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Familiares de vítimas do massacre de Ballymurphy fazem uma declaração após a proposta de Brandon Lewis para a prescrição dos processos em casos relacionados a problemas anteriores ao acordo de paz de 1998 Familiares de vítimas do massacre de Ballymurphy fazem uma declaração após a proposta de Brandon Lewis para a prescrição dos processos em casos relacionados a problemas anteriores ao acordo de paz de 1998 

Prescrição para os crimes dos "Troubles" apenas perpetua a dor, diz bispo de Derry

Os confrontos ocorridos entre 1968 e 1998 na Irlanda do Norte - entre aqueles favoráveis à independência ou integração da província com a República da Irlanda, ao sul, predominantemente católico e aqueles, da população protestante, que queriam permanecer unidos ao Reino Unido - provocaram 3.500 mortes. Até agora apenas 9 pessoas foram indiciadas e uma sentença foi proferida.

Isabella Piro – Vatican News

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“Um sistema que parece priorizar os sentimentos dos perpetradores sobre a angústia das vítimas é garantido apenas para perpetuar a dor, não para apagá-la e virar página”. Com essas palavras o bispo de Derry, Irlanda, Dom Donal McKeown, comentou no domingo, 18, o anúncio feito nos últimos dias pelo governo britânico de uma lei que estabelecerá um estatuto com a prescrição para os crimes cometidos "por todas as partes" durante os chamados The Troubles, ou seja, os confrontos ocorridos entre 1968 e 1998 na Irlanda do Norte entre aqueles favoráveis à independência ou integração da província com a República da Irlanda, ao sul, país predominantemente católico e aqueles, da população protestante, que queriam permanecer unidos ao Reino Unido.

Presidindo a Missa dominical na Catedral local de Santo Eugênio, o prelado recordou que a maioria das vítimas dos Troubles "não eram combatentes, mas transeuntes e civis. Por isso, tantas mortes de inocentes podem criar constrangimento para quem os matou”.

Mas suas mortes, destacou Dom McKeown, "marcaram milhares de pessoas, muitas das quais não ousam falar de sua perda porque isso prejudicaria as narrativas de combatentes heroicos". “Sabemos - acrescentou - que existe a tentação de esconder verdades incômodas, porque segredos sombrios são sempre indesejáveis”.

E o efeito das atuais propostas do governo é justamente o de “prevenir muitas indiscrições nos cantos escuros de uma guerra suja”. Mas isso, frisou o prelado, "protegerá a reputação dos combatentes, mas não ajudará na dor das vítimas". Uma legislação que visa proteger "os sentimentos dos culpados" em relação aos das vítimas, na verdade, só serve para manter viva a dor, não apagá-la.

“Somente porque algumas pessoas poderosas preferem manter a verdade escondida - acrescentou o bispo de Derry - não há razão para que a liderança cívica facilite esta atitude”. Pelo contrário, “tal como aconteceu na Igreja com os casos de abusos de menores”, se deveria “investigar para ver que lições podemos tirar do passado, para que a morte de homens, mulheres e crianças inocentes não permaneça distante de olhos indiscretos". “Devemos proclamar e mostrar que a piedade divina é mais importante do que o politicamente correto”, insistiu o prelado.

Disto o convite do bispo irlandês para permitir que Jesus "olhe com piedade para a realidade da nossa vida", para que "possamos aprender com o seu ministério a trabalhar com Ele para restaurar a paz por meio da Cruz".

“O mundo tem necessidade de conhecer a compaixão divina que Jesus deseja no mundo - concluiu Dom McKeown. Ele continua nos perguntando se queremos servir à Sua missão ou usá-Lo para servir aos nossos planos. E esta é uma questão essencial para as pessoas de fé de todas as gerações”.

Digno de nota que o anúncio da prescrição feito pelo governo britânico foi explicado como necessário porque as investigações realizadas até agora dificilmente permitirão que os autores dos Troubles sejam levados à justiça.

Existem cerca de 1.200 casos ainda em aberto, de fato, para os quais seriam necessários mais vinte anos. Além disso, os vinte anos de conflito resultaram em 3.500 mortes, mas até agora apenas 9 pessoas foram indiciadas e apenas uma sentença foi proferida. Além disso, recentemente, a Procuradoria da Irlanda do Norte anunciou sua intenção de retirar o processo contra dois ex-soldados pelos assassinatos ocorridos em 1972.

Vatican News Service - IP

19 julho 2021, 13:21