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Padre Lício: A cultura do cuidado no magistério do Papa Francisco

Todos os “eixos” do magistério de Francisco dialogam com as questões e as práticas da cultura do cuidado, seja nas questões de saúde, diálogo inter-religioso, seja na construção da paz entre os povos.

Padre Lício de Araújo Vale

Escrevi este texto no dia em que o Papa Francisco celebrou 8 anos de pontificado. Vida longa ao Papa Francisco.

Para mim que trabalho com Prevenção e Pósvenção em Suicídio, e, portanto, com o cuidado e a preservação da vida,  uma das coisas que sempre me chamaram atenção no magistério de Francisco, é a sua concepção e apelo aos cristãos, as  comunidades e a Igreja, à vivência da Cultura do Cuidado, entendida como: “cuidar uns dos outros e da criação”.

A “cultura do cuidado” tem sido proposta por Francisco em vários pronunciamentos e iniciativas, aparecendo fortemente, na sua encíclica Laudato si, sobre o “cuidado da casa comum”.

Por ocasião do Dia Mundial da Paz, em 1º de janeiro deste ano, ele divulgou uma belíssima mensagem intitulada “A cultura do cuidado como percurso de paz”, abordando os diversos aspectos do “cuidar”. Afirma Francisco que: “a cultura do cuidado, enquanto compromisso comum, solidário e participativo para proteger e promover a dignidade e o bem de todos, enquanto disposição a interessar-se, a prestar atenção, disposição à compaixão, à reconciliação e à cura, ao respeito mútuo e ao acolhimento recíproco, constitui uma via privilegiada para a construção da paz”.

Todos os “eixos” do magistério de Francisco dialogam com as questões e as práticas da cultura do cuidado, quer seja nas questões de saúde, diálogo inter-religioso, a construção da paz entre os povos, as questões da fé, buscando "construir pontes” utilizando o amor e o diálogo fraterno, ao atender, ou conversar com  uma pessoa, buscando entender e amenizar seus problemas, sua dor, trazendo a dimensão da solidariedade para nunca subestimar um problema;  o que aparentemente é simples aos nossos olhos, e que pode ser desesperador para o outro, procurando sempre realizar o melhor cuidado possível, buscando uma atitude de humildade frente a pessoa que sofre, ou que seja diferente de mim, tratando com respeito e carinho e lembrando que estou ali para atender quem mais precisa e quem depositou sua confiança em mim, que me confia naquele momento o seu bem mais precioso, sua verdade, sua fragilidade, sua intimidade, em outras palavras, a vida. Como disse o Papa Francisco a um grupo de pediatras italianos:  "preservar a vida, cuidar até o fim, com dignidade, de todos, sem privilégios ou exceções. Lutar com as nossas falas, práticas, atitudes, individuais e coletivas contra uma tendência ao descarte de parte da população “pouco produtiva. Cuidar das pessoas, não poupar para a economia, cuidar das pessoas, que são mais importantes do que a economia. Nós, pessoas, somos o templo do Espírito Santo; a economia, não”.

Isso implica antes de tudo o cuidado de si mesmo. O cuidado de si nada mais é que estar vigilante sobre si mesmo, sobre o que se sente, identificando os nossos sentimentos. Aquilo que verdadeiramente necessitamos, não é um olhar narcísico sobre si mesmo, precisamos ter um olhar terno, compassivo e atento para consigo mesmo, a partir da experiência vivida com o Senhor, todo bondade, todo cheio de ternura para conosco. Só assim, conseguiremos dar o passo de ter o mesmo olhar cuidadoso para com o outro e para com a “casa comum”.

A era tecnológica que vivemos é um dos grandes entraves para a vivência da cultura do cuidado proposta por Francisco, porém ele vê possibilidades de esperança.

Não sei se você já se deu conta. Na era das redes sociais não importa quem você é, mas o número de pessoas que você atinge. Negamos aquilo que somos e criamos uma "persona" (máscara), que é somente uma parte de nós e isso causa desequilíbrio.  O equilíbrio emocional só é restabelecido quando retomamos a verdade (o si mesmo): o importante é quem você é, não o número de pessoas que você atinge!  E o desequilíbrio não é só emocional, mas familiar, social, global. Viramos o “centro do mundo’, e no fechamento em nós mesmos, o pecado, o orgulho, a soberba se instalam  e trazem consigo o desprezo pelos outros.

Na Laudato si afirma Francisco; ““A tecnociência, bem orientada, pode produzir coisas realmente valiosas para melhorar a qualidade de vida do ser humano […] nos dão um poder tremendo. Ou melhor: dão, àqueles que detêm o conhecimento e sobretudo o poder económico para o desfrutar, um domínio impressionante sobre o conjunto do género humano e do mundo inteiro. Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma, e nada garante que o utilizará bem […] A verdade é que ‘o homem moderno não foi educado para o reto uso do poder’ […] A sua liberdade adoece, quando se entrega às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo, da violência brutal […] carece de uma ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro de  um  lúcido domínio de si” (LS 103-105).

O verbo que melhor exprime o resultado desse discernimento é “cuidar”, ao qual a encíclica se refere continuamente (ver, por exemplo, LS 10-11, 19, 64, 67, 70, 78-79, 116, 124, 139, 201, 231). Francisco, comentando os primeiros capítulos do Genesis, lembra que Deus entregou a criação para que o ser humano a administrasse, mas não com o exercício de dominação irresponsável, mas como cuidado amoroso e atento (LS 66-67).

A importância do cuidado é gigantesca, reflete-se em toda a nossa experiência existencial, em nossas relações com qualquer coisa que existe. Aquele que procura cuidar adquire um comportamento cheio de carinho e ternura, aprende a se alegrar com as pequenas coisas, a fazer o bem com prazer e sem moralismo, a enfrentar os sofrimentos e desafios da vida com desprendimento. Aquele que ama e cuida aprende a ser feliz com muito mais facilidade do que aquele que domina e explora.

Pe. Lício de Araújo Vale é sacerdote da Diocese de São Miguel Paulista (SP)

Padre Lício
16 março 2021, 14:14