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Peregrino brasileiro na vigília com o Papa Francisco Peregrino brasileiro na vigília com o Papa Francisco  (AFP or licensors)

Texto integral da vigília do Papa Francisco com os jovens

Confira o texto na íntegra do discurso do Papa Francisco aos jovens na vigília da JMJ 2019.

VISITA APOSTÓLICA DO SANTO PADRE AO PANAMÁ
DISCURSO
VIGÍLIA COM OS JOVENS
(Metro Park, 26 de janeiro de 2019)


Queridos jovens, boa noite!

Acabamos de ver este belo espetáculo sobre a Árvore da Vida, que mostra como a vida que Jesus nos dá é uma história de amor, uma história de vida que quer misturar-se com a nossa e criar raízes na terra de cada um. Essa vida não é uma salvação suspensa «na nuvem» – no disco virtual – à espera de ser descarregada, nem uma nova «aplicação» para descobrir ou um exercício mental fruto de técnicas de crescimento pessoal. Nem sequer um «tutorial» com o qual apreender as últimas novidades. A salvação, que o Senhor nos dá, é um convite para participar numa história de amor, que está entrelaçada com as nossas histórias; que vive e quer nascer entre nós, para podermos dar fruto onde, como e com quem estivermos. Precisamente aí vem o Senhor plantar e plantar-Se a Si mesmo; Ele é o primeiro a dizer «sim» à nossa vida, à nossa história e quer que também nós digamos «sim» juntamente com Ele.
, convidando-A para fazer parte desta história de amor. Sem dúvida, a jovem de Nazaré não aparecia nas «redes sociais» de então, não era uma influencer – uma influenciadora digital – mas, sem querer nem procurá-lo, tornou-Se a mulher que maior influência teve na história.

Maria, a influencer de Deus. Com poucas palavras, soube dizer «sim», confiando no amor e nas promessas de Deus, única força capaz de fazer novas todas as coisas.
Sempre impressiona a força do «sim» desta jovem, daquele «faça-se em Mim» que disse ao anjo. Foi uma coisa diferente duma aceitação passiva ou resignada, ou dum «sim» como quando se diz: «Bem; provemos a ver que sucede». Foi algo mais, qualquer coisa de diferente. Foi o «sim» de quem quer comprometer-se e arriscar, de quem quer apostar tudo, sem ter outra garantia para além da certeza de saber que é portadora duma promessa. Teria, sem dúvida, uma missão difícil, mas as dificuldades não eram motivo para dizer «não». Com certeza teria complicações, mas não haveriam de ser idênticas às que se verificam quando a cobardia nos paralisa por não vermos, antecipadamente, tudo claro ou garantido. O «sim» e o desejo de servir foram mais fortes do que as dúvidas e dificuldades.

Esta noite ouvimos também como o «sim» de Maria ecoa e se multiplica de geração para geração. Seguindo o exemplo de Maria, muitos jovens arriscam e apostam, guiados por uma promessa. Obrigado, Erika e Rogelio, pelo testemunho que nos destes. Compartilhastes os vossos medos, dificuldades e todo o risco que vivestes à espera da vossa filha Inês. A dada altura dissestes: «A nós, pais, por várias razões, custa muito aceitar a chegada dum bebé portador de doença ou deficiência». Isso é verdade e compreensível! O facto surpreendente, porém, encerra-se naquilo que acrescentastes: «Quando nasceu a nossa filha, decidimos amá-la com todo o nosso coração». Antes da sua chegada, perante todas as notícias e dificuldades que surgiram, tomastes uma decisão e dissestes como Maria «faça-se em nós», decidistes amá-la. Face à vida de vossa filha frágil, inerme e necessitada, a resposta foi um «sim» e, deste modo, temos Inês. Acreditastes que o mundo não é só para os fortes!

Dizer «sim» ao Senhor é ter a coragem de abraçar a vida como vem, com toda a sua fragilidade e pequenez e, muitas vezes, até com todas as suas contradições e insignificâncias, abraçá-la com o mesmo amor que Erika e Rogelio nos contaram. É abraçar a nossa pátria, as nossas famílias, os nossos amigos como são, mesmo com as suas fragilidades e mesquinhices. Damos também provas de que se abraça a vida, quando acolhemos tudo o que não é perfeito, puro ou destilado, mas lá por isso não menos digno de amor. Porventura alguém, pelo facto de ser portador de deficiência ou frágil, não é digno de amor? Porventura alguém, pelo facto de ser estrangeiro, ter errado, encontrar-se doente ou numa prisão, não é digno de amor? Assim fez Jesus: abraçou o leproso, o cego e o paralítico, abraçou o fariseu e o pecador. Abraçou o ladrão na cruz, abraçou e perdoou até àqueles que O estavam a crucificar.

Porquê? Porque, só o que se ama, pode ser salvo. Só o que se abraça, pode ser transformado. O amor do Senhor é maior que todas as nossas contradições, fragilidades e mesquinhices, mas é precisamente através das nossas contradições, fragilidades e mesquinhices que Ele quer escrever esta história de amor. Abraçou o filho pródigo, abraçou Pedro depois de O ter negado e abraça-nos sempre, sempre, depois das nossas quedas, ajudando-nos a levantar e ficar de pé. Porque a verdadeira queda, aquela que nos pode arruinar a vida, é ficar por terra e não se deixar ajudar.

Como se torna difícil, às vezes, compreender o amor de Deus! Mas que grande dádiva é saber que temos um Pai que nos abraça independentemente de todas as nossas imperfeições!
O primeiro passo é não ter medo de receber a vida como ela vem, de abraçar a vida!
Obrigado, Alfredo, pelo teu testemunho e a coragem de o partilhar com todos nós. Fiquei muito impressionado quando disseste: «Comecei a trabalhar na construção até quando terminou aquele projeto. Sem emprego, as coisas complicaram-se: sem escola, sem ocupação e sem trabalho». Resumo-o nos quatro «sem» que deixam a nossa vida sem raízes e ela seca: sem trabalho, sem instrução, sem comunidade, sem família.

É impossível uma pessoa crescer, se não possui raízes fortes que a ajudem a estar firme de pé e agarrada à terra. É fácil extraviar-se, quando não temos onde firmar-nos. Esta é uma questão que nós, mais velhos, vos devemos colocar; mais, é uma questão que vós devereis colocar-nos e nós temos o dever de vos responder: Que raízes estamos a dar-vos? Quais são as bases que estamos a oferecer-vos para vos construirdes como pessoas? Como é fácil criticar os jovens e passar o tempo murmurando, se os deixamos sem oportunidades laborais, educativas e comunitárias a que agarrar-se para sonhar o futuro! Sem instrução, é difícil sonhar o futuro; sem trabalho, é muito difícil sonhar o futuro; sem família nem comunidade, é quase impossível sonhar o futuro. Porque sonhar o futuro é aprender a responder não só porque vivo, mas também para quem vivo, por quem vale a pena gastar a vida.
Como nos dizia Alfredo, quando alguém se vê despedido e fica sem trabalho, sem instrução, sem comunidade e sem família, no fim do dia sente-se vazio e acaba por preencher aquele vazio com uma coisa qualquer. Porque já não sabemos para quem viver, lutar e amar.

Lembro-me que uma vez, conversando com alguns jovens, me perguntaram: «Padre, porque é que hoje muitos jovens não se interrogam se Deus existe, ou sentem dificuldade em crer n’Ele e evitam comprometer-se na vida?» Respondi: «E vós, que achais?» Dentre as respostas que surgiram na conversa, recordo uma que me tocou o coração e está relacionada com a experiência que Alfredo partilhou: «Porque muitos deles sentem que, para os outros, pouco a pouco deixaram de existir, frequentemente sentem-se invisíveis». É a cultura do abandono e da falta de consideração. Não digo todos, mas muitos sentem que não têm nem muito nem pouco para dar, por falta de espaços reais que a isso os convoquem. Como hão de pensar que Deus existe se, para seus irmãos, há muito que deixaram de existir?

Bem sabemos que não basta estar conectado o dia inteiro para se sentir reconhecido e amado. Sentir-se considerado e convidado para algo é mais do que permanecer «em rede». Significa encontrar espaços onde possais, com as vossas mãos, com o vosso coração e com a vossa cabeça, sentir-vos parte duma comunidade maior que precisa de vós e, vice-versa, vós precisais dela também.

Isto, compreenderam-no muito bem os santos. Penso, por exemplo, em São João Bosco, que não foi procurar os jovens em qualquer lugar distante ou especial, mas aprendeu a ver tudo o que acontecia na cidade com os olhos de Deus, ficando impressionado com as centenas de crianças e jovens abandonados, sem escola, sem trabalho e sem a mão amiga duma comunidade. Havia muita gente que vivia naquela mesma cidade, e muitos criticavam aqueles jovens, mas não sabiam vê-los com os olhos de Deus. João Bosco fê-lo e animou-se a dar o primeiro passo: abraçar a vida como ela se apresenta; e, a partir disto, não teve medo de dar o segundo: criar com eles uma comunidade, uma família onde se sentissem amados com trabalho e estudo, ou seja, dar-lhes raízes a que agarrar-se para poderem chegar ao céu.

Penso em muitos lugares da nossa América Latina onde se promove a chamada família grande lar de Cristo, com o mesmo espírito da Fundação João Paulo II de que nos falava Alfredo, e muitos outros centros, que procuram receber a vida como ela vem na sua totalidade e complexidade, porque sabem que «para a árvore há uma esperança: cortada, pode ainda reverdecer e deitar novos rebentos» (Job 14, 7).

E sempre é possível «reverdecer e deitar novos rebentos», quando há uma comunidade, o calor duma casa onde criar raízes, que oferece a confiança necessária e prepara o coração para descobrir um novo horizonte: horizonte de filho amado, procurado, encontrado e dedicado a uma missão. O Senhor torna-Se presente por meio de rostos concretos. Dizer «sim» a esta história de amor é dizer «sim» como instrumentos para construir, nos nossos bairros, comunidades eclesiais capazes de percorrer as estradas da cidade, abraçando e tecendo novas relações. Ser um influencer no século XXI significa ser guardião das raízes, guardião de tudo aquilo que impede a nossa vida de tornar-se «gasosa», evaporando-se no nada. Sede guardiões de tudo o que permite sentir-nos parte uns dos outros, pertencer-nos mutuamente.

Isto mesmo viveu Nirmeen na JMJ de Cracóvia. Encontrou uma comunidade viva, alegre, que veio ao encontro dela, fê-la sentir-se parte dela e permitiu-lhe viver a alegria que comunica a maravilha de ser encontrada por Jesus.

Uma vez, um santo interrogou-se: «O progresso da sociedade servirá apenas para chegar a possuir o último modelo de carro ou adquirir a última tecnologia do mercado? Nisto se resume toda a grandeza do homem? Não há mais nada que isto para viver?» (SANTO ALBERTO FURTADO, Meditación de Semana Santa para jovens, 1946). E eu pergunto-vos: É esta a vossa grandeza? Não teríeis sido criados para algo maior? Maria compreendeu-o e disse: «Faça-se em Mim». Erika e Rogelio compreenderam-no e disseram: «Faça-se em nós». Alfredo compreendeu-o e disse: «Faça-se em mim». Nirmeen compreendeu-o e disse: «Faça-se em mim». Amigos, pergunto-vos: Estais dispostos a dizer «sim»? O Evangelho ensina-nos que o mundo não será melhor por haver menos pessoas doentes, debilitadas, frágeis ou idosas de que ocupar-se, nem por haver menos pecadores, mas será melhor quando forem mais as pessoas que, como estes amigos, estiverem dispostas e tiverem a coragem de dar à luz o amanhã e acreditar na força transformadora do amor de Deus. Quereis ser influencer no estilo de Maria, que teve a coragem de dizer «faça-se em Mim»? Só o amor nos torna mais humanos, mais plenificados, o resto não passa de remedeio bom, mas vazio.

Dentro de momentos, na Adoração Eucarística, encontrar-nos-emos com Jesus vivo. Certamente tereis muitas coisas para Lhe dizer, para Lhe contar sobre várias situações da vossa vida, das vossas famílias e dos vossos países.

Encontrando-vos na sua presença, face a face, não tenhais medo de Lhe abrir o coração pedindo que renove o fogo do amor d’Ele, vos induza a abraçar a vida com toda a sua fragilidade e pequenez, mas também com toda a sua grandeza e beleza. Que vos ajude a descobrir a beleza de estar vivo.

Não tenhais medo de Lhe dizer que vós também quereis fazer parte da sua história de amor no mundo, que sois para um «mais»!

Amigos, peço-vos também que, neste face a face com Jesus, rezeis por mim para que também eu não tenha medo de abraçar a vida, guarde as raízes e diga com Maria: «Faça-se em mim segundo a tua palavra».
 

27 janeiro 2019, 01:30