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Primeira Comunhão na Igreja Mart Shmoni, em Irbil Primeira Comunhão na Igreja Mart Shmoni, em Irbil  (AFP or licensors)

Cardeal Filoni: Francisco no Iraque, a possibilidade da fraternidade

Em artigo publicado no L'Osservatore Romano, o cardeal grão-mestre da Ordem Equestre do Santo Sepulcro reflete sobre a viagem que o Papa tem programada para março próximo na "terra charneira" entre o Oriente Médio e a Ásia: será uma "injeção de ânimo "para reconstruir a confiança

por Fernando Filoni

O Papa Francisco, com um anúncio surpreendente embora esperado, revelou nos últimos dias que aceitou o convite feito pelas autoridades iraquianas para visitar a terra de Abraão nos primeiros dias de março. Uma viagem muito esperada, quer pelos iraquianos como pelo Pontífice, que por vários motivos teve que adiá-la. A notícia despertou grande emoção. Muitos no Iraque choraram, me disseram. Também eu fiquei emocionado, tendo compartilhado com aquele nobre povo e em particular com os cristãos, a vida, os dramas e as esperanças nos últimos vinte anos.

O Iraque não é um país qualquer. A Mesopotâmia foi o berço de civilizações antigas de extraordinária beleza (sumérios, babilônios, assírios): ali tivemos a primeira codificação escrita de leis (Código de Hammurabi); ali nasceu a fé de Abraão, pregaram e se considera que tenham sido sepultados vários profetas (Ezequiel, Jonas, Naum); ali floresceu a primeira evangelização atribuída ao apóstolo Tomé; ali se desenvolveu a Igreja do Oriente que estendeu sua presença fecunda ao longo do Golfo Pérsico até a Índia, ao Afeganistão e à China antiga (a "Estela de Xian" traz o credo gravado nela); ali o Islã fez uma de suas primeiras conquistas e conheceu a primeira dramática divisão, entre sunitas e xiitas; ali, a não fácil coexistência entre conquistadores e conquistados produziu o encontro entre as civilizações árabe-greco-cristãs que desempenharam um grande papel na civilização do Mediterrâneo; ali nasceram as heresias e grandes obras teológicas, grandes santos e escritores sagrados. Os cristãos que até agora a habitaram, são herdeiros de uma história gloriosa, nem sempre bem conhecida.

História de fé e sangue

 

Geopoliticamente, o Iraque é uma "charneira" entre o Oriente Médio e a Ásia centro-ocidental. A fertilidade dos dois grandes rios que o atravessam e as riquezas do petróleo têm sido fonte de grandes bênçãos, guerras e sofrimentos. O Papa encontrará nos recantos desta terra, banhada pelo sangue de inúmeros conflitos, uma história que pesa nos ombros das populações que ali habitam.

A presença cristã diminuiu gradual e dramaticamente no decorrer dos últimos cem anos. Até algumas décadas atrás, estava concentrada em Bagdá (que como capital oferecia maiores oportunidades de trabalho), na Planície de Nínive (Mosul, antiga Assíria) e no norte do Curdistão - onde os missionários dominicanos toscanos compuseram o primeiro vocabulário e a primeira gramática curda (1787). Trata-se de comunidades que sobreviveram a séculos de adaptação, de convivências não fáceis, de pressões autoritárias, de impostos e fardos, de induções matrimoniais e proibições, de discriminações e ódios, de intolerâncias e invejas e, nos últimos tempos, também de perseguições (cfr. A Igreja no Iraque. História, desenvolvimento e missão, desde os primórdios até os dias atuais, Livraria Editora Vaticana, 2015). A história desta terra é uma interconexão de pessoas e eventos. E a de hoje não prescinde a de ontem.

O Papa Francisco levará consigo uma novidade. A possibilidade de uma coexistência fundada naquela  fraternidade que quis firmar em Abu Dhabi em 4 de fevereiro de 2019. Não é secundário que isso aconteça depois daquele evento e que leve aqueles princípios de coexistência dos quais a terra de Abraão, o Iraque de hoje, absolutamente tem necessidade. A Igreja Católica (caldeia, síria, armênia, latina), mas também do Oriente, tornou-se porta-voz, junto a tantas minorias, da necessidade de uma coexistência respeitosa de todos os cidadãos, independentemente da profissão de fé de cada um.

Uma generosidade incrível

 

No dia 20 de agosto de 2014, no final da tarde, o Papa Francisco me concedeu uma audiência no meu retorno do Iraque, para onde me havia enviado dez dias antes como seu representante para estar perto e mostrar a solidariedade da Igreja a milhares de cristãos e outras minorias. que os terroristas do ISIS haviam expulsado, despojado de todos os bens, de Mosul e da Planície de Nínive.

Contei-lhe sobre a terrível situação das inúmeras famílias que paravam perdidas ao longo das estradas ou simplesmente instaladas em qualquer lugar que pudesse oferecer hospitalidade: igrejas, escolas, jardins, prédios em construção. Em toda parte eram organizadas cozinhas, banheiros, pequenas enfermarias para idosos e enfermos. Uma generosidade incrível. Eu tinha ouvido histórias de pessoas que tinham perdido tudo, episódios de assassinatos terríveis, histórias de violência contra mulheres jovens sequestradas e vendidas nos mercados, de crianças separadas de seus pais; havia compartilhado as ansiedades e preocupações dos líderes Yazidi que falavam de violências indizíveis; eu tinha visitado a frente militar noroeste do peshmerga a algumas centenas de metros das linhas do ISIS. As autoridades curdas foram muito generosas em ajudar e organizar a resistência; pediam aos cristãos que não abandonassem suas terras, reconhecendo que "eles tinham o direito original de morar lá". Foi a primeira vez que o disseram, segundo me contaram os bispos. Relatei, não sem profunda emoção, ao Papa, muito impressionado com aquela narrativa. Voltei ao Iraque para a Páscoa 2015; queria que aquela população soubesse que não tínhamos esquecido dela. A Força Aérea Italiana ajudou-me a levar seis mil "pombas da Páscoa" para as famílias, um presente de famílias da Diocese de Roma. Foi um momento de alegria e amizade.

Recomeçar a partir da "pátria comum"

 

Aprendi a amar o povo iraquiano e suas comunidades cristãs durante meus cinco anos de serviço como representante diplomático da Sé Apostólica no Iraque. Foram anos difíceis; a queda de Saddam Hussein levou o caos e a comunidade cristã tornou-se objeto de ataques ferozes, assassinatos, confisco de casas e propriedades; quem podia, fugia. Os bispos, o clero e os religiosos e religiosas, todos nós compartilhamos o drama dos bombardeios e da guerra. Isso solidificou a estima e o carinho.

A visita pastoral do Papa será uma injeção de ânimo, para que o Iraque se torne um país de convivência civil e respeitosa. Reconstruir a confiança é fundamental. Como disse o arcebispo latino de Bagdá, Dom Jean Benjamin Sleiman, é necessário que os cristãos, revigorados na fé, não se comportem como uma minoria que luta para alcançar a história que aparentemente os deixou para trás, mas que devem recomeçar a partir do conceito de pátria comum, de cidadania sem conotações e da Carta dos Direitos do Homem, do bem coletivo e de uma organização moderna e racional. Acrescento: o Documento de Abu Dhabi pode ajudar a atingir este objetivo: quer entre muçulmanos para superar a profunda divisão entre sunitas e xiitas, quer entre islã e cristianismo, sem ignorar as muitas pequenas minorias que habitam esta extraordinária terra de Abraão.

11 dezembro 2020, 10:27