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Papa concede o título de Basílica Menor à igreja de Acari (RN)

O título foi concedido pelo Papa Francisco, sendo a Igreja de Nossa Senhora da Guia a primeira no Rio Grande do Norte a receber esse título.

Por meio de um decreto emitido pela Santa Sé, o Papa Francisco tornou a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Guia, na cidade de Acari, na região do Seridó potiguar, uma Basílica Menor. O decreto foi lido pelo bispo diocesano de Caicó, Dom Antônio Carlos Cruz, no final da celebração de “dedicação da Igreja”, na noite desta quinta-feira, 25 de março.

O título concedido pelo Papa é em razão da história e da arquitetura da Igreja. Foi nela que o cardeal Eugênio de Araújo Sales recebeu o Sacramento do Batismo, há cem anos. Dom Eugênio foi sacerdote, bispo auxiliar e administrador apostólico da Arquidiocese de Natal, e faleceu no ano de 2012, no Rio de Janeiro, onde residia como arcebispo emérito.

Cardeal Eugênio Sales
Cardeal Eugênio Sales

Mensagem do arcebispo

 

O arcebispo metropolitano de Natal, Dom Jaime Vieira Rocha, enviou uma mensagem ao bispo de Caicó, Dom Antônio Carlos, e à Paróquia de Nossa Senhora da Guia, manifestando alegria, em nome da Província Eclesiástica. 

“Quando Bispo de Caicó, sempre pude apreciar o esmero e a solicitude da Paróquia de Acari pela beleza das celebrações litúrgicas – principalmente na Festa de Agosto –, animadas com o autêntico espírito do Concílio Vaticano II, que impele as comunidades àquela nobre simplicidade que ajuda eficazmente ao serviço divino do louvor a Deus. Ressalta-se a perseverança do Coral que conserva a herança de inestimável valor da música sacra composta pelo Maestro Felinto Lúcio Dantas, que por décadas o regeu em Acari e Carnaúba e que hoje possui a sua obra musical conhecida e apreciada inclusive em Roma”, escreveu Dom Jaime.

Reitor do Santuário: "convite a servir mais e melhor"

 

O reitor da nova Basílica Menor, pároco de Nossa Senhora da Guia de Acari, padre Fabiano Mauricio Dantas, assim falou ao Vatican News sobre o significado deste reconhecimento, "um convite a servir mais e melhor":

Ouça o Padre Fabiano Dantas!

O título de Basílica Menor que nos foi dado por benevolência do Papa Francisco através da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos é um reconhecimento de tudo que este templo representa para o povo de Acari, para o povo do Seridó e para o povo do Rio Grande do Norte. A Igreja Basílica de Nossa Senhora da Guia é um centro de referência da mais genuína piedade popular, sobretudo da devoção mariana, um lugar onde a liturgia é celebrada de modo exemplar e onde se cultiva as boas e necessárias tradições que nos foram legados pelos nossos antepassados, sobretudo do ponto de vista da execução da música sacra.

Portanto para nós é uma alegria muito grande receber este reconhecimento e ao mesmo tempo uma missão. Nós entendemos que na igreja todo tipo de honra, na verdade, é um convite a servir mais e melhor. Queremos ser uma Igreja cada vez mais fiel ao magistério do Santo Padre, às suas intenções, ser um lugar de oração, um lugar de perdão e de Misericórdia, um lugar de acolhida para todos os filhos de Deus, todos os filhos e devotos de Nossa Senhora da Guia.

Em meio a um cenário tão desolador, por causa da pandemia da Covid-19, que já vitimou mais de 300 mil brasileiros, foi certamente um enorme alento receber a notícia de que a nossa Matriz agora é a Basílica Menor de Nossa Senhora da Guia. Esse título, um presente do Papa Francisco, por meio da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, inegavelmente enche os nossos corações de satisfação, pois é um reconhecimento a tudo que essa igreja, mais do que sesquicentenária, representa para o povo de Acari, do Seridó, e do Rio Grande do Norte, desde a sua construção, levada a cabo por seu primeiro pároco, o padre Thomaz de Araújo Pereira, de saudosa memória, até os dias atuais.

A Igreja de Nossa Senhora da Guia nasceu com uma vocação: ser um referencial litúrgico e devocional, conservando a mais genuína piedade popular Mariana e o esmero pelas celebrações, músicas bem como da riqueza da música sacra de qualidade. Por isso mesmo, o título pontifício de Basílica Menor, não deve ser motivo de vanglória para nós, mas comporta, na verdade, uma grande missão. Acari deve ser a partir de agora uma comunidade ainda mais fervorosa, fiel ou Magistério da Igreja, ligada ao Santo Padre de maneira reverente e filial, uma Igreja samaritana, missionária, acolhedora, misericordiosa, uma Igreja de portas abertas.

Agradeço de todo coração a todas as pessoas que de perto ou de longe, direta ou indiretamente, colaboraram para que pudéssemos chegar até esse momento histórico e rogo para que Nossa Senhora da Guia continue a iluminar os caminhos, não apenas da nossa paróquia, da nossa comunidade, mas de todos aqueles que a ela recorrerem com confiança. Por tudo, e em toda circunstância, seja louvado o Senhor nosso Deus

O que é uma Basílica Menor

 

Segundo o documento Domus Ecclesiae (Casa da Igreja) da Congregação para o Culto divino e a Disciplina dos Sacramentos, as basílicas são igrejas dotadas de especial importância para a vida litúrgica e pastoral de uma diocese e, por isso, possuem “um particular vínculo com a Igreja de Roma e com o Sumo Pontífice”. E segundo o mesmo documento, para obter o título de Basílica Menor, devem existir algumas condições, como segue:

- A igreja, para a qual se pede o título de Basílica, deve ser dedicada a Deus com o rito Litúrgico e tornar-se, na Diocese, um centro de atividade litúrgica e pastoral, sobretudo para as celebrações da Santíssima Eucaristia, da Penitência e dos outros sacramentos, sendo exemplar quanto à preparação e desenvolvimento, fiéis na observância das normas litúrgicas e com a ativa participação do povo de Deus.

- Para que seja possível realizar celebrações dignas e exemplares, a igreja deve ser convenientemente grande e com o presbitério suficientemente amplo. Os vários elementos pedidos para a celebração litúrgica – altar, ambão, sede do celebrante – sejam colocados segundo as exigências da liturgia renovada.

- A Igreja goza de certa fama em toda a Diocese, por exemplo porque foi construída e dedicada a Deus em ocasião de um particular evento histórico ou religioso; ou porque nesta é custodiado o corpo ou uma relíquia insigne de um santo; ou ainda porque se venera em modo particular alguma imagem sacra. Se considerem também o valor da igreja, ou seja, a importância histórica e a sua beleza artística.

- Para que as celebrações dos vários tempos, segundo o progresso do Ano Litúrgico, possam ser conduzidas sempre favorecendo a oração, é necessário um número adequado de sacerdotes. Sejam destinados ao serviço litúrgico e pastoral da igreja, especialmente para as Celebrações da Eucaristia e da Penitência (haja também um adequado número de confessores que, em determinadas horas, sejam disponíveis para atender os fiéis). Pede-se ainda um suficiente número de ministros e um apropriado coral, para favorecer a participação dos fiéis também com a música e com os cantos sacros.

História

 

A Paróquia Nossa Senhora da Guia, na cidade do Acari, é a primeira que foi desmembrada da antiga Freguesia da Senhora Santa Ana do Seridó, cujo território paroquial abrangia o que hoje corresponde ao território da Diocese de Caicó. A  Igreja Matriz, que agora passa a ser Basílica Menor pontifícia, foi construída pelo  Padre Thomaz Pereira de Araújo,  inaugurada em 1867.

Sendo a segunda paróquia mais antiga da Diocese de Caicó, por haver sido erigida em 1835, e uma das mais antigas do estado do Rio Grande do Norte, ela guarda uma forte expressão da piedade popular. Segundo pesquisadores, a devoção a Nossa Senhora da Guia remonta, porém, ao ano de 1738, de modo que as cidades ao seu redor têm na cidade de Acari um referencial de piedade mariana e de decoro nas celebrações litúrgicas. Tradicionalmente, a festa da padroeira é realizada no período de 5 a 15 de agosto e atrai centenas de devotos locais e visitantes.

O historiador e secretário paroquial de Acari, Francisco Canindé de Medeiros, falou sobre o contexto histórico e cultural no qual se desenvolveu a devoção a Nossa Senhora da Guia:

Ouça o historiador Francisco Medeiros!

O município de Acari, localizado na microrregião do Seridó oriental do Estado do Rio Grande do Norte Nordeste do Brasil, tem origem no início do século XVIII, quando os desbravadores dos Sertões adentraram o interior do nordeste em busca de condições favoráveis para o desenvolvimento do criatório do gado, encontrado em terras, até então habitadas pelos índios, o pouso desejado. Assim, o lugar que recebeu essa denominação, Acari, por causa de um peixe encontrado nas águas do rio Acauã, foi se tornando um ponto de referência. Em 1738, com a construção de uma capela dedicada à Nossa Senhora da Guia, patrocinada pelo sargento-mor Manuel de Andrade, começou o núcleo do povoamento que iria constituir a vila e a cidade nas décadas subsequentes.

É nesse contexto histórico cultural que nós encontramos a devoção à Nossa Senhora da Guia, o título mariano mais antigo a ser venerado no Seridó, do Rio Grande do Norte. Segundo os relatos orais que foram repassados através das gerações, a Capela em honra a Nossa Senhora da Guia foi construída a pedido da mãe do fundador de Acari, condição para que esta viesse morar nessas paragens. Com o passar do tempo, a Vila foi crescendo, se desenvolvendo gradativamente, sem contar que a maioria da população vivia exclusivamente na zona rural, cujas principais atividades econômicas eram a pecuária, a criação de gado vacum e a agricultura de subsistência. Em 13 de março de 1835, a Vila do Acari foi elevada à categoria Paróquia e a Capela de Nossa Senhora da Guia é elevada à dignidade de Matriz. O primeiro pároco foi o padre Tomas Pereira de Araújo, sacerdote do clero secular, natural desta mesma Vila do Acari.

A partir de 1857, o padre Tomás e a comunidade decidiram construir uma nova Igreja Matriz, cujos serviços começaram com a benção da pedra fundamental do dia 15 de agosto de 1857. A execução da obra continuou nos anos seguintes, sendo interrompida pela falta de recursos, pela seca - característica no nosso semiárido -, e até mesmo por uma epidemia de varíola. Mas a generosidade do povo, de mãos dadas à fé, fez múltiplicar o pouco dinheiro e superar as adversidades por maiores que fossem. Desse modo os trabalhos prosseguiram, e a conclusão da obra ocorreu no final do ano de 1863. De 1863 a 1864, os marceneiros fecharam a igreja, construíram os Altares principais, sendo decorados pelos pintores nos anos seguintes. E na manhã do dia 5 de agosto de 1867 foi transladada para nova Matriz a imagem de Nossa Senhora da Guia e ainda chegam até nós os ecos dessa grandiosa celebração.

*Com Pe. Fabiano Maurício Dantas, pároco de Acari 

26 março 2021, 11:22