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D. António Barroso - antigo Bispo do Porto D. António Barroso - antigo Bispo do Porto 

A “lucidez evangélica” do Venerável António Barroso

Um livro agora publicado pelo bispo português D. Carlos Azevedo revela a troca de correspondência do bispo do Porto com o Vaticano entre 1899 e 1918. Um período difícil de passagem da Monarquia para a República em Portugal.

Rui Saraiva – Porto

“António Barroso e o Vaticano – Correspondência” é um livro do bispo português D. Carlos Azevedo, Delegado do Conselho Pontifício para a Cultura, que foi apresentado recentemente no Paço Episcopal da Diocese do Porto.

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Esta obra é resultado de três anos de pesquisa do autor no Arquivo Secreto Vaticano sobre as mensagens do antigo bispo do Porto. São publicados mais de 400 documentos, na sua maioria inéditos. D. Carlos Azevedo em entrevista revela o resultado do seu estudo e o alcance do conhecimento histórico da personalidade do Venerável António Barroso.

P: O que é que nos traz este livro?

R: Traz-nos o retrato de uma personalidade. Hoje nós com o correio eletrónico e com o telemóvel esquecemos este género literário que é o da correspondência pessoa a pessoa. E aqui vemos uma correspondência que, com certeza, quando foi produzida não tinha a ideia de ser publicada, porque era dar parecer a um Núncio sobre os assuntos mais variados desde a nomeação de bispos, a criação de dioceses até outros assuntos internos da vida da Igreja num tempo muito crítico como foi o do fim da Monarquia e do princípio da República.

Nós muitas vezes pensamos que o tempo crítico foi só o da mudança da República e não. A ameaça republicana estava já presente no final do século XIX, princípio do século XX em muitas crises ligadas ao ensino, ligadas a questões polémicas. E aí o seu parecer era sempre de uma lucidez que o Núncio apreciava e, muitas vezes, mandava para o Secretário de Estado do Vaticano e acabava por ter correspondência, na resposta que depois era dada, e que tinha em linha de conta a sua opinião e parecer. E isso dá-nos um retrato mais completo da personagem que era António Barroso, sobretudo em documentos inéditos que não eram conhecidos e eu abri quase uma centena de caixas da fase do seu episcopado, mesmo muitas que não tinham nada, mas não deixei de ver se tinha. Foi a produzir o livro de Fátima em 2016 que comecei a encontrar as cartas de D. António Barroso, portanto, daí o despoletar deste interesse.

P: Tem um enfoque temporal esta troca de correspondência publicada agora neste livro?

R: Com certeza que sim. É um enfoque que tem em conta as polémicas e as questões que ocuparam a Igreja mas, ao mesmo tempo, tem uma dimensão inovadora da pastoral, uma dimensão de lucidez, de quem não olha para o imediato mas olha para uma eficácia evangélica e não uma eficácia aparente. E isso, certamente, que são lições sem tempo, são lições para todos os tempos para nós termos uma pastoral que não seja meramente da corrida do imediato mas tenha em conta uma lucidez que ultrapasse o tempo e seja sempre correspondente ao Evangelho e não a agradar a correntes.

P: E qual era a lucidez evangélica de António Barroso?

R: Quem respeita o Evangelho pauta os critérios por uma linha de eternidade e não meramente temporal.

P: Ele que foi um defensor da liberdade religiosa, podemos dizer que, com o seu processo de beatificação, é um exemplo a ser tido e conta e a ser mais conhecido em Portugal e no mundo?

R: A sua determinação apostólica, a sua coragem, são fundamentais para que haja uma correta linha de futuro. E nós sabemos que a humanidade só terá futuro se houver um diálogo inter-religioso, se houver um respeito pela presença de Deus na cultura. E isso está na presente na sua correspondência, está presente na sua atitude. E essa coragem de não deixar que vençam critérios anómalos mas seja plenamente atendida a verdade de Deus e o anúncio do caminho que salva a todos é importante. O seu amor à pátria não era nacionalista mas respeitava a humanidade de todos. E isso é algo que temos muito a aprender quando crescem os nacionalismos e os fundamentalismos que depois são a origem da falta de liberdade religiosa.

P: E que ele aprendeu muito no seu tempo missionário?

R: Exatamente, contactou com realidades diversas e da própria experiência nasceu-lhe a necessidade de dialogar e de abrir caminhos em comum.

A correspondência de D. António Barroso com o Vaticano, agora apresentada, é um livro da autoria do Delegado do Conselho Pontifício para a Cultura, o bispo português D. Carlos Azevedo.

De recordar que D. António Barroso foi bispo do Porto de 1899 a 1918, ano no qual viria a falecer. Foi já reconhecido pela Santa Sé como Venerável estando a decorrer o processo de canonização no Vaticano com a postulação do padre João Pedro Bizarro, sacerdote da diocese do Porto que se encontra a estudar em Roma.

23 maio 2019, 16:32