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P. Alberto Tchindemba com os deslocados pelos ataques armados no norte de Moçambique P. Alberto Tchindemba com os deslocados pelos ataques armados no norte de Moçambique 

“Situação no Norte de Moçambique é uma catástrofe sem fim à vista”, denuncia missionário

O norte de Moçambique está a ferro e fogo. É uma catástrofe sem fim à vista, que se vem abatendo já há algum tempo sobre populações indefesas e que ninguém parece querer defender.

P. Tony Neves, para o Vatican News

O Missionário Espiritano fala também daqueles que, como o Bispo da Diocese, D. Luiz Fernando Lisboa, têm tido a coragem de denunciae e anunciar o advento de tempos melhores. D. Luiz Fernando Lisboa, “o corajoso Bispo de Pemba”, tem sido a voz mais amplificada, a partir das aldeias e vilas daquele norte invadido por forças que se atribuem ao auto-proclamado Estado Islâmico que mais não têm feito, por onde passam, que matar, destruir, raptar e queimar, semeando o pânico, refere o sacerdote. Pelas suas intervenções corajosas, no terreno e pelos media, D. Luiz tem feito ecoar os seus gritos pelo mundo inteiro, reitera o Padre Tony Neves.

Solidariedade dos Bispos

Os Bispos de Moçambique, reunidos em Assembleia, denunciaram ‘o recrudescimento dos ataques no norte do país’ e mostraram uma comunhão total com as populações de Cabo Delgado. No Comunicado Final, datado 13 de junho, os Bispos deploram ‘os actos de barbárie’ ali praticados.

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Também enviaram uma Carta às populações de Cabo Delgado, elogiando a missão do Bispo, D. Luiz, que tem sido ‘a voz do Pastor que alerta sobre a presença de lobos que põem em perigo o rebanho’… e ‘é o grande promotor de uma resposta urgente a esta tragédia’.

Deslocados em Pemba, Nacala e Nampula

Felizmente, prossegue o sacerdote, os media portugueses têm amplificado estas vozes de denúncia da tragédia vivida por um povo pobre que, nesta altura, anda por aí à deriva e à fome, sendo já alguns milhares os deslocados, em Pemba, Nacala e Nampula, segundo notícias fidedignas que chegam daquelas paragens. É importante não dar descanso mediático a estes senhores da violência e da morte, com as suas agendas escondidas, exorta Tony Neves.

Atrás do gás com conivência de autoridades locais

Dizem alguns analistas que este grupo fundamentalista armado vem atrás do gás que é riqueza a explorar naquele norte de Moçambique. E, pelo que se vai sabendo, há autoridades locais coniventes, a fazer o jogo destes bandos armados, contrariando as políticas oficiais do governo moçambicano.

Apelos do Papa Francisco pela paz na região

O Papa Francisco tem multiplicado apelos pela paz naquela região, tendo já citado este caso particular numa das suas intervenções públicas no Vaticano. Agora foi a vez de António Guterres, Secretário-Geral da ONU, a falar com o presidente de Moçambique para estudar formas de resolver a situação ou, pelo menos, minorar os efeitos dramáticos destes ataques, apoiando as populações em fuga.

Dezenas de mortos, aldeias e conventos destruídos

O símbolo mais terrível dos ataques destes bandos armados é a povoação de Macomia que foi totalmente destruída, tendo parte da população conseguido fugir. Os conventos das Irmãs Carmelitas e dos Beneditinos também foram atacados, podendo os Religiosos fugir a tempo, antes de serem maltratados.

Igualmente de arrepiar são as descrições do massacre feito em abril na aldeia de Xitati, onde foram mortos 52 jovens e boa parte dos moradores torturados. Segundo testemunhas, os grupos armados queriam recrutar jovens para as suas fileiras e decapitaram ou mataram aqueles que tentaram resistir. Jovens de Cabo Delgado acabariam por escrever uma carta aberta ao presidente da República, fazendo denúncias muito graves sobre a situação.

Guerra civil, pobreza, abandono, calamidades ...

A vida destes moçambicanos do norte já estava complicada há muitos anos. Primeiro, pela guerra civil; depois pela pobreza e abandono a que sempre foram votados pelo governo central; a cólera tem feito muitas vítimas; no ano passado, veio o furacão Keneth que quase tudo levou; e, nos últimos anos, estes grupos armados; finalmente, os ataques da Covid 19, ainda com resultados difíceis de calcular! São muitos dramas juntos …

Acompanho de perto, com preocupação e dor, o que ali se passa, através dos Espiritanos que vivem em Missões nas Dioceses vizinhas de Nampula e Nacala que estão a receber deslocados e a viver nestes contextos de grande instabilidade. As conversas que vou mantendo com eles mostram a sua dedicação total ao povo, mas muita incapacidade de resolver os problemas dramáticos que vitimam estas populações indefesas.

Apoio de missionários

O P. Alberto Tchindemba, Superior dos Espiritanos de Moçambique, faz parte de uma equipa missionária que o Arcebispo de Nampula nomeou para apoiar os deslocados que chegam a esta capital de Província e engrossam as já grandes famílias, bem como aumentam os problemas acrescentados pela chegada da Covido-19. Confessa que as distribuições de bens de primeira necessidade nunca chegam para todos os necessitados e teme que a pandemia se aproveite destes ajuntamentos familiares enormes para multiplicar contágios e semear morte, sobretudo nas imensas e pobres periferias desta grande cidade.

O Instituto Nacional de Gestão de Calamidades publicou o número oficial de deslocados que chegaram à Província de Nampula: ao todo, 2228, espalhados por sete distritos! Também na Diocese de Nacala, o Secretariado de Pastoral, coordenado pelo P. Raul Viana, está a trabalhar neste apoio aos deslocados.

Devemos gritar alto contra violações de direitos humanos

Não podemos cruzar os braços. Temos que gritar alto contra estas violações frontais dos direitos humanos. E mais: temos de ser solidários e partilhar o que temos para que estes pobres sobrevivam e abram caminhos de esperança rumo a um futuro de paz e de justiça.

23 junho 2020, 13:41