:00