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Dom Vincenzo Paglia irá aos Estados Unidos e Canadá para participar de um simpósio sobre cuidados paliativos Dom Vincenzo Paglia irá aos Estados Unidos e Canadá para participar de um simpósio sobre cuidados paliativos 

Fim da vida, dom Paglia: a maior cura é ficar perto

O presidente da Pontifícia Academia para a Vida apresentou aos meios de comunicação a próxima viagem que fará de 17 a 23 de maio, primeiro aos Estados Unidos para uma série de compromissos e depois a Toronto, no Canadá, para participar de um simpósio internacional sobre o tema de tratamento paliativo.

Christopher Wells – Vatican News

A questão não é "eutanásia sim, eutanásia não", porque quando colocada dessa forma, a questão é "muito seca, muito fria". O problema "é como acompanhar, como tornar essa passagem menos dolorosa possível e, ao mesmo tempo, menos desesperadora".

Diante dos jornalistas presentes na sede da Pontifícia Academia para a Vida, dom Vincenzo Paglia se deteve no tema do fim da vida. Daqui a pouco, ele partirá para os Estados Unidos e logo depois irá ao Canadá, a convite dos bispos locais, para participar de um simpósio sobre cuidados paliativos. O seu escrúpulo e compromisso, é colocar sob a luz certa um assunto que, segundo ele, algumas leis tendem a depreciar ou homogeneizar quando, na verdade, "cada morte é diferente e, portanto, deve ser acompanhada de forma pessoal".

Dom Paglia, como está se preparando para este encontro?

A visita ao Canadá representa um momento especial para mim precisamente porque, numa cultura como a ocidental, o tema das últimas fases da vida deve adquirir uma relevância que ainda não existe hoje. Existe o risco de se produzir uma legislação que, no fundo, quer excluir o problema por meio de leis frígidas, que tendem a unificar casos muito diferentes, leis que podem se assemelhar um pouco a um lavar as mãos. Em vez disso, acredito que este seja um tema que devemos abordar com muita atenção. O termo cuidados paliativos precisa ser muito bem explicado. Se eu pudesse usar outro termo, eu diria acompanhamento, que tira, por exemplo, o drama da solidão, que não é uma dor física, mas um tipo de tragédia interior que precisa ser curada.

De que forma?

Com proximidade, com afeto, com interesse e com amor. O tema da dor física, então, pode ser dramático e devemos combatê-lo e, em minha opinião, aqui devemos exortar os governos a aprofundar também os aspectos científicos e de pesquisa desses tratamentos que acompanham o fim da vida. Devemos exortar as igrejas a redescobrir a importância do acompanhamento para uma boa morte efetiva, que para nós, fiéis, é a passagem para a vida com Jesus. Também devemos ajudar todas as outras religiões ou homens de boa vontade, porque nesse momento final, cada um de nós precisa sentir fisicamente a proximidade. Nesse sentido, parece-me importante que a reflexão não seja apenas "eutanásia sim, eutanásia não": isso é muito seco, muito frio. O problema é como acompanhar, como tornar essa transição menos dolorosa possível e, ao mesmo tempo, menos desesperadora. É por isso que há um grande desafio diante de nós, que diz respeito ao próprio significado da vida.

Há também um caminho a ser traçado que olha para o futuro...

Sim, é uma discussão importante também para as gerações futuras. Refletir sobre o fim da vida significa antes de tudo compreender isto: mas será mesmo o fim da vida? A filosofia quântica nos diz que não, porque de alguma forma, pelo menos, continuamos sendo energia. A Revelação Cristã nos diz que a morte é uma passagem e não o fim, podemos dizer de certa forma o fim desta vida terrena, mas sabemos pelo Credo que depois da morte a vida humana continua, mesmo que ressuscitada - e infelizmente esta dimensão quase não é mais enfatizada nas pregações, embora devemos redescobri-la. É por isso que acredito que esta reflexão em torno dos cuidados paliativos ou do fim da vida é um tema enorme que diz respeito a todas as suas componentes da sociedade, desde as médicas às científicas e pedagógicas, das humanísticas às filosóficas, teológicas e psicológicas.

O Papa Francisco disse que devemos acompanhar as pessoas nas fases finais da vida, mas não causar a morte ou facilitar o suicídio assistido. Como isso é possível?

A Pontifícia Academia para a Vida publicou há alguns anos um estudo no final de um congresso internacional exatamente sobre este tema, onde delineamos dez pontos que descrevem o significado dos cuidados paliativos. A vida é um dom e é um dom que Deus nos confia. Então a vida também é nossa, sim, mas não é só nossa. O Senhor nos deu a vida com um grande dom, para que possamos multiplicá-la para nós e para os outros. Na verdade, se a multiplicarmos para os outros, a multiplicaremos também para nós mesmos. É por isso que o Papa Francisco nos exorta a compreender também que ser acompanhado neste último momento enriquece a todos. Mesmo quando não se tem cura, sempre é possível curar, sempre se deve curar. E mesmo quando não temos mais meios de bloquear o caminho da morte, que chega para todos, existe o ser. Não há mais o fazer, mas o dar as mãos, há o estar perto para mostrar que o amor é mais forte que a dor da morte, que a amizade é mais forte que a morte que quer romper os laços. O que aconteceu no Calvário pode, de certa forma, ser um exemplo disso.

Em que sentido?

O fato de Jesus ter sua mãe e seu jovem discípulo ao seu lado foi certamente um conforto para ele, e essa mãe e esse jovem discípulo ouviram daquele que estava morrendo: ela é sua mãe e ele é seu filho. Foi o amor que continuou. A Ressurreição começa ali, porque a morte que queria silenciar Jesus foi, na verdade, uma morte que começou a gerar uma nova solidariedade, uma nova fraternidade. Afinal de contas, a proximidade é vivida até mesmo no início da vida: quando uma mãe dá à luz uma criança, há aqueles que a acolhem, aqueles que cortam seu cordão umbilical, aqueles que cuidam dela e a criam juntos. Assim como nascemos juntos, juntos devemos morrer.

Como a Igreja e a Pontifícia Academia para a Vida, em particular, podem lidar de forma construtiva até mesmo com os pontos de vista mais críticos sobre esses temas?

Devemos continuar refletindo e conversando com todos, porque essas perspectivas são humanistas. A fé as ilumina, mas a região as compreende. É por isso que a tarefa da Igreja é tentar desideologizar esses temas, que muitas vezes são poluídos por ideologias e não por um acompanhamento real. Bastaria um pouco de raciocínio para entender que cada morte é diferente da outra e, portanto, deve ser acompanhada de maneira pessoal. Portanto, cada uma precisa de suas palavras, seus gestos, suas presenças. E é isso que devemos fazer entender. É claro que depois há milhões de leis, porque se não houver leis, o risco é que a barbárie tome conta. Tudo isso é indispensável, talvez, mas é ainda mais indispensável uma cultura que una fiéis e não fiéis, porque nascer e morrer não é uma questão católica, é uma questão de todos. Portanto, encontrar uma aliança, um entendimento que seja o mais amplo e comum possível, é no mínimo indispensável, e é por isso que acredito que uma das tarefas da Pontifícia Academia para a Vida é exatamente esta: tornar crível, dar razão, até mesmo aquela vantagem a mais que podemos ter em questões que, na realidade, dizem respeito a todos, começando pela dimensão racional.

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14 maio 2024, 16:17