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Patriarca de Babilônia dos Caldeus, no Iraque, Sua Beatitude Louis Raphaël I Sako Patriarca de Babilônia dos Caldeus, no Iraque, Sua Beatitude Louis Raphaël I Sako  (AFP or licensors)

Card. Sako: Europa ajude os cristãos e pense nos países em guerra

Advertência à Europa, a condição dos cristãos e a ação comum contra o fundamentalismo islâmico. A entrevista do Vatican News ao Patriarca de Babilônia dos Caldeus, Sua Beatitude Louis Raphaël I Sako

Cidade do Vaticano

O patriarca de Babilônia dos Caldeus e presidente dos bispos católicos no Iraque, cardeal Louis Raphaël I Sako, estes dias em Bruxelas, na Bélgica, na sede da Comissão das Conferências Episcopais Europeias – Comece –, está encontrando os representantes das instituições europeias, em particular a Comissão da União Europeia e a representação da mesma para os assuntos exteriores a fim de submeter sua atenção à questão do Iraque e dos cristãos iraquianos ainda fortemente discriminados e alvo de perseguições.

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O patriarca de Babilônia dos Caldeus teve também a oportunidade, com o apoio da Comece, de encontrar-se com os representantes das várias Igrejas e organizações eclesiásticas para motivá-los a um auxílio de oração e ação.

Em entrevista concedida ao Vatican News (VN), o purpurado – que em fevereiro passado foi nomeado pelo Papa Francisco membro do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso – aborda vários temas. Em suas palavras, a condição dos cristãos, a advertência à Europa a empenhar-se naqueles países onde há guerra e a ser, em primeiro lugar, União de paz, ação concertada de governos e instituições para enfrentar o desafio marcante do fundamentalismo islâmico que continua semeando morte e destruição como se deu recentemente no Sri Lanka, durante os ataques na Páscoa.

Card. Sako- “Há progressos no Iraque. A segurança melhorou em Bagdá, bem como em outras cidades, e o novo governo quer fazer reformas, mas é preciso tempo e um acordo com os outros. Do ponto de vista militar o autoproclamado Estado Islâmico foi derrotado, mas a ideologia ainda é forte; é preciso resolver o problema do fundamentalismo muçulmano. Cabe às autoridades muçulmanas fazer as reformas face à modernidade e ao pluralismo em que vivemos, à diversidade das religiões e às diversidades étnicas... É horrível hoje matar alguém porque não é da minha religião e penso que o grande desafio para o mundo inteiro seja o fundamentalismo muçulmano. É como uma bomba, semeia o pânico em todos os lugares. Todos devem colaborar para derrotar essa ideologia.”

VN: O senhor se encontra em Bruxelas, na sede da Comece, e está encontrando as instituições europeias. O que a União Europeia pode fazer para ajudar os iraquianos, os cristãos no Oriente Médio?

Card. Sako- “Fazer pressão sobre os governos do Oriente Médio a fim de que os direitos do homem sejam respeitados. Isso é fundamental! Depois, pode ajudar as pessoas a alcançar um acordo comum para salvaguardar todos esses componentes que são iraquianos e não são refugiados. Lá os muçulmanos têm todos os direitos; no Iraque, na Síria os cristãos são submetidos a discriminação, por vezes há também uma perseguição em nome da religião. Isso não é aceitável. A assembleia internacional, mas sobretudo a União Europeia que conhece a situação, é próxima também desses países; deve impulsionar esses países a progredir sobretudo no que diz respeito ao tema da cidadania.”

VN: O Iraque é um país de maioria muçulmana – 95% da população. No campo do diálogo inter-religioso foram dados passos adiante, inclusive sob sua liderança?

Card. Sako- “Sim, nós formamos um comitê de diálogo cristãos, muçulmanos, xiitas, sunitas, bem como yazidis, dois anos atrás, e fizemos um grande progresso nesse sentido. Os vários representantes vieram duas vezes ao Patriarcado para fazer esse encontro, mas também eu fui ter com os sunitas em Kerbala... Verdadeiramente, há um bom entendimento entre nós. Há uma vontade de realizar a convivência pacífica. Inclusive preparamos um livreto que apresenta cada região e isso ajuda no conhecimento recíproco, bem como para entabular reformas, no respeito pelas diversidades, para elaborar programas educacionais nas escolas. Encontramos também o Presidente da República, fizemos duas marchas, uma delas todos juntos em Kerbala; o povo vinha saudar-nos, eu estava usando a batina com a cruz numa cidade totalmente muçulmana xiita, um forte sinal. Realizamos coletiva de imprensa e pedimos também à mídia que nos ajudasse a divulgar essa mensagem de fraternidade e o povo dizia: ‘Estamos contentes que ao menos os líderes religiosos venham nos encontrar! Estão nas ruas, conosco’. Os políticos, ao invés, não podem sair da zona verde. Penso que seja um testemunho importante. Depois dialogamos sobre como buscar hoje uma mensagem religiosa positiva para nossos fiéis cristãos, muçulmanos, xiitas e sunitas.”

VN. Certamente o diálogo inter-religioso constitui um desafio também para o Velho Continente em vista das eleições europeias. Recentemente numa carta os bispos europeus convidaram os cidadãos ao voto e elencaram uma série de desafios para a Europa, entre esses, a imigração, o trabalho, a solidariedade, o respeito pela vida. Segundo seu ponto de vista, quais são as urgências para o Velho Continente?

 

Card. Sako- “Creio que o mundo inteiro deve pensar a paz em outro nível, mas em particular a Europa. Os ocidentais entenderam que as guerras não servem para nada, por conseguinte somente o diálogo ajuda para a paz e o respeito pela dignidade humana; são 70 anos que não há mais guerra no Ocidente. E então é preciso pensar naqueles lugares onde há guerras e conflitos, por exemplo, hoje no Oriente Médio quatro ou cinco países estão em guerra e o povo está morrendo. Portanto, há uma responsabilidade humana, mas também moral, de ajudar essas pessoas em dificuldade.”

VN: Os encorajamentos do Papa Francisco chegam até vocês? Qual a importância que suas evocações e apelos têm para o Iraque e os países onde não há paz?

Card. Sako- “Muita. Penso por exemplo na visita do Santo Padre a Abu Dhabi, bem como ao Marrocos. Ele fez um trabalho excepcional quando assinou com o Grão Imame de Al-Azhar o documento sobre a Fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum. Mas sobretudo a missa foi um momento importante. Milhões de muçulmanos acompanharam a missa celebrada em Abu Dhabi; mulheres, moças e rapazes, homens, crianças, todos rezavam com respeito e silêncio, juntos, e isso era impensável, porque para eles homens e mulheres jamais podem rezar juntos. É uma descoberta! Além disso, a música, as orações, as leituras, a homilia impressionaram o mundo muçulmano e eu ouvi muitos muçulmanos dizerem: ‘Não sabíamos que vocês rezam assim’ – porque viam com certa desconfiança. Também quando encontrei o Santo Padre três semanas atrás, agradeci por esse gesto e lhe pedi que visitasse mais aquela parte do mundo. Falou-me de uma pessoa com três crianças que tinha ido até ele agradecer-lhe pela visita e lhe perguntou: ‘Por que nós muçulmanos não temos uma missa como vocês?’ É uma pergunta muito inteligente! Como disse o Papa, ‘não devemos fazer proselitismo’, há outros modos de testemunhar nossa fé: a caridade, a oração, a amizade, a proximidade e a fraternidade.”

09 maio 2019, 16:05