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Ali Moussa Iye, Chefe da Seccão de História e da Memória para o Diálogo - UNESCO  Ali Moussa Iye, Chefe da Seccão de História e da Memória para o Diálogo - UNESCO  

Jazz, música da liberdade

Hoje, 30 de Abril, é Dia Internacional do Jazz. O Dia foi lançado em 2011, pela UNESCO, porque acredita no poder do Jazz como força de paz, de diálogo e de compreensão entre os povos. Ali Moussa Iye, Chefe da Secção de História e da Memória paro o Diálogo, na UNESCO, ilustra as origens, características, difusão pelo mundo e ligação desta expressão musical com os afrodescendentes.

Dulce Araujo - Cidade do Vaticano 

Hoje, 30 de Abril, é Dia Internacional do Jazz. O Dia foi lançado pela UNESCO em 2011, porque acredita no poder do Jazz como força de paz, de diálogo e de compreensão entre os povos. E neste dia que lhe é dedicado, o Jazz é celebrado em mais de 190 países, dos cinco continentes. O fulcro das celebrações é em São Petersburgo, na Rússia, país que viu nascer o chamado Jazz russo, em 1920. Artistas de várias partes do mundo farão ali um grande concerto. Haverá também ateliers e master-class, assim como projecção de filmes relacionados com o Jazz. Na sua mensagem para este sétimo Dia Internacional do Jazz, a Directora Geral da UNESCO, Audrey Azoulay, presta homenagem à herança sempre vivaz do Jazz e ao poder que tem esta música de aproximar as pessoas.

E nós fomos bater à porta da UNESCO para saber um pouco mais sobre a história do Jazz e sobretudo ver que ligação há entre este Dia Internacional do Jazz e a Década dos Afrodescendentes. Foi esta a primeira pergunta que pusemos a Ali Moussa Iye, Chefe da Secção da História e da Memória para o Diálogo…

Há uma ligação directa. É que o jazz é a contribuição cultural e artística, mais conhecida e mais celebrada, das pessoas de ascendência africana. Foi, portanto, uma contribuição extraordinária que está na base de um conjunto de danças e músicas. Há, portanto, uma ligação directa mas, ao mesmo tempo há uma outra ligação que é talvez menos conhecida: as sequelas herdadas da história dolorosa do Tráfico Negreiro e a Escravatura, seguidos da segregação e do racismo. E é toda essa memória que, efectivamente, a música traz em si.”

- Diz-se que o jazz surgiu nos campos de algodão, mas depois difundiu-se pelo mundo fora e tornou-se, de certo modo, uma música burguesa, como se explica isso?

Um dos paradoxos do Jazz é precisamente o facto de essa música, criada e praticada por pessoas de origem africana, que viviam em condições de segregação, racismo e discriminação - para resistir a esse sistema, para afirmar a sua identidade e a sua origem - ter passado, ao longo dos tempos, de uma música inicialmente rejeitada e denigrida, para uma música reconhecida, celebrada e colocada no classicismo. E que hoje, sim, é ouvida por uma certa elite.  Isto é, de certo modo um paradoxo, mas é claro que o jazz nasceu, digamos não nos campos de algodão, mas depois das abolição e, de certo modo, nas cidades, lá onde se agrupavam os afroamericanos que deixavam as plantações, para se recrearem. E é dessa urbanidade que nasceu o Jazz.

Diz-se sempre que o Jazz nasceu nessa famosa “Congo Square” (Praça do Congo) em New Orleans, em meados do século XIX. Era um lugar onde os escravos se encontravam  porque lhes tinha sido dada, finalmente, a possibilidade de não trabalhar aos domingos – e foi a Igreja na Luisiana que pediu um dia de repouso, porque antes trabalhavam todos os dias e todo o dia – então reuniam nessa Praça (a que deram o nome de Congo Square) para falarem a sua língua, recordarem-se dos ritmos da sua cultura de origem, e foi desse entrelaço entre pessoas de descendência africana, originárias de diversas regiões da África, com diferentes tradições musicais e rítmicas que nasceu o rudimento daquilo que viria a ser o Jazz.”

- Esse processo de difusão pelo mundo é característico de todas as músicas nascidas no contexto da Diáspora africana ou o Jazz teve algo de especial que determinou a sua difusão pelo mundo fora como uma música de elite?

Efectivamente, pode-se dizer que  todas as músicas afroamericanas e afro-caraíbas  nasceram da mesma forma: eram músicas de resistência contra a desumanização e contra a opressão. No Brasil tomam formas diferentes e nas Caraíbas também. Mas porque é que o Jazz se tornou numa música de elite?! Acho que o Jazz tem essa particularidade, no sentido de que é uma música que desde o início deu uma importância fundamental à liberdade, à liberdade de improvisar e de se emancipar de todos os empecilhos das normas dominantes. Acho que é essa obsessão pela liberdade que fez com que o Jazz se tornasse numa música que correspondia às aspirações das pessoas, dos indivíduos, das comunidades no século XX e, é por isso, que se tornou numa música da modernidade, porque justamente insuflava essa liberdade e esse desejo de se exprimir de forma individual e de improvisar. Algo que, talvez, outras músicas afro-americanas de origem africana não desenvolvessem necessariamente. A meu ver, é esta a razão pela qual o jaz se tornou numa música universal e continua a inspirar músicos de todos os países e povos.”

- O mesmo se pode dizer dos instrumentos que usa?

Sim. É verdade que há esse saxofone que normalmente não era destinado ao Jazz… que se apoderou de alguns instrumentos da música clássica e de outros instrumentos novos que tinham sido criados, sempre com essa liberdade de improvisação… Eles re-transformam, re-configuram esses instrumentos. Acho, portanto, que é isso que faz com que o Jazz tenha tido esse impacto.

Martin Luther King, por exemplo, num discurso em 1964, num Festival de Jazz, em Berlim, sublinhou este aspecto. Ele disse que quando a vida de per si não apresenta uma ordem, nem sentido, o músico do Jazz cria uma ordem e um sentido a partir dos sons da terra que passam pelo instrumento e pela voz. E ele disse que todo a força dos Movimentos de Liberdade Cívicos nos Estados Unidos vinha justamente da música do Jazz porque reforçava  as coordenadas desse Movimento nos rítmos pulsantes quando a coragem lhes faltava; com as suas harmonias, acalmava também as suas tormentas quando o espírito baixava. Como vê, regularmente, conforme as gerações, as pessoas sempre se reconheceram no Jazz e utilizaram essa liberdade que o Jazz insufla para as suas próprias reivindicações. E é por isso, que é uma música em contínua renovação e é por isso que agrada a todas as gerações.”

- E a África, acompanha esse andar do Jazz pelo mundo fora, usufrui dela devidamente, com fruto da sua Diáspora?

Claro, recordar-se-á certamente que o Jazz teve um impacto nas lutas de libertação, pelas independências. Chegou ao Congo, à África do Sul, à Etiópia… para influenciar as lutas e, aliás, as músicas africanas que se deixaram influenciar pelo Jazz foram outra vez para ou outro lado do Atlântico (Estados Unidos, Brasil) para re-enfluênciar os músicos do Jazz – conhece certamente Dizzy Gilepsee  com toda a rítmica africana que ele utilizava,  e depois essa nova música foi outra vez para a África com Fela [Kuti] e, portanto, há sempre um vai, vem entre a África e as Américas e as Caraíbas e o Jazz desempenhou, realmente, um papel nesse intercâmbio. Hoje, vemos as novas gerações de africanos que continuam a inspirar-se  no Jazz, mas à sua maneira, que é completamente  diferente  da maneira como a Europa, por exemplo, se ampara do Jazz para as necessidades das músicas europeias.

E é, por isso, aliás, que a UNESCO consagrou um Dia Internacional ao Jazz, ou seja porque os valores que o Jazz traz em si estão em sintonia com os valores que a UNESCO defende  - valores de liberdade, da luta contra a ignorância, contra as desigualdades e pela vida em conjunto, portanto, uma certa reconciliação entre os povos. E acho que esse Dia, procura, em todo o caso, desempenhar este papel.

Depois do lançamento desse Dia, tem havido milhares de manifestações, e há países que se oferecem voluntariamente para acolher os maiores músicos, fazer workshops. Este ano é a Rússia, a cidade de São Petersburgo que aceitou acolher a maior manifestação do Jazz, mas aqui em Paris há também muitas manifestações.  Eu próprio estive quinta-feira, 26, num debate organizado pela Câmara de Paris sobre o tema “As mulheres e o Jazz”, debate para compreender porque é que as mulheres são minoritárias no seio dos músicos de Jazz e porque são sempre acantonadas a ser cantoras e não instrumentistas. Foi um debate muito interessante com mulheres que tocam instrumentos em grupos de Jazz e que ilustraram as suas  experiencias.

Este é um outro paradoxo do Jazz que é a música da liberdade e que ao mesmo tempo não dá espaço suficiente às mulheres. Há claramente grandes cantoras que deixaram marcas, como Nina Simone, Bessie Smith…, mas como instrumentistas, as mulheres foram minoritárias.

Nesse debate diziam que há apenas 10% de mulheres nos grupos Jazz. E nesses 10% estão incluídas as cantoras; se se contar apenas as instrumentistas a percentagem desce para 3 (riso).”

O que resta por fazer na caminhada da valorização do Jazz?

Acho que o resta por fazer, em primeiro lugar, é preciso que os grupos de Jazz sejam mais abertos, para que as mulheres possam desempenhar neles um papel, é preciso “desmachizar” o Jazz; em segundo lugar, acho que é preciso fazer mais estudos para melhor compreender o contributo das mulheres e, naturalmente, das afrodescendentes, na inspiração do Jazz, não só enquanto cantoras e tudo isso, mas também a nível de influencias de ritmos e de melodias que eram particularmente das mulheres em África e que terão, por ventura, sido utilizados no Jazz. Creio que neste aspecto há um trabalho de pesquisa a fazer na musicologia que pode ser interessante.

Outra coisa que resta também por fazer, acho que é preservar essa capacidade do Jazz de promover a liberdade e a resistência contra todos os sistemas de opressão. É preciso absolutamente evitar que o Jazz seja recuperado e posto, por assim dizer, num belo presente, e que se torne numa música de elite. É preciso que seja mais popularizado porque continua a ser uma grande fonte de inspiração para os músicos. Eis o que resta por fazer.”

E o vosso departamento se ocupa disto?

Claro, nós trabalhamos na pesquisa, sobre a educação, mas encorajamos justamente no sentido desta reflexão, primeiro, sobre as origens históricas do Jazz, as fontes nas quais se inspirou, é muito importante, porque muitas vezes se esquece isto; segundo, queremos que o Jazz seja mais popularizado e possa interessar categorias muito mais amplas de populações e não se torne numa música de elite e encorajar, portanto, essas manifestações que vão neste sentido e, sobretudo organizamos encontros e debates entre músicos, investigadores e o grande público para, justamente, falar de tudo isto juntos de forma livre e franca. As mudanças a nível da própria música, acho que é um trabalho dos músicos, dos Institutos musicais, dos conservatórios que devem fazer este trabalho de manutenção da autenticidade do Jazz”.

Eram, pois, palavras de Ali Moussa Iye, Chefe, na UNESCO, da Secção da História e da Memória para o Dialogo – “dialogo intercultural, entre povos, gerações, entre o passado e o presente, dialogo no sentido amplo do termo, para facilitar a memória  e a história, para um melhor viver juntos e para um processo de reconciliação entre os povos que na história. viram-se confrontados  com tragédias e que conservaram isso na memória.” 

Ali Moussa Iye, na rubrica Década dos Afrodescendentes
30 abril 2018, 13:47