Sacerdote e religiosa animam os fiéis em rua de Qaraqosh, na iminência da visita do Papa Francisco, em 7 de março de 2021 Sacerdote e religiosa animam os fiéis em rua de Qaraqosh, na iminência da visita do Papa Francisco, em 7 de março de 2021 

Esperança e medo na expectativa dos cristãos iraquianos para este 2022

A situação dos cristãos na Planície de Nínive, Iraque, continua precária, apesar de, após a expulsão do Estado Islâmico, terem sido feitos muitos progressos na região no que diz respeito à renovação e reconstrução de lugares cristãos, bem como de igrejas e outras propriedades da Igreja. Quatro cristãos de Qaraqosh - uma cidade que está recuperando seu status como a cidade cristã mais importante do país – revelam à Ajuda à Igreja que Sofre suas esperanças e sonhos para 2022.

Primeiro veio a derrota militar do Estado Islâmico, à qual seguiu-se o regresso dos cristãos iraquianos a suas casas. Mais tarde, desafiando as ameaças do terrorismo e da Covid-19, o Papa Francisco chegou para abençoar o Iraque, que tanto sofreu na última década.

Durante sua visita, o Santo Padre esteve em Qaraqosh – que já foi a cidade cristã mais importante do Iraque. Agora, esta localidade aspira recuperar esse status, já que muitos de seus antigos moradores retornam para recomeçar suas vidas em sua terra natal ancestral.

Por ocasião do novo ano, os cristãos da localidade na Planície de Nínive compartilharam suas esperanças e sonhos, bem como seus medos e preocupações, à Fundação de Direito Pontifício Ajuda à Igreja que Sofre, que durante todo esse tempo desenvolveu muitos projetos em seu apoio.

O poeta e jornalista Namroud Kasha recorda que, apesar de todas as dificuldades, as coisas mudaram para melhor. “A atmosfera no Natal e Ano Novo era muito diferente da década passada. Dez anos atrás, as celebrações foram canceladas devido à situação de segurança no Iraque, na Província de Nínive em particular, onde grupos terroristas estavam matando e desalojando cristãos".

Apesar dos desafios – afirma - “retornamos a nossas cidades, que estavam destruídas e sem vida. A atenção foi concentrada na reconstrução de infraestrutura e prédios. Nos últimos três anos, desapareceu a nuvem escura que pairava sobre nossas cidades.”

 

O funcionário público aposentado, Amer Shamoun, por sua vez, deposita alguma esperança na sobrevivência do cristianismo no Iraque no âmbito política. “No início de cada ano renovamos nossa esperança de um futuro em que superaremos os desafios que ameaçam nossa identidade religiosa e nacional, bem como a identidade de nossa terra. Dessa forma, poderemos garantir a continuidade da presença cristã em nosso país”, afirma.

“Essa esperança renovada procura fortalecer politicamente os cristãos, de acordo com nossos direitos estabelecidos pela Constituição, e ativá-los no terreno. Devemos também trabalhar para legislar outros direitos não previstos, até agora, na Constituição”.

No entanto, para que tudo isso se torne realidade, é necessário que as "turbulentas condições políticas e de segurança no Iraque" comecem a se acalmar e que, por meio de um esforço conjunto, se estanque a onda de emigração.

“Há muitos cristãos – observa Amer Shamoun - que deixaram o Iraque devido à incerteza da situação e à perda de confiança no futuro. As raízes e sementes do cristianismo estão no Oriente, nossas orações e esperanças são que essas raízes sejam regadas e nutridas".

O P. Istephanos al-Katib, pároco da Igreja siro-católica de São José em Qaraqosh, compartilha esta preocupação pela estabilidade e aponta em particular para a ameaça representada pelas milícias. “A presença continuada de milícias não estatais, que ignoram a lei e prejudicam o Estado, significa que assassinatos, sequestros, saques, roubos e corrupção continuam. Soma-se a isso a contínua deterioração da situação econômica, a disseminação do desemprego que assola o país e a contínua instabilidade política, social e econômica.

Continua também o fanatismo islâmico, de crenças puritanas que rejeitam o desenvolvimento, a cultura e o progresso, bem como a exclusão do "outro", o regresso da sociedade a tempos passados ​​e o envolvimento contínuo e inadequado da religião na política e no comércio".

A defensora de direitos humanos Amr Yalda trabalhou muito nos preparativos dos últimos Natais e observa que toda a cidade fez o mesmo.

“Todos estavam prontos para receber o Menino Jesus, o clima de festa era maravilhoso e lindo. Os fiéis partilharam a sua alegria pelas várias tradições como a decoração de ruas, casas e igrejas e a preparação de iguarias. Houve trocas de presentes, sem esquecer os rituais religiosos e os cantos litúrgicos próprios da época, que enchem nossos corações de alegria e fé”.

Seus desejos para este 2022 são muitos, mas todos começam com paz. “A cada celebração do nascimento de Cristo, esperamos que a paz prevaleça em nossas cidades. Com paz, a maioria dos desejos se realiza, incluindo segurança, amor ao próximo e amigo, bem como justiça em todas as suas expressões.”

“Há quem esteja disposto a aniquilar a alegria de nossos idosos e jovens com suas ideias extremistas e incendiárias. No entanto, nossa fé em Jesus e sua graça ilimitada faz com que os males dos extremistas ao nosso redor desapareçam".

Por enquanto, o fato de existirem cristãos em Qaraqosh e que eles tenham podido celebrar livremente o Natal e o Ano Novo é algo a ser considerado. No entanto, na mente de todos está o medo de que o ódio e a destruição, dominantes há apenas alguns anos, possam retornar.

"Estou com medo do futuro próximo - confidencia Amr Yalda -, especialmente porque o Natal passado coincidiu com os pedidos de retirada das forças americanas do Iraque e porque há sinais de uma crise econômica". “Oramos a Deus que tempestades devastadoras não surjam para destruir o que as mãos bondosas e os buscadores da paz ajudaram a construir”. "Só espero que Deus proteja nosso país e nosso povo de todos os males, afastando dele os conflitos externos, e que nos conceda força e fé para enfrentar todos os desafios futuros".

*Com Ajuda à Igreja que Sofre

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03 fevereiro 2022, 09:47