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Criança palestina em um canal de irrigação na Cisjordânia Criança palestina em um canal de irrigação na Cisjordânia  (AFP or licensors)

Conselho Mundial de Igrejas: água um direito humano, mas não para todos

O Conselho Mundial de Igrejas (CMI) em colaboração com a Conferência Episcopal da Alemanha organizaram uma conferência online sobre o tema: “Dez anos do direito à água: problemas, posições e perspectivas”. Frei Guido Dotti da Comunidade Monástica de Bose, membro católico da peregrinação Justiça e Paz nos fala sobre o evento

Gabriella Ceraso – Vatican News

Por ocasião do Jubileu pela Terra devemos refletir sobre um dos bens mais preciosos da terra: a água. Por este motivo, o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) em colaboração com Misereor, agência para o desenvolvimento cooperativo da Conferência Episcopal da Alemanha organizaram uma conferência online sobre o tema: “Dez anos do direito à água: problemas, posições e perspectivas”. De fato, 10 anos atrás, em 2010 a ONU reconhecia o acesso à água potável e aos serviços higiênicos como um direito humano fundamental, colocando-o na Declaração dos Direitos do Homem de 1948.

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Direito, mas não para todos

Podemos dizer que a água, e, em particular, sobre a água potável é um direito negado a três de cada dez pessoas no mundo, como está emergindo dramaticamente com a pandemia de Covid-19. A água também é usada como "arma" de guerra para populações que sofrem pela sua carência e são subjugadas, como está acontecendo na Síria e no Iraque, e também como fonte crescente de conflitos, como mostra a recente disputa sobre as águas do Nilo com a construção da "Grande Barragem Etíope" que cria preocupações e tensões com os vizinhos Sudão e Egito.

Água, bem comum

Portanto, este símbolo de vida como diz a Bíblia, a "expressão da graça de Deus em perpetuidade para toda a criação ( Gn 2,5ss)", esta condição fundamental para toda a vida na Terra deve ser protegida e compartilhada do modo mais equilibrado possível para o benefício de todas as criaturas. Como e onde isso é possível? E então qual é o papel das Igrejas neste compromisso?

Frei Guido Dotti da Comunidade Monástica de Bose, membro católico da peregrinação Justiça e Paz do Conselho Mundial de Igrejas que participou da organização do evento nos fala sobre este tema:

Podemos falar de uma crise hídrica no sentido de que a escassez não ocorre apenas nos países pobres. Existe uma dificuldade do ponto de vista ambiental?

Frei Guido Dotti: Sem dúvida, a crise da água potável é a ponta do iceberg, ligada à água em geral. Por um lado, há tentativas contínuas e em alguns casos bem sucedidas nos países desenvolvidos de privatizar progressivamente o uso da água potável. Por outro lado, há as muitas consequências das mudanças climáticas que afetam a água em geral e, consequentemente, também a água potável. Desde a seca prolongada, até a crescente frequência de fenômenos atmosféricos, e o aumento dos níveis dos oceanos. Basta ter uma visão global para ver que a crise, as dificuldades, relacionadas à água, são universais.

Podemos dizer que a Covid-19 piorou ainda mais esta situação?

Frei Dotti: É claro, porque um dos instrumentos de prevenção é a possibilidade de acesso à água, se não potável, pelo menos saudável, não estagnada e não poluída. Trata-se do nível mínimo de saúde, limpeza e acesso a prevenção contra a propagação do contágio. E isto tornou a escassez em situações que já eram críticas em emergência.

O Conselho Mundial de Igrejas fala de “eco-justiça”. O que significa? Proteger a água e garantir sua justa distribuição, considerando que é um recurso vital?

Frei Dotti: Sim, implica que a água como tal não pertence a ninguém em particular e é, ao mesmo tempo, responsabilidade de todos. Portanto, não apenas propriedade comum, bem comum, bem público, mas também bem pelo qual todos são responsáveis. E assim, isto coloca em questão uma justiça que vai além das leis individuais nacionais ou supranacionais.

A sustentabilidade ambiental também é um compromisso a ser assumido como uma comunidade cristã?

Frei Dotti: Parece-me claro – não só para nós católicos – a necessidade de assumir a encíclica Laudato si’ que é um apelo que nos leva ao impacto que a boa notícia, o Evangelho, tem em nossas vidas e também engloba toda a criação. E esta é uma mensagem em nível universal por parte não só dos católicos, mas de outras Igrejas cristãs e também de pessoas de outras ou nenhuma fé religiosa.

A Conferência online da CMI coincide com o início do mês da Criação: um momento, até 4 de outubro, de oração, mas também de ação. Como vivê-la e com quais compromissos por parte dos organizadores?

Frei Dotti: Acredito que seja importante a interação entre as ações individuais em nível local em diálogo com a sociedade civil e uma visão global. Também a intenção de estender o Tempo da Criação de 1 de setembro - o primeiro dia adotado pelo Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, como abertura do ano litúrgico - até 4 de outubro, simbolicamente a festa católica de São Francisco de Assis, serve para possibilitar uma maior difusão de todas as iniciativas locais, tanto as iniciativas de conscientização da população como as de compromisso prático, político, de uso ou abuso de bens naturais, a partir da água.

02 setembro 2020, 10:36