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D. António Augusto de Oliveira Azevedo, Bispo de Vila Real (Portugal) D. António Augusto de Oliveira Azevedo, Bispo de Vila Real (Portugal) 

“Fratelli tutti”. Bispo de Vila Real: assumir a dimensão pública e social da fé

D. António Augusto Azevedo afirma que a Encíclica do Papa Francisco é um chamamento ao essencial. Alerta para sinais de regressão da liberdade e da igualdade no mundo.

Rui Saraiva - Porto

“Fratelli tutti”, “Todos irmãos” é o nome da nova Encíclica do Papa Francisco. Com esta expressão, o Santo Padre recorda o Santo de Assis e propõe “uma forma de vida com sabor a Evangelho” dedicando a terceira Encíclica do seu pontificado à fraternidade e à amizade social. Um texto que procura acender uma luz de esperança numa humanidade sofrida. Especialmente neste tempo de pandemia.

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Nesta edição apresentamos o comentário do bispo de Vila Real em Portugal. D. António Augusto Azevedo destaca que o tema da fraternidade lembra-nos a “paternidade divina”. Alerta para sinais de regressão no progresso da liberdade e da igualdade no mundo e afirma que a Encíclica do Papa é um chamamento ao essencial.

“A Encíclica “Fratelli tutti” do Papa Francisco é uma agradável e bela novidade porque constitui um chamamento importante ao essencial. O essencial que é sempre a pessoa e a sua dignidade, a partir da qual tudo se pode construir. Este essencial estava um pouco esquecido. Mas, importa também ter presente que é sempre uma novidade esta apresentação e esta proposta da boa nova de Jesus que nos revela um Deus que é Pai que nos ama e, por isso, nos faz irmãos. Esta é uma novidade que o mundo de hoje precisa de recordar porque também está ela tantas vezes esquecida. Sobretudo para a cultura moderna que nos últimos séculos deu tantos passos relativamente ao progresso e desenvolvimento da liberdade e da igualdade. Embora nestas haja, recentemente, alguns sinais de regressão. Mas, no que diz respeito à fraternidade, ela era o parente pobre desta trilogia. A Encíclica do Papa Francisco veio lembrar que a fraternidade, que a humanidade deseja requer a presença desta raiz da paternidade divina.”

“Esta Encíclica é também uma novidade porque nos mostra um Papa que partilha o seu sonho connosco. O seu sonho de uma humanidade mais fraterna que também reanima o nosso sonho na construção dessa humanidade. Mas é também e ainda uma novidade na medida em que nos alerta para sinais preocupantes de egoísmo, de fechamento para uma globalização que, tantas vezes, não faz irmãos, para ideologias que desconstroem e para políticas sem projeto de futuro. E, finalmente, é também uma novidade porque o mundo precisa de esperança. E esta Encíclica renova a nossa esperança num mundo melhor, num mundo mais fraterno e, sobretudo, a nossa esperança e a nossa consciência no potencial humanizador da fé.”

Para o bispo de Vila Real, a “Fratelli tutti” aponta caminhos de conversão através de “estilos de vida” e “relações humanas mais próximas”. Num ambiente de pandemia que nos confrontou com as nossas “vulnerabilidades”.

“Esta pandemia constitui um acontecimento marcante da nossa vida pessoal e coletiva. Ela confronta-nos com a nossa realidade e vulnerabilidades. Ela provou que estamos todos no mesmo barco. Pois bem, esta Encíclica vem-nos recordar que é fundamental a atitude e a postura verdadeiramente fraterna. Somos irmãos. Não podemos sair desta pandemia na lógica do salve-se quem puder, de cada um por si, de todos contra todos. A “Fratelli tutti” aponta caminhos de conversão, estilos de vida, com relações humanas mais próximas e mais reais e não apenas virtuais e também aponta a necessidade de repensar um futuro comum.”

Para D. António Augusto, o Papa na sua Encíclica convida os cristãos a assumirem a “dimensão pública e social” da fé.

“Em primeiro lugar é importante e indispensável redescobrir a dimensão fraternal da fé. Acreditar em Jesus Cristo, sentir-se membro da Igreja significa o reforçar dos laços fraternos, dos laços que nos unem uns aos outros. Mas, nos tempos que vivemos, nós cristãos, somos também levados, e o Papa a isso nos convida, a assumir a dimensão pública e social da nossa fé. E, portanto, não nos restringirmos, não nos limitarmos apenas à dimensão pessoal ou à vivência pessoal e mais íntima da fé. E, por isso, a Encíclica desafia-nos a um maior sentido de participação cívica, cultural, social e na construção da sociedade. Certamente, sempre na lógica do exercício do diálogo e do encontro. Isto é, numa lógica de inclusão, de acolhimento de todos e não de exclusão e de fazer muros.”

“Esta Encíclica convida os cristãos a terem mais consciência da criatividade da fé. Precisamos de descobrir a criatividade de uma fé que fomenta a proximidade, mas que nos responsabiliza. É fundamental hoje ter uma maior exigência ética com a verdade e uma maior exigência profética com o perdão. Só com verdade e só com perdão, lembra o Papa Francisco, há condições autênticas para um futuro de paz.”

O bispo de Vila Real considera que a, Encíclica “Todos irmãos”, é importante para todos “os homens e mulheres de boa vontade” crentes e não crentes, que estão “a reagir com muito interesse” à mensagem do Papa Francisco.

“Estamos gratos ao Papa Francisco porque num momento de sofrimento e de trevas, ele, pastor da Igreja, aponta um caminho e uma luz de esperança. E, por isso, esta Encíclica reforça a nossa comunhão com o Papa. Mas julgo que os homens e mulheres de boa vontade deste mundo, irão reagir e estão a reagir com muito interesse e com muita curiosidade face a esta grande mensagem do Papa Francisco. Ao lerem o texto sentir-se-ão, certamente, estimulados por esta reflexão que é profunda, que ajudará a sair desta teia em que vivemos, na qual se apresentam tantas dicotomias extremistas e manipuladoras. A reflexão do Papa, pelo contrário, é clarificadora e vai ao fundo das questões.”

“Porventura, a mensagem da Encíclica do Papa constituirá para alguns, ou terá da parte de alguns, algumas reservas e até algumas resistências. Porque é uma mensagem que desinstala quem está nos poderes que desafia tanta gente a sair do seu comodismo, da sua inércia, da sua indiferença. Admito que para estes haja mais algumas resistências. Porém, para todos, para os cristãos, para os homens e mulheres de boa vontade, crentes e não crentes, ou crentes noutras religiões, e para todos os que têm especiais responsabilidades de decisão neste mundo, esta Encíclica do Papa é um grande convite à conversão. A mudar estilos de vida, a mudar posturas, a mudar atitudes, numa lógica de conversão ao que é verdadeiramente humano, ao sentimento de verdadeira humanidade. Aliás não haverá futuro digno e humano que não seja por este caminho.”

D. António Augusto Azevedo, bispo de Vila Real, em Portugal, comentando a Encíclica “Fratelli tutti” do Papa Francisco. Mais uma reflexão sobre o documento do Santo Padre dedicado à fraternidade e à amizade social.

Na sua Encíclica, o Santo Padre indica um caminho a percorrer, por uma fraternidade a procurar. O caminho de “uma única humanidade” no qual cada um traga o que tem para partilhar.

Laudetur Iesus Christus

29 outubro 2020, 10:28