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Papa Francisco assina Documento sobre a Fraternidade Humana Papa Francisco assina Documento sobre a Fraternidade Humana  Editorial

Um oceano oculto de bem que cresce

Instituída Comissão para implementar o Documento sobre a Fraternidade Humana, assinado pelo Papa Francisco e pelo Grande Imame de Al-Azhar. “O diálogo inter-religioso é o único antídoto eficaz contra o mal do fundamentalismo.”

Silvonei José

A notícia é dos dias atrás, mas a sua importância é enorme: Uma Comissão superior foi instituída em Abu Dhabi para implementar o Documento sobre a Fraternidade Humana, assinado pelo Papa Francisco e pelo Grande Imame de Al-Azhar em 4 de fevereiro deste ano, na capital dos Emirados Árabes Unidos.

Recordamos que esse documento representa uma declaração conjunta de esforços para unir a humanidade e trabalhar pela paz no mundo para garantir que as gerações futuras possam  viver numa atmosfera de respeito recíproco e saudável convivência. Entre outros a nova Comissão é formada pelo bispo e presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, Dom Miguel Ángel Ayuso Guixot; pelo presidente da Universidade de Al-Azhar, prof. Mohamed Hussein Mahrasawi; e pelo secretário pessoal do Papa Francisco, Dom Yoannis Lahzi Gaid.

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Mas qual o objetivo dessa iniciativa? A comissão tem a tarefa de desenvolver um quadro de atividades para garantir a realização dos objetivos do “Documento Fraternidade Humana pela Paz Mundial e a Convivência Comum” – uma demonstração do empenho dos Emirados Árabes Unidos na promoção do diálogo inter-religioso e dos valores compartilhados que incluem a tolerância e a convivência pacífica entre as pessoas de todas as religiões e fé. O grupo formado em Abu Dhabi deverá preparar os projetos necessários para implementar o documento, dar seguimento à sua atuação em nível regional e internacional, além de formalizar encontros com líderes religiosos e chefes de organizações internacionais para apoiar e difundir a ideia de base do documento histórico. 

A comissão superior ainda deverá solicitar às autoridades legislativas para aderirem às disposições do documento na legislação nacional para incutir os valores do respeito recíproco e da coexistência.

O xeique Mohamed bin Zayed Al Nahyan, príncipe hereditário de Abu Dhabi e vice-comandante supremo das Forças Armadas dos Emirados Árabes Unidos, afirmou que a formação da comissão contribuirá a implementar a visão compartilhada de desenvolvimento de iniciativas e ideias para favorecer a tolerância, a cooperação e a coexistência.

“O diálogo inter-religioso é o único antídoto eficaz contra o mal do fundamentalismo.” É o que disse o novo presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, dom Miguel Ángel Ayuso Guixot, numa entrevista ao Vatican News.

Esse Comitê é um exemplo concreto de como os líderes religiosos podem construir pontes, fortalecer o diálogo e vencer a tentação de se fechar em si mesmos e alimentar o “confronto de civilizações”.

Segundo uma nota da Sala de Imprensa da Santa Sé, o Pontífice recebeu com alegria a notícia da iniciativa e observou: “Embora muitas vezes, infelizmente, seja o mal, o ódio, a divisão a fazer notícia, há um oceano oculto de bem que cresce e nos faz esperar no diálogo, no conhecimento mútuo, na possibilidade de construir juntos com os fiéis de outras religiões e com todos os homens e mulheres de boa vontade, um mundo de fraternidade e de paz”.

Em alguns ambientes católicos, acredita-se que a declaração de Abu Dhabi, em busca de diálogo, corra o risco de cair no sincretismo. Respondendo a essa questão dom Miguel Ángel Ayuso Guixot disse que embora respeitando as opiniões daqueles que pensam que a declaração de Abu Dhabi possa cair no sincretismo ou no relativismo, mesmo em boa fé, ele acredita que o medo seja “o inimigo número um do diálogo inter-religioso”.

A Igreja Católica recorda o valor de sua própria identidade, da coragem da alteridade e da sinceridade das intenções. Não se trata de fazer um “caldeirão” no qual todas as religiões são consideradas iguais, mas que todos os fiéis, aqueles que buscam a Deus e todas as pessoas de boa vontade sem uma afiliação religiosa, têm igual dignidade.

Viver a própria identidade na “coragem da alteridade” é o limiar que a Igreja do Papa Francisco nos pede para atravessar hoje. Só assim a fidelidade a Deus, em Jesus, se torna história nova, construção de uma civilização de aliança que abraça na paz e na troca de dons a riqueza das diferenças.

A declaração de Abu Dhabi é um apelo global à “civilização do amor”, que contrasta com aqueles que desejam um confronto de civilizações! Oração, diálogo, respeito e solidariedade são as únicas armas vencedoras contra o terrorismo, o fundamentalismo e todos os tipos de guerra e violência. São armas que fazem parte dos arsenais espirituais de todas as religiões.

31 agosto 2019, 08:00