Arcebispo Metropolitano e presidente da CNBB e CELAM.  Foto: Crédito: Marcelo Payeras de Sant’anna/Divulgação-ASCOM Arcebispo Metropolitano e presidente da CNBB e CELAM. Foto: Crédito: Marcelo Payeras de Sant’anna/Divulgação-ASCOM

Arquidiocese de Porto Alegre realiza Assembleia anual de organização Pastoral e escuta Sinodal

As 157 paróquias da Arquidiocese de Porto Alegre se reuniram na sua Assembleia Pastoral. Para o evento de planejamento eclesial foram convocados os bispos da Arquidiocese, presbíteros, diáconos, coordenadores dos Conselhos Pastoral (CPP) e Econômico (CAE) paroquiais e coordenadores Arquidiocesanos das Comissões Pastorais.

Por Pe. Gerson Schmidt*

O Brasil tem 217 dioceses e 47 Arquidioceses e na Arquidiocese de Porto Alegre existem atualmente 157 paróquias que, na manhã do dia 25 de novembro, se reuniram em grande Assembleia Pastoral, realizada a cada ano, na sede das dependências do Instituto São Francisco, da zona norte da capital gaúcha. Para o evento de planejamento eclesial foram convocados os bispos da Arquidiocese, presbíteros, diáconos, coordenadores dos Conselhos Pastoral (CPP) e Econômico (CAE) paroquiais e coordenadores Arquidiocesanos das Comissões Pastorais. No início do encontro foi apresentado Monsenhor Odair Miguel Gonsalves dos Santos, 58 anos, que será ordenado proximamente como novo bispo auxiliar. Irá trabalhar no Vicariato de Guaíba, e será sagrado bispo no próximo dia 08 de dezembro em Irati, no Paraná. Mons. Odair é religioso da Congregação da Missão Província do Sul, tendo realizado o seu ministério sacerdotal recentemente na Arquidiocese de Curitiba (PR). Estava de malas feitas e passagem comprada para tralhar na secretaria da sua congregação religiosa em Roma, quando foi convocado pelo núncio apostólico, comunicando de sua nova missão como auxiliar na Arquidiocese de Porto Alegre.

Sínodo em Roma - Palavra de Dom Jaime 

 

Após oração, no início da Assembleia, o Arcebispo Metropolitano Dom Jaime Spengler, presidente da CNBB, deu boas-vindas a todos e falou amplamente sobre o Sínodo que ocorreu em Roma em outubro passado, onde se deu a caminhada de escuta (primeira etapa do Sínodo). O Sínodo se realizou sobretudo na Sala Paulo VI, em mesas redondas de 11 pessoas, tendo um moderador, em um trabalho árduo com mais de 40 grupos. “Aqui aparece a diferença de metodologia. A nova metodologia na Sala Paulo VI, não foi mais igual ao formato de sala de aula, como ainda aconteceu no Sínodo da Amazônia, mas através de mesas-redondas, que expressa um modo de ser Igreja”, afirmou Spengler, que participou no Sínodo na qualidade de presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil|) e também presidente do CELAM (Conferência Episcopal Latino-Americana), juntamente com outros três bispos do Brasil.  “Foi a primeira vez que leigos participaram de um Sínodo com direito a voto. Para alguns, isso foi um escândalo. Mas sabemos que a Igreja não é somente o clero. Todos nós somos discípulos e discípulas pelo batismo. O caminho é distinto nas tarefas, mas a meta é a mesma: O Reino de Deus. Na América Latina, já temos uma boa caminhada de comunhão e participação”, disse. As Conferências Latino-Americanas procuraram aplicar as conclusões e a renovação do Concilio Vaticano II para a realidade da América Latina. Sobretudo a III Conferência Geral do Episcopado latino-americano, em Puebla, propunha desde 1979 o desafio de “Comunhão e Participação”, descritos sobretudo nos números 211 a 281 do Texto Oficial da Conferência. Muitos assuntos já foram tratados nos outros Sínodos dos Bispos, como a identidade do presbítero, a Juventude, a Palavra...  Dessa vez o tema é a própria Igreja “no seu modo de ser”. O prelado arquidiocesano destacou o profundo clima de oração no Sínodo. Antes dos assuntos em pauta, houve três dias de intenso retiro, posteriormente intercalado de momentos de ricas liturgias e orações.  

Dom Jaime Spengler palando do Sinodo de Roma. Foto: Jornalista Marcelo Payeras de Sant’anna/Divulgação - ASCOM
Dom Jaime Spengler palando do Sinodo de Roma. Foto: Jornalista Marcelo Payeras de Sant’anna/Divulgação - ASCOM

Na assembleia na capital do RS, Dom Jaime abriu um parêntesis: “Quem acompanha as mídias sociais, percebe quanta bobagem dizem alguns que se colocam acima do Papa, acima do Evangelho, como formadores de opinião e que falaram a respeito do Sínodo, dizendo que o Papa quer acabar com a Igreja, que os padres vão poder casar, as mulheres vão ser padres e diaconisas, LGBT... nós ouvimos de tudo, não ouvimos? Na verdade, no Sínodo não se falou sobre isso. São falas dos fofoqueiros de plantão que não caminham com a Igreja e não estão inseridos na vida eclesial das dioceses e das paróquias e que se colocam acima do bem e do mal. É verdade que se falou do lugar das mulheres na Igreja, mas não na perspectiva que alguns colocaram”. Durante o Sínodo, pela primeira vez, o que para alguns é também “um escândalo”, a Secretária do Dicastério para a Vida Consagrada é uma mulher e “nada mais justo porque na Vida Consagrada a maioria são mulheres, pois até então sempre era um Arcebispo falando para a maioria de mulheres”, afirmou o Presidente da CNBB. Dom Jaime apontou que o Sínodo de Roma, que acontecerá também numa segunda etapa em outubro de 2024, não tratou necessariamente dos assuntos polêmicos divulgados pela mídia, pois, segundo ele “há um sínodo da imprensa, dos fofoqueiros de plantão, e outro verdadeiro que acontece na realidade”.  

O Arcebispo Metropolitano, repicando as palavras do Papa Francisco, falou que o Sínodo não é um parlamento, mas um espaço de construção, fomento e de diálogo. “Não dá para pensar a fé sem a comunidade e na Arquidiocese estamos num bom caminho. Vivemos nossa fé na comunidade e por isso precisamos ser iniciados. Não é uma questão de doutrina. É mais: é Evangelho, é Jesus!”.  E falou ainda: “Na vida paroquial, a paróquia não é uma mini diocese”. O Papa dizia numa entrevista sobre essa caminhada conjunta de sinodalidade (palavra não costumeira que significa “caminhar juntos”) e afirmava com ênfase sobre o envolvimento das pessoas no processo: “Todos, todos, todos”.

Experiência de escuta em Roma

 

O laboratório de escuta em Roma, feita também na primeira Assembleia do Clero de Porto Alegre, consistia numa metodologia interessante, a ser feita sempre nas comunidades locais, em outros momentos. Na sala Paulo VI, nos grupos de 11 membros, depois de uma oração, havia uma primeira rodada de escuta de quatro (4) minutos cronometrados, sobre alguma questão provinda das sínteses de todos os lugares e estâncias da escuta sinodal, proposta pelo Papa desde 2021. Depois havia dois minutos de silêncio. Num terceiro momento, outra rodada de escuta de quatro (4) minutos cronometrados sobre o que mais chamou atenção das falas do grupo. Finalmente três minutos para uma síntese feita pelo redator (secretário), em conformidade com todos do grupo, se todos as opiniões estariam contempladas. Nas madrugadas, haviam “heróis” que procuravam sintetizar as conclusões dos mais de 40 grupos. O documento final é um documento que foi entregue ao Santo Padre o Papa Francisco, como resultado dos trabalhos do Sínodo, que ele podia desaprovar a publicação, mas que mandou publicar e servirá como documento de estudos para o próximo ano de 2024, numa perspectiva de “Uma Igreja Sinodal em missão”.

Jubileu de 2025

 

Em 2025, temos o aniversário de realização do Concílio de Nicéia que aconteceu em 325. Este importante Concílio Ecumênico foi a primeira tentativa de alcançar uma comunhão na Igreja através de uma assembleia representando toda a Cristandade. No final, o Arcebispo lembrou que a data da Páscoa em 2024 vai coincidir no Ocidente e Oriente, criando no ano vindouro mais comunhão e união entre as igrejas cristãs. No cristianismo há dois calendários litúrgicos e datas civis: o calendário Gregoriano (Ocidente - foi criado em 1582 pelo Papa Gregório XIII) e calendário Juliano (Oriente, organizado em 46 a.C. e utilizado pelos cristãos ortodoxos). Nos anos bissextos, que acontecem de quatro em quatro anos, a data da Páscoa coincide. E a partir de 2025, a proposta é de unir a data da Páscoa para todos os cristãos em todos os anos. Para o Jubileu de 2025, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil já disponibiliza nas editoras diversos cadernos publicados pelas Edições da CNBB, de linguagem acessível e popular, retomando os textos fundamentais do Concílio Ecumênico Vaticano II e o ensinamento dos Padres Conciliares. São inúmeros cadernos do Concílio - Jubileu 2015 – Peregrinos de Esperança, do Dicastério para a Evangelização.

Pe. Ilario Flach. Coordenador Arquidiocesano de Pastoral. Foto: Gerson Schmidt
Pe. Ilario Flach. Coordenador Arquidiocesano de Pastoral. Foto: Gerson Schmidt

Em vista de um planejamento pastoral arquidiocesano 

 

O coordenador de Pastoral da Arquidiocese de Porto Alegre, Pe. Ilário Flach, realizou uma síntese da caminhada eclesial da Arquidiocese, em vista do Plano Pastoral que inspire sempre as propostas das comunidades. Lembrou que, em abril de 2014, houve a Assembleia Extraordinária do Clero, convocada por Dom Jaime Spengler, com o objetivo de oportunizar um diálogo franco e aberto entre o novo Arcebispo e o Clero. “Constatamos a dificuldade de elaborar um organograma do funcionamento da Arquidiocese e a necessidade de maior unidade para termos um rosto arquidiocesano e não apenas de vicariatos”, descreve. Em junho de 2017, aconteceu a primeira reunião do Conselho Arquidiocesano de Pastoral, visando a unidade da Pastoral na Arquidiocese. Em setembro do mesmo ano, o Professor Danilo Gandin, Educador e Mestre em Planejamento Participativo e Assessor de Processos em Planejamento, apresentou ao CAP (Conselho Arquidiocesano de Pastoral) o método de planejamento pastoral, de onde surgiram três perguntas a serem respondidas em todas as paróquias: O que sentimos como mais preocupante na realidade atual? Qual é o ideal de realidade humana e social que, como arquidiocese, queremos ajudar a construir? Como deve ser a Igreja na Arquidiocese para realizar essa missão? 

Em novembro de 2017, as respostas da comunidade foram lidas na Assembleia do Clero no Seminário São José de Gravataí. Nessa assembleia, novamente foram apresentadas três perguntas a serem respondidas em grupo: O que ressaltar? O que acrescentar? O que excluir e/ou alterar?

Já em março de 2018, na Assembleia do Povo de Deus na Arquidiocese de Porto Alegre foram feitas duas perguntas:  1. Tu és Igreja na Arquidiocese de Porto Alegre! Tens encantos e angústias com ela. Para sermos comunidade de discípulos de Jesus: quais são as duas coisas que consideras mais urgentes? Dá sugestões práticas para cada uma delas. 2. Tu sabes da importância da Igreja de Porto Alegre para a sociedade. Diz duas urgências para sermos, hoje, luz do mundo e sal da terra. Ofereça sugestões práticas para cada uma delas.

A metodologia utilizada na ocasião, foi primeiramente resposta individual, depois juntados grupos de três e grupos de nove pessoas. Obteve-se o resultado de 4.019 respostas com devidas sugestões. Em maio de2018, na reunião do Conselho Arquidiocesano, a partir do Marco Operativo, foram pinçados 10 temas a serem verificados na busca de um diagnóstico da pastoral Arquidiocesana.

1.         A unidade da Igreja Arquidiocesana
2.         A missionariedade da Igreja Arquidiocesana
3.         A acolhida da Igreja Arquidiocesana
4.         A ministerialidade da Igreja Arquidiocesana
5.         A formação na Igreja Arquidiocesana
6.         A juventude na Igreja Arquidiocesana
7.         A família na Igreja Arquidiocesana
8.         A dimensão sócio transformadora da Igreja Arquidiocesana
9.         O diálogo na Igreja Arquidiocesana
10.       A espiritualidade na Igreja Arquidiocesana

Para verificar cada tema, foram colocados indicadores para um possível diagnóstico correto, e a partir disso realizar “um bom tratamento” (linguagem médica). Esse trabalho foi feito nas paróquias, inicialmente com respostas individuais. Cada paróquia teve que apresentar um único texto para cada tema. Depois, cada Área Pastoral e Vicariato, reunindo as respostas, compilaram um texto único. Finalmente, houve um conteúdo para diagnóstico da pastoral na extensa Arquidiocese. Foi utilizado o método de compilação, não de resumo. Curioso que, nessa etapa, a grande reclamação foi que não era possível fazer bem esse trabalho, porque não se conhecia a diocese, mas somente a paróquia e, por vezes, nem isso, mas apenas o próprio grupo eclesial.

Coordenador Arquidiocesano decl Pastoral, Pe. Ilário Flach, conduzindo os trabalhos da Assembleia. Foto: Gerson Schmidt
Coordenador Arquidiocesano decl Pastoral, Pe. Ilário Flach, conduzindo os trabalhos da Assembleia. Foto: Gerson Schmidt

A partir do diagnóstico, definidos os temas entre nós, cada um detectou quais as necessidades da pastoral estariam contidas no diagnóstico de cada uma das áreas de investigação. O resultado foi 284 necessidades da pastoral. Por um trabalho de juntá-las por ideias centrais, surgiram 56 necessidades, apresentadas em setembro de 2018 no CAP. Duas perguntas novamente auxiliaram os trabalhos: 1. Dentre essas necessidades da Pastoral, destaque as três mais necessárias (por importância e urgência). 2. À luz das DGAE (Diretrizes Gerais da Aço Evangelizadora), o que não aparece nessas necessidades?  Então, em novembro do mesmo ano as 56 necessidades foram apresentadas na Assembleia do Clero. Em 2019, a partir das prioridades e orientações das Diretrizes da CNBB, a necessidade das CEM (Comunidades Eclesiais Missionárias) apresentadas nas DGAE 2019-2023, aconteceu a proposta da Formação Discipular, como catecumenato pós-batismal para toda comunidade cristã, juntamente com as 56 necessidades a serem também contempladas de alguma forma.

Em maio de 2019, em Aparecida, aconteceu a 57ª Assembleia Geral da CNBB onde foram aprovadas as novas das DGAE (Diretrizes Gerais da ação Evangelizadora) 2019-2023. Temas relevantes das Diretrizes destacavam a cultura urbana e as mudanças provocadas no mundo em que vivemos: “a mudança de época” (e não época de mudança) e a necessidade de integrar as DGAE no processo de planejamento. Na Assembleia dos Bispos se propôs a necessidade da criação e manutenção de pequenas Comunidades Eclesiais Missionárias (CEM), temática encaminhada para a Assembleia do Clero da Arquidiocese, no Seminário São José, em novembro de 2019. Quando se articulava nas bases e paróquias os planejamentos para se fazer discípulos de Jesus em Comunidades Eclesiais Missionárias, houve em 2020 o terrível tempo de PANDEMIA, quando parou tudo e todo o processo pastoral. As paróquias e dioceses tiveram que se adaptar posteriormente às reuniões virtuais, não presenciais.

Por provocação desde 2021 do Papa Francisco para uma caminhada de escuta sinodal, em setembro 2023 é proposto para a Arquidiocese caminhar com o Sínodo e refletir sobre a Sinodalidade, o Diálogo no Espírito. A questão atual proposta é:  como percebemos o “caminhar juntos” e que passos podemos dar, na Arquidiocese de Porto Alegre, movidos pelo Espírito Santo, para crescer em comunhão, missão e participação?

Caminhar juntos - Diálogo provindo dos Vicariatos 

 

O Cônego Leandro Miguel Chiarello, coordenador de Pastoral da Área Oeste de Porto Alegre, num terceiro momento da volumosa Assembleia Arquidiocesana, detalhou aspectos da síntese do diálogo no Espírito – como percebemos o “caminhar juntos”. Esses destaques vieram dos Vicariatos, a partir das sínteses e encaminhamentos das 157 paróquias da imensa Arquidiocese de Porto Alegre. Existe na Arquidiocese uma caminhada longa de busca de uma “eclesiologia de comunhão e participação”, pedida pela Igreja desde o Concílio. Percebemos o caminhar juntos na organização e animação da IVC (Iniciação da Vida Cristã), como método comum, grande sinal de Comunhão e Participação. Existe unidade no atendimento aos pobres e doentes, na Pastoral do Dizimo, no uso do Material Litúrgico da Arquidiocese (folheto “Dia do Senhor”, hinário dos devidos tempos litúrgicos), na organização do Conselho Arquidiocesano de Pastoral, na fraterna convivência e interação das diversas faixas etárias e na Comunhão do Povo de Deus através do calendário, das atividades comuns e do fortalecimento dos CPPs (Conselhos Pastorais Paroquiais). Cônego Chiarello lembrou que um dos propósitos assumidos na Assembleia Arquidiocesana de Pastoral do ano passado, no mesmo espaço do Colégio São Francisco, foi de nesse ano de 2023 todas as paróquias instituírem o Conselho Pastoral Paroquial e o Conselho de Assuntos Econômicos, caso não tivessem.

É perceptível uma fragilidade nos projetos de cuidado com a Casa Comum, desejo ardoroso do Papa Francisco na publicação da Carta Encíclica Laudato Si de 2015. Por outro lado, há diferenças e individualidades que nem sempre são respeitadas. Na questão do individualismo reinante, Pe. Leandro lembrou um pensamento num artigo de Dom Altamiro Rossato (Arcebispo Metropolitano de 1989—2001), na famosa coluna “Voz do Pastor”, que era muito lida publicada no Jornal gaúcho Correio do Povo: “Hoje se quer um Cristo sem Igreja e uma Igreja sem Cristo”. Individualismo, “onde a vida paroquial e eclesial pouco importa”. Caminhada em descompassos, cada um no seu trilho e assim dificultando o acolhimento. Há divergência de objetivos por vezes entre paróquias, grupos, movimentos e pastorais, que revelam disputas e rivalidades. “Não somos uma uniformidade, mas buscamos uma unidade”, frisou o expositor das diversas escutas realizadas, em fase de estudos e não decisões.

Num olhar para o clero, percebe-se um clericalismo ainda acentuado que é sinal de uma Igreja muito voltada à Instituição, não identificada com a Igreja Povo de Deus, Sinodal e Ministerial, que foi o espírito preterido pelo Concilio Vaticano II. “A ideia do clericalismo está presente também entre os leigos, não só entre o clero. A Igreja é formada pelos batizados, não só pelo sacramento da Ordem, nem só pela Vida Religiosa e Consagrada, mas pelo batismo”, disse. Uma Igreja centrada muito no padre já é uma reclamação no documento de Aparecida e reafirmada logo após nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora. Apontou-se no relatório que há bispos distantes da vida das comunidades e não conseguem ser pastores “com cheiro de ovelhas”. A formação atual ainda tem acento muito clerical e a formação presbiteral não visa “o ser comunidade”, mas gerir uma instituição. É preciso compreender melhor o papel da hierarquia eclesial que deve ser o vínculo da unidade e do discernimento do Espirito que se manifesta também através dos membros que não fazem parte da hierarquia.

Com o olhar para os leigos, Chiarello lembrou outras conclusões que vinham dos quatro Vicariatos da Arquidiocese. Com grande esperança se percebe a atuação competente e responsável de muitas lideranças leigas nos Conselhos. Destacou-se especialmente a presença ativa das mulheres, nos diversos serviços eclesiais e ministérios. Há também renovação de lideranças, que correspondem na medida em que sentem que estão caminhando juntos, o que gera confiança. Pessoas que já tem uma participação ativa de longa data. Mas também há lacunas e sombras quando se percebe um laicato ainda distante das decisões pastorais e administrativas, especialmente, as mulheres, embora sejam maioria nas diversas coordenações. Também se percebe que muitas lideranças e comunidades estão cansadas, desmotivadas e sobrecarregadas, o que acaba diminuindo o interesse de outros participarem e fragilizando essa participação de tal forma que na primeira dificuldade a pessoa se afasta.

Na caminhada “ad intra” (interna), como Igreja, há o desejo de caminhar juntos, mas nossos pés não alcançam muitas pessoas, pois somos poucos. A participação maior ainda ocorre nos momentos de necessidade sacramental ou quando ocorre a perda de um ente querido ou em momentos de festividades. Há pouca participação das pessoas nos momentos de espiritualidade, também dos pais na caminhada da catequese e na continuidade na vida comunitária, após o encerramento do ciclo do IVC (Iniciação da Vida Cristã). Constata-se que há grupos e pessoas fechadas que tendem a se perpetuar nas instâncias. Essa falta de união interna dificulta o acolhimento. A virtualização da fé e o sincretismo religioso afastam da presença real na comunidade. Há dificuldades de acolher ideias diferentes: muitos projetos, pouco comprometimento e senso de pertença à Igreja e à Comunidade.

Em um olhar na pastoral, há necessidade de uma organização da Arquidiocese que avalie as paróquias conforme a sua realidade. Há uma grande distância entre a teoria e prática. Fala-se tanto em fraternidade, comunhão, porém, existe ainda pouca corresponsabilidade. Os processos tendem a não ter continuidade, tanto na diocese como na paróquia, principalmente quando ocorre a troca de pároco. Por isso, há necessidade de planos pastorais, integrando os leigos, que depois possam continuar os planejamentos na troca de padres. Existem muitas divergências que causam rupturas e divisões nos grupos. Pouco se aproveita a capacidade das pessoas. Há uma falta de protagonismo: uns sempre esperam que os outros façam; outros, não deixam e nem abrem espaços para novos.

Arcebispo Metropolitano dando bênção ao Conselho Past
Arcebispo Metropolitano dando bênção ao Conselho Past

Opções preferenciais e missão na sociedade 

 

As opções preferenciais pelos jovens e pobres, assumidas e descritas na quarta parte do Documento de Puebla, ainda carecem de maior atenção.  Há comprometimento dos jovens em muitas comunidades, mas a diminuição é tanta que em muitos lugares já se pode falar em ausência de jovens e crianças e afirmar que os jovens (assim como os pobres e os ricos) não caminham conosco. A Igreja fez a opção preferencial pelos pobres, mas os pobres não fizeram a opção pela Igreja – aponta o relatório de escuta. “Não estão conosco. Muitas vezes isso ocorre porque não foram devidamente evangelizados, não se sentem acolhidos, atraídos ao nosso convívio, e são vistos mais como destinatários de bens, não da evangelização. É oferecido o pão material, mas não o pão espiritual. Também isso ocorre por causa da dificuldade de estar e ser periferia. Concentramos esforços nos grandes centros, mesmo sabendo que as pessoas já não estão mais aí”, descreve as sugestões vindas das bases.

Em relação à administração eclesial, constata-se que o mundo contemporâneo se desenvolveu com base na administração de organizações complexas. A Igreja ainda não acompanha esses avanços, estando muito dependente do esforço voluntário de leigos abnegados e de padres, mesmo cansados e sobrecarregados com a administração.

O olhar da Arquidiocese de Porto alegre precisa aprimorar-se em direção aos que não são católicos.  A Igreja, muitas das vezes, se volta para si mesma, onde o espírito missionário não se faz tão presente. Parece haver certo medo do mundo e a carência de uma maior participação nas questões políticas da cidade, o que faz com que não haja um olhar cristão sobre a realidade. Já com os cristãos de outras denominações, falta um maior conhecimento do Ecumenismo. Há muita resistência ao tema, sobretudo da parte de alguns jovens, de tal forma que praticamente pareça uma proposta utópica, podendo haver o diálogo, mas sem entrar em questão de dogmas.  No nosso olhar ao Sínodo, o “caminhar juntos” está intrinsicamente ligado a estar em comunhão e participação na vida eclesial, passando por diversas instâncias: formativas, espirituais e de solidariedade para com o próximo. Se, por um lado, o Sínodo está renovando nosso jeito de ser Igreja, por outro, expõe algumas fragilidades porque fomos educados para obedecer e “baixar as orelhas” (expressão que significa obediência cega e resignada), e não para uma participação efetiva. Há tendências aos extremismos e ao individualismo que atacam a fraternidade e fazem muitas pessoas caminharem sozinhos ou somente com os seus.

Passos para comunhão, participação e missão 

 

O Vigário Episcopal do Vicariato de Gravataí, Pe. José Inácio Sant’Anna Messa, encaminhou os passos daqui para a frente. Em novo momento, a pergunta exige comprometimento é que passos poderemos dar, na Arquidiocese de Porto Alegre, movidos pelo Espírito Santo, para crescer em comunhão, missão e participação.

Para evidenciar a continuidade com todo processo de planejamento percorrido até aqui, foi subdividido as indicações recolhidas usando como critério a imagem da casa, sustentada por quatro pilares: pão, palavra, caridade e missão, conforme indicado nas atuais DGAE (Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora) para a Igreja no Brasil. “Entramos por uma porta – disse Pe. Messa – e quando entramos por uma porta, somos acolhidos”. Papa Francisco afirmou que a Igreja de portas abertas deve ser não somente para fazer entrar quem dela busca, mas para que nós possamos sair em missão, “indo ao encontro dos anseios mais profundos das pessoas, e que promova a convivência”, disse o Vigário Episcopal de Gravataí, baseando-se no relatório provindo das escutas. Mas, para trabalhar a acolhida na Igreja, não apenas recebendo os que nos buscam e indo ao encontro do outro, será preciso disponibilizar tempo e presença e superar atitudes de disputas ou hierarquização. Acolher sem julgar, respeitando as diferenças e reconhecendo a vulnerabilidade e fragilidade de todos os gêneros. Saber ouvir, inclusive os que não participam da vida paroquial como os migrantes. Acolher as pessoas que se aproximam de nossas comunidades como os pais e padrinhos no batismo, famílias das crianças na catequese de Eucaristia e Crisma, casais no Matrimônio, enlutados nas missas de sétimo dia, apoiando seu acesso e ingresso à vida paroquial e comunitária.

Apontou-se a necessidade de aperfeiçoar e profissionalizar os serviços de Gestão e Administração da Arquidiocese e paróquias como condição para um bom gerenciamento dos bens patrimoniais, recursos financeiros, recursos humanos e tecnologia, havendo transparência das finanças nas diversas instâncias. Há urgência em falar mais positivamente de nossa própria comunidade, da Igreja, das lideranças, dos padres e religiosos, dos bispos etc. Precisamos organizar e divulgar positivamente nossos festejos e momentos de espiritualidade, enfim, em tudo que nos congrega como Igreja e comunidade de fé. Há grande necessidade de tornar a Comunicação e a Informação mais eficiente em nosso meio. Precisamos de uma PASCOM mais consistente que divulgue a vida da nossa Igreja. Na Arquidiocese já existe a ASCOM (Assessoria da Comunicação), que funciona junto à Cúria Metropolitana.

É preciso critérios pastorais para iniciar e concluir processos. Também é necessário não romper com os processos que já existem quando novos chegam. Para a unidade pastoral e entre as pastorais, urge um Plano de Pastoral na Igreja de Porto Alegre, à luz das Diretrizes Gerais para a Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, acentuando as Assembleias Paroquiais, Conselhos Pastorais Paroquiais (CPPs) e Conselhos para Assuntos Econômicos (CAEs), valorizando os organismos já existentes, aspecto destacado no Sínodo de Roma, em outubro passado.  Serão a forma e o lugar de sinodalidade e participação dos leigos na vida ativa da paróquia. São espaços de superação da incoerência de termos discursos participativos, mas com práticas às vezes autoritárias.

Conselho Arquidiocesano de Pastoral. Foto:Marcelo Payeras de Sant’anna/Divulgação-ASCOM
Conselho Arquidiocesano de Pastoral. Foto:Marcelo Payeras de Sant’anna/Divulgação-ASCOM

Formação para o Laicato e Conselho Arquidiocesano

 

Por fim, na Assembleia, se apresentou o itinerário formativo ao laicato em vista da preparação para o engajamento nas diversas obras que renovam e edificam a Igreja, a ser realizado por etapas em 2024, como Curso de extensão, com emissão de certificado reconhecido pelo MEC (Ministério da Educação), via ESTEF (Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana), que será um pré-requisito para Formação Ministerial. A modalidade será on-line (aulas síncronas e assíncronas) e presencial (encontros paroquiais), seguindo os quatro pilares da casa.

No final da Assembleia, houve a apresentação de todos os membros do Conselho Arquidiocesano de pastoral (CAP) que é um organismo de reflexão sobre a ação pastoral da Arquidiocese de Porto Alegre, à luz das orientações da Igreja. É um meio para colocar em prática o Concílio Vaticano II que aponta para uma Igreja discipular, sinodal, ministerial, participativa, missionária, ecumênica, celebrativa e servidora. Os bispos auxiliares puderam expor observações no final no encontro. Dom Juarez Albino Destro, bispo auxiliar, observou que se a formação catequética é permanente, não há razão de afirmar que o método do IVC de quatro anos seguidos é muito extenso. Também sugeriu, haja vista a importância da dimensão ecumênica apontada nos relatórios, que no Conselho Arquidiocesano também houvesse a participação dessa prioridade do Concilio. O Arcebispo ministrou a benção solene sobre este Conselho Pastoral Arquidiocesano e, depois de palavra final dos outros bispos, encerrou o maravilhoso encontro com a benção de envio a todos.

*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.

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04 dezembro 2023, 10:27