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Conflito no norte de Moçambique gerou milhares de deslocados Conflito no norte de Moçambique gerou milhares de deslocados  (AFP or licensors)

Missionárias scalabrinianas em Cabo Delgado: missão do ser, não do fazer

No mês em que celebramos as missões, propomos aqui uma experiência missionária na Província de Cabo Delgado, em Moçambique. A scalabriniana brasileira Marinês Biasibetti relata o drama vivido por milhares de deslocados que o conflito está provocando: "Eles pedem por comida e água".

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O Papa Francisco com frequência afirma que depois das duas grandes guerras, hoje vivemos uma “guerra em pedaços”, espalhada em várias partes do globo. Um desses “pedaços” atualmente se combate na Província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Desde 2017, um grupo que se proclamou filiado no Estado islâmico trava uma batalha pelo controle do território. Mais de 670.000 pessoas foram deslocadas e milhares morreram.

O Pontífice inúmeras vezes manifestou publicamente a sua proximidade, seja espiritual, seja material. E agora, a Congregação das Irmãs Missionárias Scalabrinianas, já presente em Moçambique desde 1994, aceitando o convite da igreja local e atenta ao grito dos refugiados, decidiu lançar um projeto de assistência humanitária orientada, tornando-se presente através de uma missão itinerante precisamente na zona do Chiure, localizada na província de Cabo Delgado, na diocese de Pemba.

"Aceitamos este pedido da Igreja local, porque esta ação está de acordo com a estratégia missionária que a Congregação assumiu em vários países”, explica a Irmã Neusa de Fátima Mariano, Superiora-Geral das Scalabrinianas.

“Nos últimos anos, a Congregação tem um projeto específico, o MSCS Travelling Service, cuja missão é ser uma presença juntamente com migrantes e refugiados. É uma forma para nós também responder ao apelo do Papa: ser instrumentos de paz, ser uma presença misericordiosa de Deus, no acolhimento, na escuta e na solidariedade.”

O projeto terá a duração de um ano e envolverá três irmãs missionárias Scalabrinianas, que já chegaram ao destino. A Ir. Eléia Scariot contatou uma delas, Ir. Marinês Biasibetti, que relata suas primeiras impressões: 

Ouça o depoimento

Nós estamos nas mãos de Deus, viemos com muita boa vontade em representação da Congregação, mas vemos que de repente não tudo que planejamos, o que temos no papel, será possível, porque a realidade que encontramos, por mais que já conhecíamos pelos meios de comunicação, conhecíamos nos papeis, e agora chegando aqui, a realidade é muito difícil, é muito gritante a realidade dos deslocados.

Então o que mais nós queremos ser é esta presença de misericórdia, de compaixão, de esperança, de estar com eles, por mais que eles, nos aproximando deles, com tantas necessidades, a primeira coisa que eles pedem é comida, é água, é poder estudar, poder ter os serviços básicos mais próximos deles, toda essa realidade que sabemos que é digno de uma pessoa. Só que, infelizmente, nós pouco ou quase nada poderemos fazer neste sentido, mas sim comprometemos e nos comprometemos em ser essa presença de esperança, de estar junto com eles e sermos missionários e talvez vamos aprender muito mais do que dar, é isso também que nós estamos dispostas, abertas e flexíveis para isso.

A gente não sabe muitas vezes nem o que dizer, a gente só escuta. Ontem à noite mesmo, aqui na nossa casa sentamos com um senhor que começou a conversar, então percebíamos que ele tinha essa necessidade de comentar, e conversar toda a trajetória deles, desde que saiu, o tempo que ele ficou no mato, quanto tempo ficou antes de sair da casa com os insurgentes bombardeando o distrito onde ele estava. As populações ao redor e ele também nessa apreensão, nessa preocupação de perder a vida, sua família já tinha saído antes. Então ele contou em primeira pessoa toda a realidade que ele viveu.

Tem que ser muito forte às vezes para a gente não se envolver. Nós vamos ser fortes, temos que ser, porque a realidade que as pessoas contam em primeira pessoa do que viveram, o que viram, das matanças, os corpos, das pessoas como foram levadas ou foram mortas, e agora todo o impacto, toda a consequência também, porque você chega nestes reassentamentos, as pessoas dizem “nós tínhamos a nossa cultura, a nossa casa, as crianças podiam estudar”. Então ver a situação que eles se encontram agora é de cortar o coração e a alma. E sem podermos fazer muita coisa, só mesmo sermos esta presença de mais ser do que fazer. Eu tenho para mim que nesse tempo que aqui vamos estar, vamos ser mais uma presença do que fazer coisas, por mais que queiramos também fazer, mas junto com o fazer precisamos ser, e é isso que as pessoas esperam de nós.

16 outubro 2021, 14:11