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Centenas de haitianos em frente à Embaixada dos Estados Unidos na esperança de obterem visto de saída, após o assassinato do presidente Jovenel Moise. ( EPA / Orlando Barria) Centenas de haitianos em frente à Embaixada dos Estados Unidos na esperança de obterem visto de saída, após o assassinato do presidente Jovenel Moise. ( EPA / Orlando Barria)  (ANSA)

Dom Saturné: há muito a ser feito para a confiança ser restaurada no Haiti

Poucos dias após o assassinato do presidente haitiano Jovenel Moïse por um comando de mercenários, o presidente da Conferência Episcopal denuncia o estado de decadência e corrupção da classe política do país do qual a população está farta. "Esses governantes terão muito que fazer para restaurar a confiança dessa população, que está farta dessa política, que parece mais preocupada em se manter no poder do que na busca do bem comum. "

Adelaide Patrignani - Cidade do Vaticano

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As investigações no Haiti continuam para rastrear os assassinos do presidente Jovenel Moïse e especialmente seus patrocinadores. No domingo, a polícia haitiana anunciou que havia prendido um cidadão haitiano "que tinha objetivos políticos" ao recrutar o comando assassino. Segundo o chefe da Polícia Nacional, ele teria entrado no Haiti a bordo de um avião particular em junho e vivido em Miami por vinte anos. Assim, o "cérebro" por trás do ataque seria Christian Emmanuel Sanon, de 63 anos.

Os interrogatórios realizados pela polícia com os colombianos presos revelaram que o homem teria recrutado os 26 integrantes do comando por meio dos serviços de uma empresa de segurança venezuelana chamada CTU, com sede na Flórida.

Neste contexto de desolação e violência sem fim, entrevistamos Dom Launay Saturné, bispo de Cap-Haitien. O presidente da Conferência Episcopal falou sobre o assassinato e condenou o fracasso de um Estado, onde os políticos não conseguem ir ao encontro das aspirações do povo.

 

Como o senhor reagiu ao saber do assassinato do presidente Jovenel Moïse?

Minha primeira reação foi, sem dúvida alguma, de surpresa e consternação. Ao acordar na quarta-feira, 7 de julho, não esperávamos ouvir a triste notícia de um crime tão hediondo, vil e covarde contra a pessoa do presidente. Minha segunda reação foi um questionamento: como esse comando de mercenários estrangeiros entrou no território nacional? Onde estavam as pessoas responsáveis ​​pela segurança do presidente? Quem são os patrocinadores deste assassinato? Quem se beneficia com esse crime? Por fim, a terceira reação é o medo, a ansiedade sobre o risco de o país afundar no caos, na anarquia. As pessoas percebem que ninguém está seguro. É uma tragédia que aumenta o caos existente. É nesse clima que a população presenciou o assassinato do presidente.

Qual a sua opinião sobre o pedido do governo de ajuda militar aos Estados Unidos e às Nações Unidas para proteger locais estratégicos no Haiti?

Esse pedido parece ser uma admissão implícita da desconcertante e revoltante impotência do governo para assumir a responsabilidade pela segurança do povo. Esta é a admissão implícita da falência e fracasso do Estado, minado pela corrupção, má governança, má gestão administrativa e falta de liderança.

 

A morte do presidente ainda é um mistério ... como pode ser restaurada a confiança entre o governo e o povo?

A luz e a verdade devem ser lançadas sobre este crime. As autoridades devem trabalhar para encontrar os verdadeiros assassinos e levá-los à justiça, e também para encontrar os responsáveis ​​pelos massacres e outros assassinatos cometidos sob sua presidência. A população haitiana perdeu praticamente toda a confiança em seus governantes, emaranhados na corrupção. Esses governantes terão muito que fazer para restaurar a confiança dessa população, que está farta dessa política, que parece mais preocupada em se manter no poder do que na busca do bem comum. Desejamos ardentemente uma mudança radical, um novo começo. Restaurar a confiança requer transparência em todos os níveis, na gestão dos assuntos públicos e no judiciário.

A seu ver, qual é a prioridade para o povo haitiano hoje?

A prioridade deve ser o bem-estar da população. Devemos abrir espaço para a compreensão, para o diálogo, para cumprir as aspirações dessas pessoas que tanto sofreram. A Igreja renova o seu empenho na luta pela constituição de uma sociedade baseada no respeito pelo direito à vida de todos os filhos e filhas da nação.

O Papa no Angelus dominical, e em várias outras ocasiões, assegurou sua oração pelo Haiti. Como o senhor recebeu estas palavras do Santo Padre?

Estamos muito emocionados com a solicitude do Papa Francisco pelo Haiti. Ele aproveita todas as oportunidades para mostrar sua proximidade com a nação haitiana e com a Igreja no Haiti. Nas atuais circunstâncias, sentimo-nos acompanhados pela Igreja universal e pela solidariedade espiritual de todos os cristãos do mundo. Em nome da Igreja no Haiti, agradeço ao Papa Francisco e desejo-lhe uma rápida recuperação.

12 julho 2021, 19:35