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Editorial: Ferida ‘no corpo da humanidade’

Publicados dois novos documentos da Seção de Migrantes e Refugiados do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Forte preocupação com o tráfico de seres humanos

Silvonei José - Cidade do Vaticano

A questão dos migrantes e do tráfico de seres humanos está no centro das preocupações pastorais e das orientações magisteriais do Papa Francisco. Prova disso são os dois novos documentos realizados pela Seção Migrantes e Refugiados do Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral, uma Seção que é presidida diretamente pelo Santo Padre em sob a direção de dois subsecretários: o jesuíta eslovaco-canadense Michael Czerny e o scalabriniano italiano Fabio Baggio.

Os dois textos foram apresentados na última quinta-feira (17/01) aqui no Vaticano e têm como títulos "Diretrizes Pastorais sobre o Tráfico de Pessoas" e "Luzes nos Caminhos da Esperança - Ensinamentos do Papa Francisco sobre Migrantes, Refugiados e Tráfico de Pessoas".

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O primeiro texto, as "Diretrizes Pastorais sobre o Tráfico de Pessoas", é resultado de um processo de consulta às Conferências Episcopais, organizações católicas e congregações religiosas e apresenta uma série de orientações pastorais para compreender, reconhecer, prevenir e erradicar o flagelo do tráfico de pessoas, proteger as vítimas e promover a reabilitação de sobreviventes. O documento de 38 páginas ilustra "realidades e respostas" ao flagelo do tráfico, apontando suas causas, solicitando seu reconhecimento, ilustrando as dinâmicas e possíveis formas de superar o fenômeno.

Já o segundo texto, com a apresentação do próprio Papa, é uma importante coleta (489 páginas) dos ensinamentos magisteriais do Papa Francisco sobre migrantes, refugiados, trágico de seres humanos desde o início de Seu Pontificado até o final de 2017. O texto tem também uma versão eletrônica com um programa de pesquisa, disponível no site da Seção, que é atualizado regularmente a cada seis meses incorporando os novos ensinamentos pontifícios.

"Mover-se e estabelecer-se em outro lugar com a esperança de encontrar uma vida melhor para si e para suas famílias: esse é o desejo profundo que moveu milhões de migrantes ao longo dos séculos", observa o Pontífice em seu prefácio. Francisco explica como os êxodos dramáticos de refugiados sejam "uma experiência que o próprio Jesus Cristo experimentou, junto com seus pais, no início de sua vida terrena, quando tiveram que fugir para o Egito para se salvarem da fúria assassina de Herodes".

"A viagem dos migrantes nem sempre é uma experiência feliz", observa ainda o Papa. Basta pensar nas "terríveis viagens das vítimas do tráfico". Mas também nesse caso, no entanto, "não faltam possibilidades de resgate, como ocorreu com o pequeno José, filho de Jacó, vendido como escravo pelos irmãos ciumentos”, e que no Egito se tornou um homem de confiança do faraó.

"Em Sua infinita misericórdia, Deus concede livremente a Sua graça em todas as circunstâncias", escreve Francisco. "Isto é confirmado pelos exemplos inspiradores de nossos antepassados na fé, que tiveram que fugir da perseguição ou, seguindo a voz do Senhor, viajaram para terras distantes como missionários".

"Também hoje - observa o Pontífice - os movimentos humanos, mesmo gerando desafios e sofrimentos, enriquecem nossas comunidades, as Igrejas locais e as sociedades de todos os continentes". Como a história humana, a história da salvação, é marcada por itinerários de diferentes tipos - migrações, exílios, fugas, êxodos - tudo é motivado pela esperança de um futuro melhor em outros lugares. E também quando os itinerários foram introduzidos com intenções criminosas, como no caso do tráfico, “não devemos deixar roubar a esperança de libertação e resgate”, acrescenta o Santo Padre.

O Papa Francisco faz votos de que essa coleção de ensinamentos e reflexões possa iluminar os nossos passos ao longo dos caminhos da esperança, fornecendo ideias inspiradoras para a oração, a pregação e a ação pastoral."

O Papa nunca escondeu a sua profunda preocupação para com esse fenômeno, que envolve milhões de pessoas - homens, mulheres e crianças - que podem ser contadas entre as pessoas mais desumanizadas e descartadas no mundo de hoje.

Francisco chama o tráfico de pessoas de ‘flagelo terrível’, uma ‘chaga abominável’ e uma ferida ‘no corpo da humanidade contemporânea’.

O objetivo das orientações publicadas esta semana é precisamente fornecer uma chave de leitura do tráfico e uma compreensão que deem razão e apoio a uma luta necessária e duradoura para erradicá-lo.

18 janeiro 2019, 15:14