Busca

Vatican News
Dom Youhanna Jihad Battah, arcebispo siro-católico de Damasco. Dom Youhanna Jihad Battah, arcebispo siro-católico de Damasco. 

Battah: em Damasco melhorou a segurança, o Natal traga paz à Síria

Entrevista com Dom Youhanna Jihad Battah, arcebispo siro-católico de Damasco. Na capital da Síria, disse, há ainda pobreza, faltam medicamentos, mas o importante é que não haja mais bombardeios contra civis. No nordeste, entretanto, a Turquia procede ao repatriamento de refugiados sírios

Giada Aquilino - Cidade do Vaticano

Mais de 600 refugiados sírios foram transferidos pelas autoridades turcas para o nordeste da Síria. A área foi o foco da operação militar de Ancara contra as milícias curdas em outubro, seguida de um acordo para cessar os bombardeios negociado pelos Estados Unidos e Rússia. E agora está sob o controlo de Ancara e dos rebeldes que apoiam a Turquia.

Retornos da Turquia

Várias ONG acusaram o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, que sempre falou de regressos "voluntários" de refugiados sírios repatriados para a Turquia, de pretender criar uma área de segurança na zona de fronteira e de proceder a regressos forçados. Human Rights Watch denunciou "execuções sumárias" e "expropriações" realizadas na área controlada pelos turcos.

Noroeste da Síria

Entretanto, no início desta semana, no noroeste da Síria, num território fora de controle das autoridades de Damasco e onde operam milicianos anti-regime, incluindo filiados a grupos de al-Qaeda, foram registados ataques de aviões do governo russo e sírio.

A situação em Damasco

Na cidade de Damasco, pelo contrário, "a situação do ponto de vista da segurança" parece "melhorada", explica ao Vaticano News dom Youhanna Jihad Battah, arcebispo sírio-católico da capital síria, nestes dias em Roma, onde na quarta-feira, na audiência geral na Praça de São Pedro, pôde saudar o Papa Francisco.

R. - Em Damasco não há mais bombardeios contra civis. Durante a guerra acontecia sempre que lançavam mísseis, as pessoas tinham medo, havia falta de eletricidade, faltavam muitas coisas. Hoje a situação do ponto de vista da segurança melhorou, mas há falta de medicamentos, a vida é muito cara, as pessoas não têm dinheiro. Graças ao projeto (Hospitais abertos) desejado pelo núncio apostólico, o cardeal Mario Zenari, os pobres e aqueles que não podem pagar tiveram a oportunidade de ser operados e assistidos em dois hospitais da capital, o francês e o italiano.

No resto do país como se vive? No nordeste, após os bombardeios turcos, existe agora uma zona sob o controlo de Ancara e dos rebeldes que apoiam a Turquia. Qual é a situação, a partir das notícias que o senhor recebe?

R. - O Patriarca nomeou um vigário patriarcal no norte da Síria, em Jazeera: trata-se do padre libanês Joseph Chamii, que eu conheci. O exército sírio entrou na área. Há alguma colaboração com os curdos.

Depois há os estadunidenses, os turcos, os russos. É uma área quente, por isso não é fácil. As pessoas perderam muito, as igrejas foram destruídas, perdemos um jovem padre armênio-católico. A situação, digamos, vai avante...

Há o problema das pessoas deslocadas, daqueles que se refugiaram na Turquia e que agora regressam: será que a Turquia pretende trazer essas pessoas de volta?

R. - O problema com a Turquia, na minha opinião, é que há refugiados. Onde colocar estes refugiados sírios? Alguns escaparam realmente porque tinham medo, mas havia também um plano para tirá-los de lá, para depois dizer que o exército sírio tira as pessoas do país. O que ocorre na Síria é uma guerra contra a Síria.

Como vive no resto do país? No nordeste, após os bombardeamentos turcos, existe agora uma zona sob o controlo de Ancara e dos rebeldes que apoiam a Turquia. Qual é a situação, a partir das notícias que vocês recebem?

R. - O Patriarca nomeou um vigário patriarcal no norte da Síria, em Jazeera: é o padre libanês Joseph Chamii, que conheci. O exército sírio entrou na área. Há alguma colaboração com os curdos.

Depois há os americanos, os turcos, os russos. É uma região atribulada, por isso não é fácil. As pessoas perderam muito, as igrejas foram destruídas, perdemos um jovem padre armênio-católico. A situação que podemos dizer, vai adiante...

Há o problema das pessoas deslocadas, daqueles que se refugiaram na Turquia e que agora regressam: será que a Turquia pretende trazer essas pessoas de volta?

R. - O problema com a Turquia, na minha opinião, é que há refugiados. Onde é que estes refugiados sírios os colocam? Alguns escaparam realmente porque tinham medo, mas havia também um plano para os tirar de lá, para depois dizer que o exército sírio tira as pessoas do país. O que acontece na Síria é uma guerra contra a Síria.

O que o senhor quer dizer com "plano"?

R. - O plano é que eles tiraram estas pessoas de lá, agora o problema é fazê-las voltar. Alguns dizem que a Síria, que o governo não quer estas pessoas. Devemos dizer que há chaves: podemos dizer que a grande chave está conosco, conosco,  sírios. Mas não temos as outras chaves: a Turquia, os Estados Unidos e a Rússia têm essas chaves. Devemos ajudar as pessoas a regressar, porque precisamos delas: precisamos de trabalhadores, de trabalhadores em geral, de todos. Eu, como bispo, posso ser um ponto de paz entre o governo e a comunidade internacional.

Entre os que deixaram a Síria há também muitos cristãos...

R. - Os cristãos se dirigiram às igrejas. Eu, como bispo que estive no Líbano, durante oito anos acolhi muitas famílias, muitos jovens cristãos na minha casa, na minha diocese. E todos nós ajudamos, eu não pergunto: quem é você? Você sofre? Quando alguém vem, não pedimos a identidade, ajudamos todos.

Quantos cristãos existem hoje na Síria?

R. - Antes da crise éramos 10 - 12%, agora estamos falar talvez de 7%. Não há dados realmente claros: podemos dizer  certamente 5% dos 23 milhões de habitantes da Síria, então mais de um milhão...

Destes, quantos são sírio-católicos?

R. - A maior parte da nossa Igreja está em Homs. Temos quatro dioceses, precisamente Homs, Aleppo, Damasco e Jazeera, e podemos dizer que em cada diocese há cerca de mil famílias com cinco pessoas, portanto cinco mil fiéis. Em Homs há um pouco mais, em Damasco 5 mil, em Aleppo menos, em Jazeera a maioria deles foi embora.

Como se prepara o Natal na Síria?

R. - Antes, durante estes anos, nós não pudemos "sentir" a festa, porque muitas famílias estavam feridas: a mãe que perdeu o filho não pode festejar! Agora está melhor: os jovens estão se preparando. Faltava o presépio e eu vou levá-lo!

Que desejo tem a Igreja para este Natal?

R. - Queremos paz e desejamos paz a todo o mundo, pensando-a juntos.

29 novembro 2019, 11:43