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Bartolomeu I e Kirll na Igreja de São Jorge, em Istambul Bartolomeu I e Kirll na Igreja de São Jorge, em Istambul  (AFP or licensors)

Kirill encontra Bartolomeu I em Istambul

O objetivo do encontro realizado neste 31 de agosto foi fortalecer os laços inter-ortodoxos e as relações entre os dois Patriarcados. A questão da Igreja na Ucrânia esteve na pauta do encontro.

Jackson Erpen - Cidade do Vaticano

O esperado encontro entre o patriarca Bartolomeu I de Constantinopla e o patriarca de Moscou e de toda a Rússia Kirill, concluiu-se às 13h de sexta-feira em Istambul, sem nenhum resultado tangível. Esperava-se do encontro uma decisão definitiva sobre a questão da autocefalia da Igreja Ortodoxa Ucraniana, o que criaria muitos problemas para o patriarcado de Moscou.

Ao deixar o aeroporto da metrópole turca, Kirill declarou que as conversações não levaram a nada que pudesse "provocar terremotos nas consciências", que a troca de opiniões foi muito tranquila e correta. "Tratamos de questões que nos preocupam, mas quero reiterar que tratou-se de uma conversa fraterna, e eu não quero entrar em detalhes sem acordo com sua santidade [Bartolomeu], embora não há nenhum segredo a ser defendido", acrescentou o patriarca russo.

Na entrada da residência patriarcal turca, saudando Bartolomeu que o recebeu na porta, Kirill recordou a responsabilidade "para toda a Igreja de Cristo" e para a custódia da unidade ortodoxa nas mãos dos dois patriarcas.

 

"Neste lugar – observou - estou ligado à recordações muito felizes, aqui nunca fizemos nada que pudesse prejudicar a ortodoxia universal porque temos a responsabilidade por toda a Igreja".

Bartolomeu I, por sua vez, quis expressar a sua satisfação com a chegada do irmão de Moscou, dizendo que "cada vez que você vem até nós, é uma grande alegria, e é uma alegria poder discutir juntos as questões que representam interesses comuns. Acreditamos na força do diálogo: este é o caminho que o próprio Deus nos mostrou ".

Para receber Kirill junto com Bartolomeu, havia um grande grupo de metropolitas e arcebispos, reunidos desde o dia anterior para a reunião do Sínodo dos Bispos de Constantinopla.

O Patriarca de Moscou recordou a eles a diferença "entre o simples diálogo e o encontro dos líderes das Igrejas; os políticos defendem seus próprios interesses, mas no diálogo entre as Igrejas o mais importante é a unidade fundamental entre os cristãos ortodoxos, que se dirigem à Igreja una, santa, sobornaja e apostólica. Isso nos dá uma grande responsabilidade, mas também nos transmite uma grande força e inspiração para o nosso serviço".

O patriarca russo concluiu com um breve "resumo da reunião”, dizendo que “foi um momento muito bonito, com uma atmosfera maravilhosa, avaliamos as questões que estão na ordem do dia". Foi um encontro "entre dois chefes de Igrejas que percebem sua responsabilidade pelas condições da ortodoxia universal e dos problemas da humanidade contemporânea" - quis especificar o chefe dos ortodoxos russos, colocando-se assim no mesmo nível do patriarca universal da Ortodoxia.

No canal oficial Telegram do serviço de imprensa do Patriarcado, foi divulgado um breve relato da visita, realizada na residência de Bartolomeu I no Fanar. As tratativas duraram cerca de duas horas e meia, depois que Kirill deixou a residência anunciando: "O encontro ocorreu e tudo correu bem".

A questão ucraniana



Em abril deste ano, o presidente ucraniano Petro Poroshenko e o Parlamento em Kiev apelaram ao patriarca ecumênico de Constantinopla para que declarasse a Igreja Ortodoxa do país como autocéfala. Enquanto Bartolomeu mostrou-se aberto, Kirill rejeitava peremptoriamente a independência da Igreja ucraniana. Os líderes de várias Igrejas regionais ortodoxas uniram-se à posição de Moscou.

Durante a Declaração de Independência da Ucrânia em 1991, houve uma divisão na Igreja Ortodoxa. Desde então, a Igreja Ortodoxa Ucraniana - sob o Patriarcado de Moscou - e o Patriarcado de Kiev, fundado em 1992, disputam a hegemonia na Ucrânia.

Cerca de 70% dos ucranianos professam o cristianismo ortodoxo. Até agora, o Patriarcado Ecumênico e mais de uma dúzia de Igrejas nacionais ortodoxas reconhecem oficialmente apenas a Igreja Ortodoxa Russa, que tem a maioria das paróquias na Ucrânia.

Nas horas sucessivas ao encontro de sexta-feira, a mídia na Ucrânia defendeu a tese de que o patriarca Bartolomeu teria colocado Kirill diante de um fato consumado, comunicando a ele a intenção de Constantinopla de conceder a autocefalia à Igreja Ortodoxa Ucraniana.

A relativa brevidade do encontro poderia corroborar para a tese de que não havia muito a ser discutido, mas as expressões positivas do patriarca de Moscou também indicam uma possível satisfação com as modalidades da decisão.

Se tivesse sido concedida a nova jurisdição autônoma ao metropolita Onufrij (Berezovsky), cuja lealdade à "Igreja irmã" moscovita nunca foi questionada, sem necessariamente elevá-lo à dignidade patriarcal, Kirill poderia de uma forma ou outra reivindicar sua paternidade em relação à nova igreja local.

Kirill e Bartolomeu

 

Kirill recordou  no encontro em Istambul que não se encontrava com o "irmão ecumênico" há dois anos, desde o encontro de Genebra em 2016, na véspera do Concílio de Creta, em parte fracassado devido a não participação da delegação de Moscou.

Entre os dois patriarca, de fato, houve no passado momentos de tensão. Em novembro de 2016, por exemplo, a Igreja Ortodoxa russa - de longe a maior igreja nacional ortodoxa - decidiu na última hora não participar do Santo e Grande Concílio Pan-ortodoxo na Ilha de Creta, numa tentativa de evitar uma divisão, declarou na época Kirill.

O encontro anterior entre o patriarca Kirill e o patriarca Bartolomeu realizou-se na celebração dos Primazes das Igrejas Autocéfalos em janeiro de 2016 em Chambesy. Antes disto, os dois patriarcas haviam se encontrado em março de 2014 na concelebração dos Primazes de Igrejas autocéfalos em Istambul; em outubro de 2013 em Podgorica (Montenegro); durante a visita do patriarca Bartolomeu à Rússia em maio 2010, e durante a visita oficial do patriarca Kirill à Igreja Ortodoxa de Constantinopla em julho de 2009

A Igreja Ortodoxa



A Igreja Ortodoxa é formada pela comunhão plena de catorze jurisdições eclesiásticas autocéfalas (mais a Igreja Ortodoxa na América, apenas parcialmente reconhecida) que professam a mesma fé e, com algumas variantes culturais, praticam basicamente os mesmos ritos. O chefe espiritual das Igrejas Ortodoxas é o Patriarca de Constantinopla, embora este seja um título mais honorífico, uma vez que os patriarcas de cada uma dessas igrejas são independentes. Desta forma, diz-se que o Patriarca de Constantinopla é o primus inter pares. A maior parte das igrejas ortodoxas usa o rito bizantino.

Para os ortodoxos, o chefe único e líder da Igreja, e sem intermediários, representantes ou legatários, é o próprio Jesus. A autoridade suprema na Igreja Ortodoxa é o Santo Sínodo, que se compõe de todos os patriarcas chefes das igrejas autocéfalas e dos arcebispos primazes das igrejas autônomas, que se reúnem por chamada do Patriarca Ecumênico de Constantinopla.
A autoridade suprema regional em todos os patriarcados autocéfalos e igrejas ortodoxas autônomas é da competência do Santo Sínodo local. Uma igreja autocéfala possui o direito a resolver todos os seus problemas internos com base na sua própria autoridade, tendo também o direito de remover qualquer dos seus bispos, incluindo o próprio patriarca, arcebispo ou metropolita que presida esta Igreja.

(Com Agência Asianews)

 

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Encontro entre os dois patriarcas na Catedral de São Jorge, em Istambul
31 agosto 2018, 09:33