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Padre Gabriel Romanelli em Gaza Padre Gabriel Romanelli em Gaza 

Gaza, Padre Romanelli: "Uma trégua é urgente antes que comece uma guerra"

O sacerdote, pároco da Igreja da Sagrada Família na cidade de Gaza, testemunha a situação após dois dias de bombardeios. Pelo menos 53 mortos, incluindo dez crianças. "Os pequenos não são de nenhuma facção política, eles são crianças".

Michele Raviart – Vatican News

Os ataques que continuam a atingir Gaza há dois dias, junto com os mísseis que ainda estão sendo lançados da Faixa de Gaza contra as cidades israelenses, estão marcando a situação mais tensa na área desde 2014. Mortos por ataques israelenses quatro comandantes das milícias de Hamas, mas não faltam vítimas entre os civis. Uma situação que está dificultando muito a vida dos habitantes da Faixa que são cerca de um milhão e seiscentos mil, incluindo a pequena comunidade católica que ali está presente. Foi o que disse o Padre Gabriel Romanelli, pároco da cidade de Gaza, que esta manhã celebrou a Missa no convento das Irmãs do Rosário, levemente danificado pelos ataques.

R. - Estamos aqui em Gaza e estamos sob foguetes e bombardeios há cerca de dois dias seguidos. Estamos bem, nossos paroquianos estão bem e também os consagrados e as consagradas. O edifício que sofreu mais danos é o convento das Irmãs do Rosário de Jerusalém. A escola delas não foi bombardeada, mas há danos porque toda a área está sendo atingida. Há danos nas paredes, em muitas janelas e estamos em comunicação com as pessoas. Todos ficam em casa, as pessoas saem apenas para necessidades urgentes, porque - e isto é uma coisa estranha que indica a gravidade da situação - há bombardeios não apenas à noite, mas também durante o dia. Mesmo enquanto estou falando com vocês se pode ouvir o som das explosões. Pedimos realmente a todas as pessoas de boa vontade e que têm o poder de fazê-lo, que pelo menos consigam uma trégua, pois de outra forma isso levará a uma guerra de verdade e seria um desastre.

Sabemos que também há vítimas em Gaza....

R. - Não tenho a lista de pessoas no momento, mas até esta manhã a última contagem falava de 32 mortos, incluindo dez crianças, e as crianças não são de nenhuma facção política. Elas são crianças. Há também uma mulher e há mais de 130 feridos. Alguns estão envolvidos nos movimentos, mas há muitas vítimas civis. (No momento, o balanço fornecido pelas autoridades de Gaza é de 53 mortos, incluindo 14 crianças, e 320 feridos). Infelizmente, esta é uma das sujeiras das guerras e das guerras injustas como esta.

O senhor disse que há bombardeios enquanto estamos conversando... Como é possível enfrentar essa rotina diária?

R. - Você tem que tentar manter a cabeça fria. O que você não pode mudar, você tem que suportar com paciência. Tentamos viver assim, também porque não poderíamos fazer o contrário, não apenas aqui em Gaza, mas em muitas partes do Oriente Médio, como missionários. Isso não significa que estamos tranquilos. Muitas vezes quando ouvimos as bombas mais fortes - e é algo que não podemos controlar – temos palpitações e começamos a chorar, mas isso é normal. Nós somos seres humanos. Tentei contatar todos os grupos paroquiais, as crianças, os adolescentes, os jovens, os catequistas, os escoteiros e os acólitos, homens e mulheres, todos os grupos... Porque a comunidade católica é pequena e temos um grande vínculo, mas também temos contatos com outros cristãos e também com professores e trabalhadores muçulmanos na paróquia e nas escolas. Tentamos manter uma conexão. Eles estavam isolados por causa do coronavírus e agora que tinhas melhorado e tiveram a oportunidade de sair, voltaram para casa por causa dos bombardeios e dos ataques. Tentamos colocar a luz do Evangelho, assim os encorajamos a viver em paz e serenidade e tentamos não ficar apenas com as notícias deste momento, mas também rezar e, sobretudo, viver a caridade interna e a paciência entre eles. Um pouco de experiência que infelizmente temos, por causa das muitas guerras nesta área.

Esta é a situação mais tensa em Gaza nos últimos sete anos. Quais são as palavras, medos e esperanças do povo?

R. - É uma das situações mais graves. Paradoxalmente, durante o período do coronavírus, cerca de um ano e meio, estávamos em paz e não tivemos nenhum confronto, mas parece que ambos os lados se prepararam para estes dias ruins. Então as pessoas tentam viver, dizendo: "esta é nossa vida, é quase normal"! Como se alguém dissesse "eu vivo no Alasca e há gelo e neve" e aqui eles dizem "este é um lugar de guerra e é o que eu tenho", então do ponto de vista humano há desespero. Você pode ver isso nos jovens, porque todos gostariam de sair. Por outro lado, a fé cristã ajuda muito a superar tudo isso, não com desânimo, mas com a esperança de que, apesar desses males, o Senhor colocará um fim. Assim, as pessoas, em certo sentido, vivem aqui mais serenamente do que em outros lugares, porque já são muito, muito sofridas.

12 maio 2021, 16:43