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Pai e filha no metrô de Tóquio Pai e filha no metrô de Tóquio  (AFP or licensors)

Os cristãos no Japão em tempo de coronavírus

“Não vamos mais à missa, porém agora sentimos falta, mas não no coração, mas porque temos medo. O banquete da Eucaristia é uma comunhão de solidariedade com Cristo”. Entrevista com o padre Andrea Lembo, pároco da comunidade da Sagrada Família de Fuchu, em Tóquio

Adriana Masotti – Cidade do Vaticano

O mundo inteiro está enfrentando a mesma emergência, com medidas de acordo com a urgência de cada continente, o Japão, situado no continente asiático onde tudo começou, enfrenta há várias semanas as medidas de precaução tomadas pelo governo.

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Em Tóquio os cristãos estão isolados, mas a fé vai adiante

As drásticas medidas de prevenção determinadas pelo governo levaram à suspenção das Missas. Padre Andrea Lembo, missionário italiano do Pime há mais de 10 anos no Japão, responsável local pelo Instituto missionário e pároco da comunidade da Sagrada Família de Fuchu, bairro de Tóquio, nos conta como se vive estes dias na capital. “Como em outras partes do mundo, o vírus iniciou algumas semanas atrás. A sociedade japonesa está sempre pronta para enfrentar estas emergências porque aqui, as máscaras e desinfetar as mãos com frequência são a normalidade. Claro há muito medo e o governo tomou decisões muito drásticas como fechar as escolas, proibir reuniões e aglomerações. A diocese de Tóquio decidiu suspender todas as celebrações, para ajudar a sociedade a evitar a propagação deste vírus”.

Papa Francisco e o cuidado da vida

A decisão foi tomada pelo arcebispo de Tóquio, dom Tarcisius Isao Kikuchi e não foi uma decisão fácil. Padre Lembo explica: “Ainda temos na lembrança as imagens e as palavras do Papa Francisco que esteve aqui em novembro e que convidou a sociedade japonesa a defender a vida, cuidar da vida. Por isso é uma decisão difícil, o Papa deu valor ao Evangelho, ao Evangelho da vida, porque é importante para defender a vida das pessoas. Nós como cristãos, vivemos em uma situação de isolamento, porém uma situação que não é nova para os japoneses, se recordarmos os tempos das grandes perseguições dos cristãos aqui no Japão. Mais uma vez os cristãos no Japão estão demonstrando que a fé pode ser levada adiante, a fé vai adiante, a fé é solidificada nas relações familiares: considero isso belíssimo. Como pároco, todos os sábados, envio uma mensagem vocal no site da paróquia, sobre o Evangelho do domingo e recebo muitos telefonemas e mensagens de agradecimento”.

O mundo: um vilarejo comum com muitos desequilíbrios

Padre Lembo compartilha conosco uma reflexão que nasce da vontade de olhar além das próprias fronteiras, olhar o mundo inteiro. O coronavírus pode ser um estímulo para nos darmos conta de muitas coisas que estamos acostumados, mas que são contrárias à justiça e à humanidade”. “Estamos descobrindo que vivemos em um vilarejo comum, o mundo é um vilarejo no qual todos vivem juntos. Podemos compartilhar de maneira rápida as notícias pela internet, através das redes sociais e infelizmente agora estamos compartilhando também uma doença que está se propagando de maneira inesperada. Vivemos uma forte solidariedade humana feita de positividade, mas também de fragilidade e de negatividade. Temos que pensar justamente nas vítimas do coronavírus no primeiro mundo, mas não podemos esquecer dos que estão sofrendo há décadas pela fome, pelo ebola na África. Não podemos esquecer das pessoas que estão fugindo das guerras. Porque este vírus nos faz compreender que estamos todos em um vilarejo comum onde existe um grande desequilíbrio social.

Jesus morreu por todos, não se pode olhar apenas a si mesmo

Padre Andre Lembo convida: “Podemos viver juntos uma solidariedade na salvação, uma solidariedade na qual, nós como cristãos, podemos compreender que Cristo salvou a todos. Talvez assim possamos começar a compreender que o cristianismo não é apenas ir à missa aos domingos, que muitos de nós não vão mais, porém agora sentimos falta, mas não no coração, mas porque temos medo. Pois participar do banquete da Eucaristia é uma comunhão de solidariedade antes de tudo com Cristo crucificado que aceitou carregar consigo todas as fadigas do mundo e ainda as aceita”. E diante de possíveis fechamentos diz: “Permito-me recordar que foi um ‘estrangeiro’ a nos salvar, Deus escolheu aquela terra, naquele momento que não era nossa terra que não era nosso momento”. Concluindo padre Lembo afirma: “Estou acostumando os cristãos da minha paróquia a pensarem neste sentido e apreciei muito um telefonema que recebi ontem de um jovem que me disse: ‘Agradeço a Deus por ser cristão porque entendi que devo estar próximo não apenas do meu povo, mas do mundo inteiro que neste momento está sofrendo’”.

20 março 2020, 09:37