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Igrejas e religiões na Ucrânia, uma sinfonia de vozes pela criação

Pelo segundo ano consecutivo, a Semana Social Ecumênica organizada pela Universidade Católica de Lviv, na Ucrânia, tem como ponto de partida a Laudato si' do Papa Francisco. Após a edição do ano passado dedicada a "Ouvir o grito da terra. Ecologia integral em ação", o Instituto de Estudos Ecumênicos da universidade escolheu como tema deste ano "Promover o bem comum: rumo ao desenvolvimento sustentável". Os trabalhos começam em 5 de outubro

Svitlana Dukhovych – Vatican News

A Ucrânia, durante séculos chamada como "o celeiro da Europa" graças ao seu solo fértil, é um país potencialmente muito rico. Os ucranianos - um povo que sabe esperar e lutar por seus sonhos - acreditam que, apesar dos problemas econômicos e sociais e do conflito no leste do país, poderão tomar o destino nas próprias mãos, desenvolvendo todo o seu potencial, preservando a beleza da natureza e garantindo o uso justo e sustentável dos recursos naturais.

A contribuição das Igrejas

Uma importante contribuição para a construção da paz e prosperidade no país do Leste Europeu, que ganhou independência em 1991, também pode vir das Igrejas Cristãs e das realidades de outras religiões. Inspirando-se nas palavras de São João Paulo II, que durante sua visita à Ucrânia, há 20 anos, descreveu-a como um "laboratório de ecumenismo", o Instituto de Estudos Ecumênicos da Universidade Católica de Lviv (UCU) procura criar um terreno fértil para cultivar o diálogo entre as Igrejas e entre as religiões, a fim de fazer ouvir suas vozes na sociedade contemporânea. Todos os anos, desde 2008, o Instituto organiza a Semana Social Ecumênica, um fórum internacional no qual participam representantes do meio acadêmico, das Igrejas, do poder público, de organizações beneficentes e da mídia para discutir e resolver questões sociais, com base nos princípios do bem comum e da Doutrina Social da Igreja.

Alguns dos participantes da edição passada do evento
Alguns dos participantes da edição passada do evento

Ouvir o grito da terra

"Dirigimos, àqueles que ocupam uma posição de destaque nas esferas social, econômica, política e cultural, um apelo urgente para ouvir responsavelmente o grito da terra e atender às necessidades dos marginalizados, mas acima de tudo para responder ao apelo de tantos e apoiar o consenso global para a restauração da criação ferida": esse trecho da Mensagem do Papa Francisco e do Patriarca Ecumênico Bartolomeu I para o Dia Mundial de Oração pela Criação de 2017 inspirou a 13ª edição da Semana Social Ecumênica, celebrada no ano passado com o tema "Ouvir o grito da terra. Ecologia Integral em Ação', durante o Ano Laudato si'. O evento, que ocorreu quase inteiramente on-line devido à emergência da Covid, foi organizado em cooperação com a Fundação Konrad Adenauer e autoridades civis de Lviv.

Um dos encontros on-line da Semana Social Ecumênica
Um dos encontros on-line da Semana Social Ecumênica

Também orientou a reflexão, a convicção - expressa na encíclica Laudato si' do Papa Francisco - de que "a maioria dos habitantes do planeta se declaram crentes, e isto deveria encorajar as religiões a entrar em um diálogo entre elas orientado ao cuidado da natureza, à defesa dos pobres, à construção de uma rede de respeito e de fraternidade" (201).

Ajudando as igrejas a fazer ouvir a sua voz na sociedade

Durante os quatro dias, os participantes - ambientalistas, empresários, cientistas, teólogos, representantes das autoridades civis e da mídia - participaram de cerca de 20 encontros virtuais, discutindo os temas da ecologia integral e buscando respostas para os atuais desafios ecológicos.

O tema do meio ambiente, explica a coordenadora da Semana Social Ecumênica, Iryna Kitura, "une todos e é importante para todos. Curiosamente, durante a preparação do fórum, percebemos que alguns dos participantes sabiam pouco ou nada sobre as iniciativas da Igreja no campo da proteção ambiental. Durante a Semana Social Ecumênica foram apresentadas reflexões ecológicas práticas e projetos elaboradores pelos protestantes, católicos, ortodoxos e muçulmanos. E esta é uma de nossas tarefas: ajudar as igrejas e as realidades eclesiais a fazer ouvir suas vozes com mais força. É também uma oportunidade para as igrejas colaborarem umas com as outras, para ouvir ativistas, empresários, educadores e outros participantes".

A terra une todos nós

Também participaram da conferência o cardeal Peter Turkson, prefeito do Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral, e o arquidiácono John Chryssavgis, conselheiro do Meio Ambiente do Patriarca Ecumênico Bartolomeu I.

Entre os participantes da edição de 2020, também estava o cardeal Turkson
Entre os participantes da edição de 2020, também estava o cardeal Turkson

Em seu discurso, o cardeal salientou que a natureza não pode ser considerada "algo separado de nós mesmos: somos parte da natureza e, por esta razão", acrescentou ele, "não podemos nos comportar como proprietários que abusam dela". "Eu vim a acreditar", disse o arquidiácono Chryssavgis, "que em nossa relação com a criação somos chamados a evocar e afirmar nossa interconexão com o resto do mundo. Isto é o que eu chamaria de imperativo ecumênico de cuidar da criação. Porque esta percepção de interconexão nos lembra que a Terra nos une a todos, antes e além de qualquer diferença doutrinária, política, racial ou de outro gênero".

Nos últimos anos, além das Igrejas cristãs, representantes de outras religiões também têm participado da Semana Social Ecumênica. "Como nós muçulmanos dizemos", enfatizou o xeique Said Ismagilov, mufti da Administração Espiritual dos Muçulmanos da Ucrânia "Ummah", "não temos para onde fugir deste planeta, vamos todos viver juntos. Portanto, se vivemos todos juntos, precisamos encontrar uma linguagem comum, trabalhar juntos, também para proteger os recursos, para proteger o que Deus nos deu para o bem da humanidade".

A sinfonia das religiões

Pavlo Smytsnyuk, diretor do Instituto de Estudos Ecumênicos, fundado há 15 anos, explica: "a Ucrânia e, em particular, Lviv, são lugares únicos do ponto de vista do ecumenismo. Por um lado, tem havido muitos conflitos entre religiões e confissões nesta terra, alguns dos quais continuam até hoje. Por outro lado, a Ucrânia é um país pluralista, aqui nenhuma denominação tem a maioria. É por isso que as confissões devem colaborar para fazer ouvir a própria voz”. Uma das maneiras de trazer representantes de diferentes denominações e religiões à mesma mesa, observa Smytsnyuk, é falar sobre questões sociais "para que a voz da religião soe como uma sinfonia única", para que Igrejas e religiões possam contribuir para o desenvolvimento, paz e bem-estar.

A Ucrânia sobreviveu à catástrofe de Chernobyl e agora vive em um período de conflito militar no leste", continua o teólogo: “é um país no qual as Igrejas e a sociedade querem sair deste círculo vicioso e contribuir para outras Igrejas, religiões e sociedades. E, para nós, o apoio da comunidade mundial no que fazemos é extremamente importante, e estamos muito felizes em compartilhar nossos dons com os outros".

Cópias da encíclica Laudato si' em ucraniano
Cópias da encíclica Laudato si' em ucraniano

Continuando a reflexão sobre a Laudato si’

Apesar da modalidade on-line devido às disposições anti-Covid, a Semana Social Ecumênica do ano passado, dedicada aos temas da ecologia integral, despertou grande entusiasmo entre os participantes que representavam 15 países do mundo. Aceitando o convite e permanecendo no âmbito da encíclica do Pontífice de 2015, o Instituto de Estudos Ecumênicos decidiu dedicar a 14ª edição ao tema "Promover o bem comum: rumo ao desenvolvimento sustentável". O evento acontece em Lviv – on-line e em presença - de 5 a 9 de outubro deste ano, logo depois da conclusão do Tempo da Criação.

07 setembro 2021, 08:00