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Fábio Tucci Farah: O quarto cálice da Última Ceia

Para alguns peregrinos da antiguidade, o Santo Graal era um vaso de prata. Embora não estivesse no Cenáculo, essa estranha relíquia pode revelar o verdadeiro desfecho da Última Ceia.

Fábio Tucci Farah

Segundo São Jerônimo, Jesus teria usado dois cálices na Última Ceia – uma afirmação enraizada no relato de São Lucas. Em um artigo recente, apresentei minha hipótese sobre esses dois cálices usados por Jesus, um de ônix e outro de ágata, alegadamente custodiados em León e em Valência, na Espanha. Embora seja possível vislumbrar ambos no Cenáculo, não teriam sido os únicos cálices da Última Ceia. Na obra “O Quarto Cálice: Desvendando o Mistério da Última Ceia” (1), o teólogo norte-americano Scott Hahn apresenta uma interessante hipótese com sólida base bíblica.

A refeição pascal judaica – o Seder de Pessach – contemplava quatro cálices. O último deles, chamado de cálice da consumação, não é mencionado por São Lucas. Embora ele não estivesse ali, o cântico dos salmos que acompanha essa parte do ritual foi rigorosamente observado por Jesus e seus discípulos pouco após o terceiro – e mais significativo dos quatro –, o da bênção. No “Evangelho de São Mateus”:

“Eu vos digo: desde agora não beberei deste fruto da videira até aquele dia em que convosco beberei o vinho novo no Reino do meu Pai.” Depois de terem cantado o hino, saíram para o monte das Oliveiras. (Mt 26, 29-30).

Para Hahn, a ceia pascal de Cristo teria sido consumada na cruz. E ele aponta o momento preciso em que Jesus teria sorvido o quarto cálice. Basta um olhar atento a esta passagem do “Evangelho de São João”:

Depois, sabendo Jesus que tudo estava consumado, disse, para que se cumprisse a Escritura até o fim:

“Tenho sede!”.
Estava ali um vaso cheio de vinagre. Fixando, então, uma esponja embebida de vinagre num ramo de hissopo, levaram-na à sua boca. Quando Jesus tomou o vinagre, disse: “Está consumado!”. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.
(Jo 19, 28-30).

Para o teólogo norte-americano, não restam dúvidas de que o quarto cálice seria aquele vaso cheio de vinagre (que, em algumas bíblias, é traduzido como cântaro). Em uma iluminura dos Evangelhos de Rábula (586 d.C.), dois soldados romanos estão ao lado do Crucificado. Enquanto Longino usa a lança para perfurar o peito de Jesus – algo que ocorreria apenas após sua morte –, seu parceiro estende ao Crucificado uma vara com a esponja na ponta. Segundo uma tradição, esse personagem atualmente pouco conhecido chamava-se Estêfatão. Uma das possíveis intepretações é de que o nome daquele soldado teria sido associado à esponja, da mesma forma que o soldado da lança passou a ser conhecido como Longino – a tradução da arma do grego para o latim indicaria a origem do nome próprio, lancea.

O que mais nos interessa nesse episódio está no objeto próximo ao soldado: o cântaro com vinagre. O que fazia um cântaro com vinagre próximo ao local de execução? A palavra do original grego para a bebida é óksos. Tratava-se, na realidade, da posca, um vinho azedo dado como ração aos soldados romanos para ajudar a aplacar a sede. Talvez movido por compaixão pelo condenado – não por sadismo – Estêfatão tenha embebido uma esponja em um vaso de posca que os soldados romanos carregavam durante a execução, da mesma forma que atualmente muitos cultivam o hábito de carregar uma garrafinha de água. E exatamente esse vinho azedo teria sido, segundo Hahn, o que teria levado Cristo a consumar a ceia pascal da Nova Aliança.

Com esses olhos, poderíamos enxergar no cântaro, no vaso de vinagre, o quarto cálice da Última Ceia? Existiria alguma evidência – não uma metáfora – de que os cristãos dos primeiros séculos enxergavam nesse objeto um cálice sagrado? A chave para desvendar esse mistério está no relato de alguns peregrinos cristãos em Jerusalém. No século VI, um peregrino anônimo de Piacenza registrou sua viagem à Terra Santa. Na basílica de Constantino, ele teria apreciado “a taça de ônix, a qual nosso Senhor abençoou na Última Ceia” (2). A taça de pedra, porém, não teria sido o único cálice da Última Ceia à disposição dos peregrinos cristãos. Graças à patente divergência entre as inúmeras descrições, diversos estudiosos do Graal costumam desprezá-las. O Venerável Beda, afamado historiador eclesiástico inglês, popularizou a versão de que o cálice da Última Ceia era de prata. Essa informação não era fortuita. Ele a havia colhido do relato detalhado da peregrinação do bispo Arculfo, no século VII, feita pelo religioso Adomnano.

Em uma praça entre a igreja do Calvário e a basílica de Constantino, o prelado de origem francesa teria visto o cálice da Última Ceia. Por meio de uma abertura na tampa do relicário, Arculfo teria tocado e beijado o objeto. E apreciado detalhes significativos (grifo meu):

A taça é de prata, tem a medida de um quarto francês e duas pequenas asas, uma de cada lado. Dentro da taça está a esponja com a qual aqueles que crucificaram o Senhor embeberam em vinagre e, colocando-a na ponta do hissopo, levaram-na à Sua boca.(3)

Em algum momento anterior à peregrinação do bispo Arculfo, as duas relíquias foram reunidas. A saber: o suposto cálice e a esponja. Embora o prelado tenha se referido à taça de prata como o cálice usado na Última Ceia, é bem provável que tenha se equivocado com base na descrição de seus contemporâneos. Já seus antepassados possivelmente enxergaram naquele vaso de prata o que realmente era: um cântaro de posca. E a esponja ali seria a prova de que ambas as relíquias participaram de um mesmo evento. Mas não a única. Para defender a autenticidade do cálice custodiado em Valência, o cônego da catedral José Sanchis y Sivera publicou, em 1917, um livro bastante crítico a inúmeros candidatos a cálice da Última Ceia. E um bom alvo principal era a taça de prata do bispo Arculfo. As objeções apresentadas podem nos auxiliar na compreensão dessa relíquia:

Além disso, não é crível que um objeto tão precioso tenha sido encontrado tão pouco guardado (colocado no meio de uma praça), e sem que se lhe desse o culto apropriado de latria em um templo cristão, apesar de outras relíquias de menor importância estarem muito bem guardadas. Nem é provável que o Cálice fosse tão grande. (4)

Realmente, causaria estranheza o cálice da Última Ceia estar em uma praça pública de Jerusalém. Mas justamente o lugar mencionado nos oferece uma pista da natureza do objeto e de sua função original. Segundo Adomnano, o objeto estava no átrio entre a igreja do Calvário e a basílica de Constantino (ou Martiryum). Quem hoje visita a basílica do Santo Sepulcro, depara-se com um complexo religioso repleto de capelas. Naquela imponente construção, encontra-se o Gólgota, o sepulcro de Cristo, a cisterna onde Santa Helena teria descoberto as mais importantes relíquias do cristianismo.

No século IV, a galega Egéria teria visitado o complexo religioso idealizado por Constantino. Ele era composto por três partes principais. O Martiryum era considerado a igreja paroquial de Jerusalém, onde se celebravam os principais ofícios litúrgicos. No lado oposto, havia a Anástase, a gruta circular coberta por uma cúpula que marcava o sepulcro de Jesus. Esses dois santuários eram separados pela terceira parte, o átrio. E ali havia um pequeno monte rochoso encimado por uma cruz, identificado como o Calvário (5). Não é difícil deduzir que a taça de prata com a esponja estava próxima ao local da crucificação – e com uma função pedagógica clara. Ali, Estêfatão teria mergulhado a esponja em um vaso de metal com posca. E tratava-se de um vaso ou de um cântaro, o que justificaria o tamanho colossal para um cálice usado em uma refeição pascal. Mais precisamente, um sextário, a sexta parte de um côngio. Uma medida romana, não a medida de um cálice judaico. O “cálice de prata”, portanto, estava justamente onde deveria estar, marcando um episódio importante da vida de Cristo, como uma estação da via-sacra! E, ali, era possível alimentar a piedade dos peregrinos, deixando-o a mostra para ser tocado. Como aquele vaso de prata teria se transformado no cálice da Última Ceia? Há duas maneiras possíveis de responder à questão. Em um artigo anterior, tentei demonstrar que, entre todos os pretendentes a cálice da Última Ceia, dois apresentavam as maiores credenciais. O cálice custodiado na catedral de Valência teria sido carregado por São Pedro a Roma e de lá enviado à Hispania por São Lourenço, no século III. O outro pretendente seria a taça de ônix custodiada em Léon. Ela teria sido trasladada ao Egito e desembarcaria na Espanha no século XII. O último a descrever a taça de ônix em Jerusalém teria sido um peregrino anônimo de Piacenza, aproximadamente cem anos antes da peregrinação do bispo Arculfo.

Em 614, o exército do rei Cosroés II da Pérsia invadiu Jerusalém e todas as igrejas, incluindo o Martyrium foram incendiadas. As relíquias que ali eram veneradas passaram a pertencer à rainha Meryam, da Pérsia. Entre os tesouros, havia a relíquia da Verdadeira Cruz, a lança de Longino, a esponja e “a taça de ônix que ele teria usado na Última Ceia”(6). Em 629, o imperador bizantino Heráclio retomou Jerusalém e, em um cortejo solene, carregou de volta a relíquia da cruz – o gesto deu origem à Festa da Exaltação da Cruz, no calendário litúrgico da Igreja. Mas a taça de ônix não ressurge com a reconquista de Jerusalém e deve ter seguido caminho até o Egito. Quando Arculfo peregrinou pela Terra Santa, nenhuma das possíveis taças da Última Ceia havia permanecido em Jerusalém. E na época, o paradeiro de ambas era desconhecido pela cristandade. O espaço daquela relíquia tão valiosa poderia ter sido ocupado pelo vaso de prata – apresentado aos peregrinos como Cálice da Última Ceia. E muitos peregrinos compraram essa ideia. Entre eles, o bispo Arculfo. Segundo seu biógrafo, aquele vaso de prata era verdadeiramente “o Cálice do Senhor, que Ele abençoou e deu com Sua própria mão aos Apóstolos na ceia no dia anterior à Sua paixão”(7)

 

Mas há um segundo caminho para interpretar a associação daquele vaso de prata com o cálice da Última Ceia. E aqui volto-me novamente ao teólogo norte-americano Scott Hahn. A caminho do calvário, Jesus recusou tomar uma mistura de vinho e mirra, utilizada para atenuar o sofrimento dos condenados. Já na cruz, ao exclamar “tenho sede”, não recusou a posca, o vinho azedo oferecido pelo soldado romano. E após sorver a esponja, bradou antes de expirar: “Está consumado”. Possivelmente, a crença dos peregrinos dos primeiros séculos tivesse raízes em uma crença mais antiga, uma crença de que a ceia cristã foi consumada na cruz, uma crença que Hahn resgatou. Segundo essa crença, o vaso de vinagre poderia ser identificado como um cálice da Última Ceia – não o da bênção, como sugeriu Arculfo. Pelas mãos de Estêfatão, Cristo teria bebido o quarto cálice do Seder de Pessach, o cálice da consumação. 

Conforme observou o estudioso norte-americano Brant Pitre, era a partir da Última Ceia que os cristãos enxergavam a crucificação como um sacrifício. Para o autor: “ao recusar beber o último cálice da Páscoa até o momento de sua morte, Jesus reuniu tudo o que aconteceria com Ele entre a Quinta-feira e a Sexta-feira Santa – sua traição, sua ceia, sua agonia, sua Paixão, sua Morte – e uniu tudo isso com a Páscoa que seria celebrada ‘em memória’ dele.”(8) Segundo Hahn, ao sorver a esponja com posca, a “Páscoa está consumada. A Páscoa foi cumprida. Ela começara na noite anterior como a Páscoa da Antiga Aliança, mas agora, na Sexta-Feira Santa, encontrava cumprimento na Cruz como a Páscoa da Nova Aliança” (9). 

Antes e depois da peregrinação de Arculfo, multidões de peregrinos interromperam os passos entre a Basílica de Constantino e a Igreja do Calvário para venerar “no meio de uma praça” aquela estranha relíquia: um vaso de prata com uma esponja. Exatamente naquele lugar, Cenáculo e Cruz se confundiam. E nessa providencial confusão, é possível enxergar em detalhes a Última Ceia de Cristo.

 

(1) Hahn, Scott. O Quarto Cálice: Desvendando o Mistério da Última Ceia. São Paulo: Quadrante, 2020.
(2) Anônimo. Of the Holy Places Visited by Antoninus Martyr. Tradução: Aubrey Stewart, Ma. Comentários: Col. Sir C. W. Wilson, R.E. Londres: Palestine Pilgrims’ Text Society (PPTS), 1887, p. 17. Disponível em: https://archive.org/details/cu31924028534232/mode/2up. Acesso em: 4 de abril de 2023.

(3) Santo Adomnán. The Pilgrimage of Arculfus in the Holy Land. Tradução: Rev. James Rose Macpherson, B.D. Londres: Palestine Pilgrims’ Text Society (PPTS), 1889, p. 41. Disponível em: https://archive.org/details/ThePilgrimageOfArculfus. Acesso em: 4 de abril de 2023.

(4) Sivera, José Sanchis. El santo Cáliz de la Cena venerado en Valência: Santo Grial. Valência: Suc de Badal, 1914, p. 88.  

(5) Egéria. Egéria – Viagem do Ocidente à Terra Santa, no séc. IV (Itinerarium ad loca sancta). Tradução: Alexandra B. Mariano e Aires A. Nascimento. Lisboa: Edições Colibri, 2009.

(6) Armstrong, Karen. Jerusalém: uma cidade, três religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 252.
(7) Santo Adomnán, p. 11.
(8) Pitre, Brant. Jesus e as raízes judaicas da Eucarística. Campinas: Ecclesiae, 2020, p. 178-179.

(9) Hahn, Scott. , p. 141.

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06 abril 2023, 11:08