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O presidente da Itália, Sergio Mattarella O presidente da Itália, Sergio Mattarella  (ANSA)

Presidente da Itália afirma que "a Europa deve se preocupar mais com o destino das pessoas"

Presidente da Itália, Sergio Mattarella, concede entrevista à mídia vaticana: “afloram atitudes de intolerância, mas ainda prevalece a solidariedade na Itália”.

Andrea Tornielli, Andrea Monda – Cidade do Vaticano

Mesmo “aflorando, ruidosamente, atitudes de intolerância, de agressividade e de fechamento às exigências dos outros”, ainda prevalecem na Itália “iniciativas e comportamentos de grande solidariedade”, afirmou o presidente do país, Sergio Mattarella, em entrevista concedida à mídia vaticana (L’Osservatore Romano, Rádio Vaticano e Vatican News). Por isso, inclusive seguindo o convite do Papa, é bom que o Velho Continente reencontre o espírito dos seus fundadores: “a Europa deve recuperar o espírito do início. Deve se preocupar mais com o destino das pessoas”.

O chefe de Estado falou das “ótimas relações” entre a Itália e a Santa Sé, do papel da Igreja católica no país, da importância do diálogo entre as religiões pela paz no mundo, em relação à Declaração Conjunta assinada em Abu Dhabi.

Presidente, surpreende a dimensão existencial presente nos seus discursos, nos quais emerge sempre o sentido de urgência em relação à crise das relações: o tecido social aparece frequentemente desgastado, as relações partidas, a solidão como marca distintiva das nossas cidades. Segundo o senhor, esta é uma prioridade em relação aos problemas do país e uma questão que a política deve enfrentar?

Sim, esta é a principal preocupação que acredito que deva ser nutrida: uma Itália que recupere completamente o sentido e o valor de se sentir comunidade de vida. A Itália registra, por dentro, uma grande quantidade de iniciativas e comportamentos de grande solidariedade; e essa realidade é claramente prevalente. Mas afloram, ruidosamente, atitudes de intolerância, de agressividade, de fechamento às exigências dos outros. São fenômenos menores, que sempre existiram, na verdade, mas parecem atenuar as hesitações que antes detinham essa manifestação. Não se trata de uma condição peculiar do nosso país: é assim em toda a Europa e também em outros continentes. E se agrega um aspecto diferente, que não pode ser confundido com aquele que apenas indiquei: as consequências da profunda dificuldade social, provocada pela crise econômica-financeira do decênio passado e, refletindo bem, determinada, não somente na Itália, também pela transferência sempre maior de recursos da economia real à finança especulativa; do forte aumento da distância entre os muitos ricos e a grande parte da população. Inclusive as mudanças do mundo do trabalho, consequências das globalização e das novas tecnologias – as duas, a propósito, condições em tantos aspectos positivas – contribuem para aumentar a incerteza e a insegurança no tecido social. Geraram, como dizem os estudiosos, periferias existenciais, não somente territoriais.

Papa Francisco disse: “a primeira, e talvez a maior, contribuição que os cristãos podem dar à Europa de hoje é recordar que ela não é uma coleção de números e instituições, mas é feita de pessoas”. Quanto é importante reencontrar o sentido da Europa como comunidade e o que pode ser feito para que as novas gerações o redescubram?

No mês de janeiro, em Berlim, o presidente alemão Steinmeier me apresentou a ideia de um apelo pela participação ao voto nas próximas eleições para o Parlamento Europeu: rapidamente eu aderi à essa iniciativa e, nos dias passados, apareceu esse documento, assinado por todos os presidentes das Repúblicas da União. Está escrito que a integração europeia é a melhor ideia que tivemos no nosso continente. Essa afirmação tão decisiva parte da convicção de que a União não é um comitê de interesses econômicos, regulamentado pelo critério do dar e do ter, mas é uma comunidade de valores. Essa convicção é a única que corresponde, realmente, à escolha histórica dos fundadores dos primeiros organismos comunitários. Isso é percebido, talvez às vezes sem notar, mas com efetividade sobretudo por duas gerações: a dos mais idosos, que lembram qual era a condição da Europa antes daquela escolha, e a dos mais jovens, que podem viajar livremente de Trapani a Helsinki e de Lisboa a Estocolmo. Veja, todos deveríamos refletir o que provocou duas terríveis guerras mundiais, travadas acima de tudo na Europa; e o que representa viver numa Europa dividida em duas pela cortina de ferro, pelo muro de Berlim, pela angústia, sempre presente, de um conflito nuclear devastador. Acredito que isso esteja bem compreendido pelas novas gerações, aquelas dos nativos digitais, do roaming europeu, dos voos low cost e do Erasmus. Jovens que, mesmo sem declarar, se sentem europeus além de cidadãos do próprio país. Aderem a esta “Casa Comum”. Isso não quer dizer que na União tudo vai bem. A percepção das suas instituições, por parte de largas faixas do eleitorado europeu, não é sempre positiva, mesmo se normalmente é o egoísmo dos Estados – e não das instituições – a frear o sonho europeu. Por certos aspectos, o andamento da vida da União – inclusive pelo freio colocado por parte de alguns países – dá a impressão de estar parado, como numa administração ordinária; quase apagada da condição alcançada, como se o desenho europeu fosse já completado. Isso tem ofuscado sensivelmente o desenho histórico, a perspectiva e a tensão ideal da integração. O Papa Francisco, com sabedoria, indica o centro da questão. A Europa deve recuperar o espírito dos primórdios. Deve se preocupar mais com o destino das pessoas. Deve garantir sempre maior colaboração, igualdade de condições, crescimento econômico, mas isso se realiza realmente somente com um crescimento cultural civil, moral.

17 maio 2019, 20:21