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A história política de Jerusalém está inextricavelmente interligada com os acontecimentos dessas três religiões monoteístas. A história política de Jerusalém está inextricavelmente interligada com os acontecimentos dessas três religiões monoteístas.   (AFP or licensors)

Jerusalém, cidade para todos os povos

A Santa Sé pede que sejam respeitadas as resoluções da ONU sobre Jerusalém, a Cidade Santa para as três religiões monoteístas. Somente um status garantido internacionalmente pode preservar seu caráter único e ser uma garantia de paz.

Sergio Centofanti - Cidade do Vaticano

Jerusalém é uma cidade sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos. O rei Davi a escolheu como a capital do reino de Israel há cerca de 3.000 anos. Em Jerusalém, Jesus viveu, morreu e ressuscitou há 2000 anos. Em Jerusalém, segundo a tradição corânica, Maomé fez uma subida mística ao céu há cerca de 1400 anos.

O status quo de Jerusalém 

 

A história política desta cidade está inextricavelmente interligada com os acontecimentos dessas três religiões monoteístas. O Império Otomano, em 1852, emitiu um decreto sobre o "status quo", que congela nesta data a questão das propriedades dos lugares religiosos disputados.

Israel proclama Jerusalém capital

 

Em 1947, a ONU com a Resolução 181, estabeleceu o plano de partição da Palestina, destinado a resolver o conflito entre judeus e árabes, que explodiu durante o mandato britânico, propondo a coexistência de dois Estados, um judeu, outro árabe, com Jerusalém sob controle internacional.

Em 14 de maio de 1948, é declarado unilateralmente o nascimento do Estado de Israel: eclode a guerra árabe-israelense. A cidade é dividida em dois setores: Jerusalém Ocidental, habitada por judeus, e Jerusalém Oriental, habitada por árabes. Durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel também ocupa a parte Oriental.

Em 1980, o Knesset proclama Jerusalém como "a capital eterna, única e indivisível" do Estado de Israel, sem o reconhecimento da comunidade internacional.

Santa Sé: respeitar as resoluções da ONU

 

Em dezembro de 2017, o presidente dos EUA, Donald Trump, reconheceu oficialmente Jerusalém como a capital de Israel. A Delegação da Santa Sé na ONU, também em dezembro de 2017, intervém com uma declaração no debate da Assembleia Geral sobre a decisão dos EUA, recordando "a obrigação de todas as nações a respeitarem o status quo histórico da Cidade Santa, em conformidade com as relativas Resoluções da ONU".

"A identidade única de Jerusalém, que é de interesse universal - é enfatizado - consiste em sua natureza particular da Cidade Santa, sagrada para as três religiões monoteístas e símbolo para milhões de crentes em todo o mundo, que a considera como sua "capital espiritual".  Seu significado ultrapassa questão das fronteiras e esta realidade deve ser considerada uma prioridade em todas as negociações para uma solução política.

"A delegação vaticana faz o pedido de "uma resolução pacífica que respeite a natureza de Jerusalém, sua sacralidade e seu valor universal", reafirmando que "somente um status internacionalmente pode preservar seu caráter único e ser uma garantia de diálogo e reconciliação pela paz na região”.

Apesar dos protestos internacionais, a embaixada dos EUA é transferida de Tel Aviv para Jerusalém em 14 de maio de 2018. De acordo com Dom Giacinto Boulos Marcuzzo, vigário patriarcal para Jerusalém e Palestina, é "uma decisão que vai contra a história, contra a justiça e o bem da população de Jerusalém. Hoje – afirma ele - o processo de paz que havia sido iniciado foi congelado".

Papa Francisco: Jerusalém, cidade única

 

Os discursos do Papa Francisco sobre Jerusalém são inúmeros. Em seu discurso no Corpo Diplomático de 8 de janeiro de 2018, ele dirigiu um apelo aos israelenses e palestinos, convidando "a ponderar todas as iniciativas, para se evitar o agravamento dos conflitos". Mas reitera várias vezes a posição do Vaticano sobre o assunto. Por ocasião da reunião em Bari com os líderes das Igrejas e comunidades cristãs do Oriente Médio em 7 de julho de 2018, o Papa diz:

"Voltemos nosso olhar para Jerusalém, uma cidade para todos os povos, cidade única e sagrada para cristãos, judeus e muçulmanos de todo o mundo, cuja identidade e vocação devem ser preservadas para além das várias disputas e tensões, e cujo status quo exige ser respeitado como aprovado pela comunidade internacional e repetidamente solicitado pelas comunidades cristãs da Terra Santa. Somente uma solução negociada entre israelenses e palestinos, firmemente desejada e favorecida pela Comunidade das Nações, pode levar a uma paz estável e duradoura, e garantir a coexistência de dois Estados para dois povos".

Dom Auza: nenhuma modificação unilateral do status quo

 

Em outubro de 2018, Dom Bernardito Auza, observador permanente da Santa Sé nas Nações Unidas, intervém durante uma sessão do Conselho de Segurança, reiterando que a Santa Sé "deseja reafirmar o histórico status quo" de Jerusalém, de acordo com as resoluções das Nações Unidas, e "rejeita qualquer medida unilateral que visa mudá-lo".  A Cidade Santa – diz ele - deveria ser um lugar de convergência e de paz e aos fiéis das três religiões monoteístas deveria ser garantido o acesso livre e sem obstáculos aos lugares sagrados.

Portanto, "a proposta inicial de um status internacional garantido pelas Nações Unidas continua sendo ainda de grande importância para cumprir a vocação singular da cidade". Então, sublinha como a solução de dois Estados é "o único caminho sustentável para cumprir as aspirações de uma coexistência pacífica entre israelenses e palestinos e o único plano de paz viável que permitiria que ambas as nações vivessem lado a lado dentro de fronteiras seguras e internacionalmente reconhecidas".

Acordo da Santa Sé-Estado de Israel

 

Por fim, recordamos os dois acordos estipulados pela Santa Sé com Israel e a Palestina. Em 1993, com o Acordo Fundamental com a Santa Sé, o Estado de Israel se empenha pela liberdade de religião e de consciência, para a promoção da recíproca compreensão entre as nações, a tolerância entre as comunidades e o respeito pela vida e a dignidade humana; reconhece o direito da Igreja Católica de desenvolver as próprias obras religiosas, morais, educativas e caritativas e a ter suas próprias instituições; Israel "afirma seu compromisso permanente de manter e respeitar o status quo nos Lugares Santos cristãos", para os quais é válido, e os relativos direitos das comunidades cristãs que estão incluídas nele e ao respeito e à tutela "do caráter próprio dos lugares santos católicos, como igrejas, mosteiros, conventos, cemitérios e afins”.

Acordo da Santa Sé-Estado da Palestina

 

Em 2015, com o Acordo Palestina-Santa Sé, se garante a liberdade de consciência e de religião, os direitos de organização e de jurisdição pessoal, a liberdade de movimento e status pessoal, a liberdade de culto e dos Lugares Santos, a liberdade de estabelecer instituições de caridade, de cultura e de meios de comunicação, até a objeção de consciência, o direito de propriedade e de gestão.

Além disso, os cristãos são considerados "cidadãos plenos", "que pretendem continuar a desempenhar esse papel ... junto com outros cidadãos considerados irmãos".

Por fim, o texto do Acordo faz votos de uma solução para a questão palestina e o conflito entre israelenses e palestinos no âmbito da solução de dois Estados defendida pela Santa Sé e as resoluções da comunidade internacional, exortando a um acordo entre as partes.

30 março 2019, 17:42