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Patriarca copta Tawadros II e Papa Francisco no Vaticano Patriarca copta Tawadros II e Papa Francisco no Vaticano (cardeal Koch à direita) 

Cardeal Koch: "A irmã da religião é a paz"

Na entrevista à Agência Sir - dedicada aos cristãos perseguidos e mortos por causa de sua fé - o Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, cardeal Kurt Koch, faz uma avaliação dos principais acontecimentos ecumênicos que marcaram o ano de 2017.

Cidade do Vaticano

Um ano intenso, rico de relações, de encontros, de etapas históricas que abriram perspectivas inéditas. Esta é a avaliação do presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade do Cristãos, cardeal Kurt Koch, ao fazer à Agência Sir dos bispos italianos um balanço do ano 2017 numa perspectiva ecumênica.

Ao mesmo tempo, foi um ano difícil, infelizmente marcado por uma série de atentados cometidos em nome do extremismo religioso, que mais uma vez visaram os cristãos, em diversas partes da terra. Uma dor que une todas as Igrejas no ecumenismo de sangue, como o define o Papa Francisco.

Eminência, partimos da atualidade. Domingo, 17 de dezembro, III Domingo do Advento, um atentado reivindicado pelo Isis, atingiu uma Igreja metodista de Quetta, Paquistão. O que lhe veio em mente quando soube do ataque?

Uma grande tristeza. É o enésimo ataque cometido por terroristas ligados ao fundamentalismo e ao extremismo fomentado pelo Isis. Foram atingidas pessoas durante a liturgia, enquanto estavam diante de Deus. Estamos no Natal e a mensagem de Natal diz definitivamente que a irmã da religião é a paz e, de forma alguma, a violência pode encontrar justificação. Esta é a mensagem que devemos difundir em todo o mundo”.

Por que atingir os cristãos?

Os cristãos no mundo são perseguidos e mortos não porque são católicos ou ortodoxos, protestantes ou luteranos, reformados ou anglicanos, mas porque são cristãos. O sangue deles derramado em sentido martirológico nos une, e os mártires no Céu já encontraram aquela unidade que nós buscamos na terra. Era um grande tema fortemente presente no pontificado de João Paulo II, que dedicou todo um capítulo da sua Encíclica sobre o ecumenismo – “Ut unum Sint” – ao ecumenismo dos mártires. Hoje o Papa Francisco fala de ecumenismo de sangue. 80% de todos os homens que são perseguidos no mundo por causa da religião, são cristãos. Não estou certo de que os cristãos na Europa tenham uma clara consciência desta realidade. Mas para os nossos irmãos e irmãs perseguidos,  é importante ter um apoio de oração e também na vida”.

O que toca foi a reação da comunidade copta ortodoxa do Egito logo após os atentados no Cairo e depois em Alexandria e Tanta. Não pediram vingança, nem justiça, nem mais segurança. Perdoaram. Que tipo de cristianismo aparece nestes contextos?

“É o grande testemunho que nos deixou o primeiro mártir Estêvão, que era perseguido, mas rezou para que Deus perdoasse os seus executores. E antes ainda, o fez Jesus na Cruz quando disse perdoai-os por que não sabem o que fazem. Creio que seja o sinal daquilo que os cristãos podem dar ao mundo. O sinal de uma grande fé, de uma radicalidade, de uma escolha vivida no mistério de Cristo. Podemos aprender muitas coisas destes fiéis”.

Do ponto de vista ecumênico, como foi 2017? É de poucos dias atrás a notícia de que o Papa Francisco telefonou para o Patriarca Tawadros para felicitá-lo enquanto estava internado em um hospital. Poderia ser dizer que o ecumenismo de Francisco é o ecumenismo da fraternidade?

“Há uma grande amizade entre o Papa Tawadros e o Papa Francisco. E a visita de Francisco ao Cairo aprofundou muito esta relação de amizade. O Papa Tawadros tem um grande coração ecumênico e de abertura com a Igreja Católica. Demonstrou isto quando decidiu fazer a sua primeira visita fora do Egito, a Roma. E quando quis que a cada ano, em 10 de maio seja celebrado o Dia da amizade copta-católica”.

Quanto são importantes as relações de amizade entre os líderes cristãos na construção da paz, sobretudo em contextos onde a paz é continuamente ameaçada?

Em um mundo como o de hoje, em que se incita à violência contra os outros, é importante que os líderes religiosos digam que a violência cometida em nome de Deus é um abuso da religião”.

2017 foi o ano em que se concluiu o 500º aniversário do início da Reforma Protestante. Que balanço e quais perspectivas se abrem para as relações futuras?

“Antes de tudo gostaria de dizer que foi a primeira celebração da Reforma na época ecumênica. No passado as celebrações da Reforma eram sempre marcadas por tons polêmicos,  anticonfessionais e anticatólicos. Este ano os luteranos não quiseram celebrar a Reforma somente entre eles, mas  pediram para fazer junto conosco e o evento mais importante foi o encontro entre o Papa Francisco e o então presidente da Federação Luterana Mundial em Lund, na Suécia. Penso que este evento seja o fruto de um grande diálogo que foi levado em frente no passado. 2017 é o ano em que fizemos memória dos 50 anos de diálogo ecumênico entre luteranos e católicos, que foi o primeiro que a Igreja Católica assumiu depois do Concílio Vaticano II. E é um diálogo que amadureceu muitos frutos importantes como a Declaração Comum sobre a Doutrina da Justificação em 1999 e, recentemente, o documento “Do conflito à comunhão”, que mostrou o conteúdo da celebração”.

O que este diálogo diz ao mundo atual?

No passado tivemos muitos conflitos, conhecemos a divisão das Igrejas, assistimos até mesmos a guerras horríveis e desta história devemos pedir perdão. É um perdão muito  importante hoje. Olhemos para as lutas entre sunitas e xiitas no mundo muçulmano: devemos admitir que fizemos a mesma coisa no passado e disto devemos nos arrepender. Mas existe também um sentimento de gratidão por tudo aquilo que redescobrimos ter em comum. E depois existe um sentimento de esperança. Depois da celebração de Lund, podemos dar ulteriores passos no futuro. O ano de 2017 não pode ser um ponto, mas deve marcar um ponto duplo que abre a uma continuação, rumo àquilo que não divide, mas une. No passado não era possível ter esta unidade”.

2017 foi também o ano em que de Bari, as relíquias de São Nicolau foram levadas a Moscou e São Petersburgo. Uma iniciativa que abriu a um ecumenismo popular...

“Era um desejo do Patriarca Kirill. No dia seguinte ao encontro em Havana com o Papa, o Patriarca manifestou a mim o desejo de ter a relíquia de São Nicolau em Moscou e em São Petersburgo. E esta transferência ajudou muito. Depois do encontro com o Papa, o Patriarca encontrou muita oposição, também dentro da Igreja Ortodoxa Russa. Mas com a presença das relíquias, o Patriarca pode dizer: este é o primeiro fruto do encontro de Havana e isto ajudou muito a mudar a mentalidade. É o ecumenismo dos Santos, que abre a oportunidade para incluir no diálogo os fiéis. É bom que os líderes de Igrejas se encontrem, mas se as pessoas não são envolvidas, não podemos avançar (...)”.

Mas haverá um novo encontro entre o Patriarca e o Papa Francisco?

“Não se fala sobre isto neste momento. Comemoramos este ano em Friburgo o primeiro aniversário do encontro em Havana e se está preparando um segundo, sempre em fevereiro. Nós homens, não somos responsáveis pelos milagres. Este é o dicastério do Espírito Santo”.

Quais são os seus votos para o ano que se inicia?

“Que possamos continuar a dar ulteriores passos rumo à unidade. Como dizia o Patriarca Atenágoras, nós católicos e ortodoxos nos amamos uns aos outros, professamos a mesma fé. O tempo está maduro para nos aproximarmos da mesma mesa eucarística. É este o objetivo último do ecumenismo: reencontrar a unidade da Igreja”.

(Agência Sir)

30 dezembro 2017, 15:35