Refugiados no DNA da Ordem de Malta. O Papa é uma fonte de força como nunca vi, diz Daniel Solymári

"É minha profunda convicção que só esta atitude, um humanismo redefinido, sensível à dor dos outros e em constante busca da convivência pacífica, pode ser o caminho a seguir": enquanto a Hungria se prepara para receber o Papa Francisco nos dias 28 e 30 de abril, o Serviço de Caridade Húngaro da Ordem de Malta destaca sua missão de construir pontes entre as pessoas, especialmente para refugiados e migrantes que chegam ao país da UE.

Por Thaddeus Jones

O Papa Francisco realizará sua 41ª Viagem Apostólica entre 28 e 30 de abril, visitando a nação européia da Hungria para uma série de encontros, eventos e celebrações na capital, Budapeste.

"Cristo é o nosso futuro" é o lema da viagem, enquanto o logotipo apresenta a Budapest Chain Bridge, a mais antiga ponte húngara sobre o rio Danúbio que liga as cidades de Buda e Pest. O logotipo também simboliza um tema precioso do Papa Francisco sobre a importância de construir pontes entre as pessoas.

Visita a refugiados em Budapeste

 

Entre os atividades pastorais durante sua visita de três dias, o Papa se encontrará com refugiados e pobres e visitará uma escola para crianças com deficiências físicas.

A Hungria e os países vizinhos estão se esforçando para administrar o fluxo maciço de refugiados provenientes da Ucrânia, bem como de outros países muito mais distantes. Desde o início da guerra na Ucrânia, há mais de um ano, quase 1,5 milhão de cidadãos ucranianos passaram pela Hungria como refugiados.

Uma das principais agências católicas que auxiliam esses recém-chegados no país é o Serviço de Caridade Húngaro, a organização de socorro da Ordem Soberana de Malta que trabalha localmente e em todo o mundo por meio de sua extensa rede de serviços humanitários.

Alcance local e global da Ordem de Malta

 

Desde 2010, Daniel Solymári tem auxiliado nesses esforços para o Serviço de Caridade Húngaro da Ordem de Malta como seu Diretor de Relações Exteriores. Ele também atua como Conselheiro na Embaixada da Ordem Soberana de Malta no Reino Hachemita da Jordânia desde 2020.

Em entrevista ao Vatican News, o Sr. Solymári fala sobre o trabalho da agência na Hungria e seu trabalho na Síria e na África subsaariana, fornecendo ajuda de emergência e serviços de reassentamento para refugiados e migrantes que fogem da guerra, pobreza e desastres naturais.

Ele também compartilha suas esperanças em relação à visita do Papa Francisco em abril e um livro de sua autoria a ser lançado em breve sobre o trabalho pastoral do Papa em favor de refugiados e migrantes.

Conte-nos sobre o início do seu trabalho com refugiados...

Fundado em 1989, o Serviço de Caridade Húngaro da Ordem de Malta, a organização húngara de socorro da Soberana Ordem de Malta, nasceu de uma crise de refugiados. A Hungria estava cuidando de quase 50.000 refugiados da Alemanha Oriental em Budapeste durante a “mudança de sistema” ou transição e antes da queda do Muro de Berlim. Foi o maior programa de ajuda humanitária na Europa na época. Naquele ano, estourou a Revolução Romena, seguida logo depois pelas Guerras Iugoslavas em 1991, nas quais a equipe de caridade paroquial da Ordem Húngara de Malta desempenhou um papel importante. Foi neste contexto que o Serviço de Caridade Húngaro da Ordem de Malta foi criado, e é por esta razão que a sensibilidade às crises internacionais tem sido uma característica definidora do seu trabalho desde então. Estamos convencidos de que, como organização humanitária cristã, devemos buscar constantemente alguma forma tangível de solidariedade com aqueles que vivem nas áreas mais remotas – nas palavras do Papa Francisco, as “periferias humanas”. É por isso que o Serviço de Caridade Húngaro da Ordem de Malta foi a primeira organização humanitária húngara a trabalhar no Oriente Médio, no berço do cristianismo, bem como na Ásia e na África subsaariana. Ainda estamos presentes nessas regiões com nossos programas humanitários ou de ajuda internacional ao desenvolvimento. Estamos envolvidos na vida da população local, trabalhando com eles na busca de oportunidades para uma vida humana mais digna.

Por que o foco especial na questão dos refugiados?

Permita-me colocar em perspectiva histórica o profundo sentido de responsabilidade que o Serviço de Caridade da Ordem de Malta tem para com os refugiados. No passado, a Ordem Soberana de Malta foi submetida a um longo período de perseguições, desde a sua criação. Após seu início em Jerusalém, a organização fugiu primeiro para Chipre, depois para Rodes, depois para a ilha de Malta e por fim para Roma. Esse passado, essa experiência interna da organização criou um forte senso de comunidade com os refugiados. A migração é, portanto, uma atitude organizacional central e profunda para a Ordem de Malta. Mesmo antes da crise de 2015, foi para nós uma questão à qual devíamos estar particularmente atentos e solidários com os refugiados. Viajamos para a ilha de Lampedusa, ajudamos refugiados do Quênia, Sudão do Sul, Síria, Paquistão, Iraque, Jordânia e Líbano. Eu poderia continuar e continuar. Ajudar refugiados também está no DNA da Ordem de Malta húngara. Para mim, o Papa Francisco é uma fonte de força como nunca vi.

Que tipo de assistência vocês estão oferecendo aos refugiados e migrantes na Hungria?

No início da década de 2010, era preocupante ver com que facilidade os problemas globais podiam se tornar locais. E a crise migratória europeia de 2015 mostrou a todos com que rapidez as lutas cotidianas de pessoas distantes podem se tornar parte de nossas chamadas vidas cotidianas "ocidentais". Isso mostrou-nos que os problemas do Sul Global não são mais uma realidade isolada, diantante de nós, mas estão muito presentes aqui e agora. É uma situação que deve inspirar a todos nós, antes de tudo aos vários países e atores envolvidos, a buscar soluções e, como o Papa Francisco frequentemente enfatiza, a cooperar e a colocar em prática uma cultura de solidariedade. É minha profunda convicção que só esta atitude, um humanismo redefinido, sensível à dor dos outros e em constante busca da convivência pacífica, pode ser o caminho a seguir. Desde 2015, o Serviço de Caridade Húngaro da Ordem de Malta redobrou seus esforços para encontrar novas formas de colocar em prática a caridade cristã. Do ponto de vista da migração, a Hungria é principalmente um país de trânsito, mas ainda vemos milhares e milhares de pessoas optando por permanecer no país por médio ou longo prazo. Para eles, a ajuda humanitária imediata não é mais suficiente – precisamos fornecer soluções sustentáveis para seus desafios. Por essa razão, os programas de integração e reassentamento são agora a parte mais significativa do trabalho do Serviço de Caridade Húngaro da Ordem de Malta em relação aos refugiados na Hungria. Há uma guerra além da nossa fronteira oriental, que tem um impacto imediato e concreto na Hungria. O número de refugiados ucranianos que entraram na Hungria ultrapassou 1,5 milhão (algumas estimativas apontam para cerca de 4 milhões) e atualmente há mais de 30.000 pessoas com status de proteção temporária.

Como a Hungria está lidando com o grande número de pessoas que fogem de guerras ou da pobreza?

Desde 1989, o Serviço de Caridade Húngaro da Ordem de Malta tem sido um bom parceiro para as administrações públicas na Hungria e em todo o mundo. Vendo as manifestações tangíveis de solidariedade social, o público húngaro voltou-se com confiança para a nascente Ordem de Malta húngara, e mesmo órgãos governamentais confiaram-lhe a gestão de tensões sociais que os seus serviços administrativos, sociais e de saúde não podiam, ou só podiam parcialmente, lidar. Hoje, a Hungria tem um sistema de assistência social e de saúde de classe mundial que funciona bem, mas o Serviço de Caridade Húngaro da Ordem de Malta continua sendo um parceiro estratégico das organizações sociais do governo, incluindo o Ministério das Relações Exteriores da Hungria. Durante décadas, a Ordem de Malta húngara enfatizou a necessidade de prestar assistência localmente e em estreita cooperação com a população local e os necessitados. De uma forma que os necessitados vejam melhor. Não podemos impor modelos aplicados no Norte Global que sejam incompatíveis com suas necessidades. É por isso que acreditamos que a ajuda deve ser entregue localmente: antes de tudo, deve ser entregue onde está o problema, onde surgem os problemas. Oferecemos os princípios e procedimentos profissionais que conhecemos e ajudamos a implementá-los localmente, se assim o desejarem os nossos parceiros locais, que melhor conhecem as necessidades do seu território. Por exemplo, construímos encanamentos de água e instalações sanitárias em favelas urbanas na África Oriental e implementamos programas de repatriação e reassentamento na Síria e na África para ajudar refugiados e deslocados internos a voltarem para casa.

Em relação ao reassentamento de refugiados, algo que recebe menos atenção do que os serviços de atendimento de emergência, quão importante você acha que isso é em termos de soluções de longo prazo para os movimentos maciços de pessoas que estamos testemunhando hoje?

O Serviço de Caridade Húngaro da Ordem de Malta esforça-se por construir parcerias: apenas presta assistência em resposta a pedidos decorrentes de uma cooperação estreita. Como parte disso, trabalhamos com a Igreja Greco-Católica Melquita para ajudar cerca de 200 famílias sírias deslocadas internamente a retornar a Homs. E a pedido dos bispos locais, também ajudamos refugiados em favelas urbanas na África a voltar para suas casas nas áreas rurais. Esses são programas que permitem que os deslocados internos tenham um novo começo. Não estamos apenas intervindo e invertendo a espiral da pobreza, mas também estamos tendo um impacto imediato na redução da migração, permitindo que essas famílias fiquem em casa e criem condições decentes que lhes dêem uma chance realista de um novo começo. A narrativa dominante controlada pela mídia e pela política tende a nos fazer esquecer que nem todos querem sair de seu país. Pense em como é terrivelmente difícil deixar para trás sua terra natal, seus parentes, suas memórias, os túmulos de seus entes queridos - nem todo mundo realmente quer fazer isso. Para evitar que alguém tenha que fazer isso, temos programas para ajudar as pessoas a permanecer em seu próprio país. E considero essas iniciativas basicamente bem-sucedidas.

No entanto, voltando à questão do trabalho de ajuda na Ucrânia, podemos dizer que a intensidade da ajuda mudou. No início, a prioridade era ajudar as pessoas que fugiam do país, mas agora nosso trabalho está caminhando para uma assistência mais permanente. Uma percentagem significativa dos que chegam à Hungria espera que a paz regresse ao seu país. Mas a paz é improvável no curto prazo, então um número significativo de refugiados quer continuar suas vidas aqui. A questão é por quanto tempo. No que diz respeito a eles, precisamos ajudá-los a estabelecer um modo de vida.

O que a guerra em curso na Europa significa do ponto de vista humanitário?

As guerras são a realidade mais terrível no sistema de convivência entre as nações. Acredito profundamente que mesmo o uso legítimo da força e da violência não é uma celebração alegre, mas uma profunda pena que não tenhamos conseguido encontrar um gesto de amor desarmante. Portanto, sinto que é importante observar que não devemos permitir que a guerra, qualquer guerra, se torne uma parte inextricável de nossas vidas e de nossos pensamentos. E isso não é apenas sentimentalismo ingênuo. Todos em todos os campos devem fazer tudo ao seu alcance para evitar conflitos e trabalhar juntos para uma coexistência pacífica. Cada um deve fazer a sua parte, dependendo da sua capacidade de agir. Podemos acreditar com segurança que conflitos duradouros poderiam ser evitados se jornalistas, políticos, balconistas e professores redobrassem seus esforços para trabalhar por uma convivência mais inclusiva em todas as situações – trabalhar para valorizar todas as pessoas, independentemente de onde nasceram ou vivem no mundo. mundo, em oposição às muitas formas contemporâneas de exclusão e abandono do próximo.

Como você acha que a visita do Papa Francisco à Hungria em abril o ajudará em seus esforços locais aqui?

Para mim, o Papa Francisco representa a esperança de uma convivência pacífica, de um mundo mais inclusivo. Estou convencido de que sua visita é uma força inspiradora que pode nos motivar a fazer um esforço redobrado para buscar a possibilidade de convivência não violenta. Vivemos em tempo de guerra. Aqui na Europa e em todo o mundo, os conflitos humanos estão destruindo as sociedades. Em tal realidade, a visita do Papa é um símbolo de paz. Sempre vejo o conflito humano como uma ferida no corpo da sociedade que fere todos os membros da comunidade humana. Eu olho para os conflitos como olho para um familiar doente: se alguém da família está doente, afeta psicologicamente todos os outros membros da família. É esta união, esta atenção cuidadosa da “casa do pai”, como Sua Santidade colocou no Fratelli tutti, que o Papa traz para a Hungria e para esta parte da Europa.

Você também é pesquisador e está prestes a publicar um livro sobre a pastoral do Papa Francisco em favor dos refugiados e migrantes. Você poderia nos dar uma prévia do livro?

Eu escrevi o primeiro resumo em húngaro dos ensinamentos do Papa Francisco, publicado em 2015 na forma de um livro de discussão, no qual meu coautor e eu trabalhamos por dois anos. O livro se chamava “Caminho do Papa Francisco” e tivemos a oportunidade de entregá-lo pessoalmente ao Papa por ocasião de seu octogésimo aniversário. Estou convencido de que a voz do Papa é uma voz clara e distinta, uma tocha que ilumina o caminho a seguir. Também é muito coerente com o ensinamento da Igreja sobre a questão dos refugiados e é uma continuação consistente do que seu predecessor professou. Este foi o assunto de um artigo de várias partes escrito por mim e publicado na revista húngara Vigilia. Para o décimo aniversário da eleição do Papa Francisco, preparei uma análise aprofundada de seus discursos no Dia Mundial do Migrante e do Refugiado e da política migratória da Santa Sé. As palavras foram analisadas uma a uma, e as conexões, divergências, ligações e fontes foram escrutinadas. Na análise, mostramos claramente quais ideias do Papa Francisco podem ser consideradas independentes e quais elementos são baseados no ensinamento de seus predecessores e da Igreja. A continuidade é próxima e coerente. É por isso que acredito que o Papa Francisco não é nem liberal nem conservador, mas radicalmente cristão!

Você também é diplomata da Ordem Soberana de Malta na Jordânia, coordenando a assistência aos refugiados lá. Do lado húngaro, você trabalha ativamente na Síria, bem como na África subsaariana. Você poderia descrever brevemente este trabalho e o que você está vivenciando?

A Jordânia é um lugar importante na Terra Santa. Não é por acaso que os papas frequentemente iniciam suas viagens apostólicas à Terra Santa em Amã. Um país maravilhoso, a Jordânia é uma área muito importante para a Ordem Soberana de Malta. Fazendo fronteira com a Síria ao norte, é um dos países mais afetados pela crise síria, com a segunda maior taxa de refugiados per capita do mundo. Ainda há quase 1 milhão de pessoas nos campos de refugiados do norte que precisam de toda a ajuda possível. A Ordem de Malta é muito ativa no Oriente Médio e sua presença é indispensável no Líbano. O mesmo vale para a África subsaariana. A rede diplomática da Ordem de Malta trabalha diariamente para pôr em prática a solidariedade cristã na vida quotidiana.

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07 março 2023, 10:34