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Bovati: um verdadeiro discípulo não fica trancado, mas leva Deus ao mundo

Na manhã de sexta-feira (06/03) em Ariccia, a nona e última meditação dos Exercícios espirituais da Quaresma para a Cúria Romana e para o Papa que, devido a um resfriado, os acompanhou da Casa Santa Marta, no Vaticano. Segundo reporta o L'Osservatore Romano, o pregador, o padre jesuíta Pietro Bovati se deteve sobre o tema "A presença de Deus"

Cidade do Vaticano

Cristo está presente onde os discípulos obedecem a seu mandato, “não permanecem prisioneiros em seu pequeno redil, mas saem para levar a irradiação da graça no mundo”. Uma “tarefa sobre-humana, confiada a homens que fazem a experiência da sua fragilidade” e que “podem assumir esta missão somente porque Jesus lhes diz: “Eu estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos”.

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Essa foi a conclusão à qual chegou padre Pietro Bovati na nona e última meditação oferecida aos participantes dos exercícios espirituais para a Cúria Romana, na manhã de sexta-feira (06/03), na Casa Divin Maestro, em Ariccia. Devido a um resfriado, o Papa Francisco acompanhou os Exercícios espirituais da Casa Santa Marta, no Vaticano.

Moisés, o povo de Deus

“A presença de Deus” foi o tema abordado pelo secretário da Pontifícia Comissão Bíblica na conclusão deste itinerário semanal que tinha sido iniciado na tarde de domingo, 1º de março. Inspirando-se nas leituras extraídas do capítulo 33 do livro do Êxodo (7-17), do Evangelho de Mateus (28, 16-20) e do Salmo 90, o pregador iniciou ressaltando que “o Senhor está presente em nossa vida, é o Emanuel para nós, e nos acompanha em nosso caminho”.

E o primeiro a entender isso foi Moisés, exemplar em guiar Israel “mostrando que é de Deus, da relação com Ele, em obediência, que se recebe como graça a capacidade de conduzir o povo”.

A propósito, padre Bovati se disse consciente de “que Jesus recomendou rezar no segredo sem exibição” e também “que a oração jamais deve tornar-se espetáculo e muito menos autocelebração”.

Todavia – observou – “é um dever ser um exemplo luminoso”; com a advertência de que “esta exemplaridade é verdadeira quando não busca o aplauso feito pelo homem, mas, pelo contrário, a adoração a Deus”, mediante uma “irradiação espiritual” que “vem propriamente de quem reza, porque atrai, leva os homens a amar Deus”.

O caminho e a missão

Detendo-se sobre os termos do diálogo entre o Senhor e Moisés no trecho meditado, padre Bovati observou que o primeiro usa um imperativo: “faze subir”. O mesmo “pode ser “irritante somente se pensado simplesmente como a vontade do outro; mas quando a ordem é promulgada da boca do amigo, do Deus de amor, se é compreendida em sua verdade”, então ela “ilumina, torna sapientes, encoraja, promove a vida do crente, porque é como um caminho aberto, uma porta que se abre sobre o mistério do amor”.

Ademais, prosseguiu o pregador, “a ordem divina é sempre proporcionada ao homem porque é possível, aliás, fácil de ser cumprida, não porque a ordem que Deus determina seja sem fadiga nem sacrifício; mas porque quem dá a ordem promete a sua presença, dá o poder, a graça, o espírito” para realizá-la.

Mais ainda; a expressão subir evoca de um lado “um processo contínuo”, “um movimento de libertação que jamais se concluirá enquanto estivermos nesta terra”; e de outro “indica que há sempre um processo de elevação”; que não custa somente “fadiga”, mas é também “promoção, exaltação, ir rumo a algo de mais elevado”.

Um elemento ulterior identificado pelo secretário da Pontifícia Comissão Bíblica concerne ao fato que Moisés não pede ao Senhor “recompensas, nem sinais, nem promessas” para si, mas “pede somente para ser instrumento”. É como um profeta que toda vez deve ser instruído pelo Senhor para cumprir dia após dia a sua missão”.

E nisso o pastor tem o dever de “saber reconhecer e promover no ministério comum as pessoas que Deus elegeu e consagrou, enviou; de modo a ser depois ele a escolher quem foi escolhido por Deus e poder consagrar quem foi santificado por Deus, isto é, dotado do Espírito para o ministério”.

Portanto, esclareceu o pregador jesuíta, Moisés “desde o início compreendeu a necessidade” de ter “colaboradores: para ir até o faraó teve que ser acompanhado por Aarão; para celebrar o triunfo do Senhor no mar teve que envolver a voz os tamborins de Miriam; para vencer Amalec teve que atrair Josué, mas também Aarão e Cur para sustentar suas mãos”, e “para administrar a justiça, com suas inúmeras exigências, teve que recorrer a um colégio de juízes, de modo que na subdivisão das tarefas fosse possível carregar o peso de tanta responsabilidade e ativar também uma sinodalidade, ou seja, uma unidade de intentos, uma colaboração rumo ao mesmo objetivo”.

“E “uma tal comparticipação de muitos para a mesma missão não evidencia somente a atitude sapiencial” de quem “entende que se não quiser sucumbir é preciso fazer-se ajudar, e nem mesmo o fato de que ser mais numeroso torna as coisas fáceis, porque se diz no provérbio ‘o cordão tríplice é mais resistente’”.

Aliás, interceder a fim de que “outros sejam envolvidos na mesma missão, faz emergir, qual religioso testemunho, que somente Deus é o princípio único da salvação, cuja presença invisível é atestada propriamente pela renúncia de cada um a ser o único artífice de bem”.

O discernimento “prático”

Eis então a capital importância do discernimento: “não são certamente os critérios de amizade, simpatia, afinidade cultural ou outra coisa, nem uma simples consideração de qualidades objetivas no campo intelectual ou prático que asseguram competência, eficiência, confiabilidade”.

Mas, explicou padre Bovati, “tudo isso deve ser submetido a uma intuição espiritual de ordem profética que saiba reconhecer aquilo que Deus quer, aquilo que Deus já colocou numa determinada pessoa, talvez até sem seu conhecimento, para que seja preparada para a tarefa que o Senhor lhe confiará”.

De resto, é o próprio Moisés a formular o pedido “para saber reconhecer aquele que Deus escolheu”, assim com ele mesmo “foi pessoalmente escolhido e conhecido por nome”, embora “talvez ele não tenha sido escolhido sem motivo”.

Atualizando a reflexão, o pregador falou em seguida do percurso que o pastor deve seguir para levar os rebanhos às pastagens eternas: “num tempo de mudanças, de dificuldades, de incertezas como o tempo atual – disse –, é mais do que nunca necessário saber encontrar o caminho apropriado para aquilo que Deus quer hoje”.

Com uma certeza: que “o justo caminho” é “o traçado pelos mandamentos, que são como marcos, delineiam a rota, o percurso”, exatamente como Moisés “que recebeu a Torá, também a escreveu, depois a comunicou e explicou ao povo após ter estado repetidamente à escuta do Senhor na santa montanha”.

Eis então que retorna o tema do “discernimento”, ao qual o biblista acrescentou o adjetivo “prático” para indicar “aquela capacidade sapiencial de natureza profética – doada por Deus na oração – de reconhecer concretamente, nas circunstâncias complicadas da história, no hoje, na variedade das pessoas, dos momentos, as prioridades a serem seguidas; reconhecer portanto, em cada realidade, aquilo que Deus quer”.

E para fazer isso, recomendou, “não basta o conhecimento teórico ou uma competência nas ciências teológicas. É preciso um dom espiritual, não comunicado uma vez por todas, mas ‘destilado’ dia após dia para ajudar as pessoas a escolher o caminho que foi indicado, para ajudar o pastor a conduzir nos bons caminhos”.

Trata-se, portanto, de “um dom espiritual e como tal é intrinsecamente amoroso, não se apresenta como a pretensão do douto, do competente, que sempre sabe tudo”, mas é “a consciência útil do discípulo que foi instruído pelo Senhor”.

Por fim, padre Bovati exortou a meditar os últimos versículos do capítulo 28 do Evangelho de Mateus, dedicados ao encontro de Jesus Ressuscitado com seus discípulos. Ele pede aos onze que voltem para a Galileia, ao lugar onde se originou a vocação deles, para reviver a fé “que talvez ainda agora seja vacilante” após a sua crucifixão. Mas, observou o jesuíta, não se trata de “um procedimento nostálgico”, mas sobretudo de entender “o dom fundante que consiste em seguir Jesus, estar com Ele, viver da sua palavra e de seu amor”.

Ademais, manda-os a uma “terra de confim, a Galileia das nações”, fazendo-os “sair do gueto glorioso, mas também orgulhoso de Jerusalém para leva-los às fronteiras” e enviá-los a “fazer discípulos em todas as nações”.

De fato, “Cristo derramou o seu sangue para as multidões”. E agora, como “pastor supremo das ovelhas, faz de seus discípulos pastores” para “uma prossecução, uma dilatação da sua obra de amor”, argumentou o pregador concluindo a sua reflexão.

06 março 2020, 11:55