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O Arcebispo Ivan Jurkovič, Observador Permanente da Santa Sé na sede das Nações Unidas em Genebra O Arcebispo Ivan Jurkovič, Observador Permanente da Santa Sé na sede das Nações Unidas em Genebra 

Jurkovič: “O futuro da humanidade depende do diálogo inter-religioso"

“Da qualidade do diálogo de duas ou três grandes religiões depende o futuro de mais da metade da humanidade. Estas são coisas grandes”. Entrevista com o Arcebispo Ivan Jurkovič, observador permanente da Santa Sé na sede das Nações Unidas em Genebra, por ocasião de um evento que apresentará a encíclica “Fratelli tutti” a representantes das principais instituições internacionais e líderes religiosos

Michele Raviart – Vatican News

Fraternidade, multilateralismo e paz. Estes são os temas que serão o foco do evento promovido em Genebra pela Santa Sé nesta quinta-feira (15), durante o qual a encíclica "Fratelli tutti" do Papa Francisco será apresentada na presença de instituições como a OMS, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados e a Organização Internacional do Trabalho. O evento será aberto por um discurso do Cardeal Secretário de Estado Pietro Parolin, que oferecerá algumas reflexões sobre como o conceito de "fraternidade humana" pode afetar a cooperação dentro da comunidade internacional.

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Unidos em uma "família humana”

Estamos todos unidos como uma "família humana", lê-se na encíclica do Papa. Uma constatação que se tornou evidente durante este ano de pandemia, que deixou clara a importância da colaboração entre países, como explica ao Vatican News o Arcebispo Ivan Jurkovič, observador permanente da Santa Sé na sede das Nações Unidas em Genebra e moderador do encontro.

Jurkovič: Do ponto de vista de Genebra, podemos ver exatamente isso: a complexidade é a variedade da família humana. No início tínhamos a impressão de que os exemplos de solidariedade entre os Estados eram mais visíveis, ao passo que agora vemos também que há momentos de incerteza. As crescentes desigualdades e divisões entre os países têm se tornado cada vez mais visíveis, e também podemos ver que os mais vulneráveis são menos considerados. Isto é muito visível na corrida para acumular doses de vacinas no mercado, tanto que alguns países têm em excesso e outros carecem completamente deste recurso. É a presença do "vírus do individualismo radical" que o Santo Padre atacou em um de seus discursos e que levou a Santa Sé a apresentar a encíclica em alto nível, com um evento sobre o tema da fraternidade, do multilateralismo e da paz. São três palavras que vão muito bem juntas em Genebra, porque a fraternidade é a inspiração das Nações Unidas - e também do Papa -, o multilateralismo é uma questão que tem sido muito problemática e que sempre precisa de apoio, e Genebra é também um centro de negociações para o desarmamento e a paz.

Neste evento estarão presentes organizações internacionais que se dedicam à dignidade humana em geral como a Organização Internacional do Trabalho, a OMS, o Alto Comissariado para os Refugiados. De que forma a “Fratelli Tutti” pode ser um guia para estas instituições?

Jurkovič: Parece-me muito útil notar que o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos começa assim: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Eles são dotados de razão e consciência e devem agir uns para com os outros num espírito de fraternidade. É interessante que as primeiras palavras da carta já contenham a palavra fraternidade. Pareceu-nos muito importante ver que a inspiração do Santo Padre vem exatamente no lugar certo, Genebra, onde há sempre a necessidade de despertar e redescobrir os valores e ideais que são tão essenciais para nossa atividade aqui. Vale ressaltar que existem 39 organizações internacionais sediadas em Genebra, do desarmamento ao comércio, dos direitos humanos à migração. Isso significa um enorme capital de direitos humanos e de dignidade humana. Genebra precisa, como nós, não apenas acreditar em inspirações, mas também na força do diálogo que precisa de estruturas. Pode-se criticar as Nações Unidas - e é fácil criticar, talvez até mesmo necessário - mas deve-se dizer que o mundo de hoje provavelmente estaria muito pior sem as Nações Unidas e é impensável sem ela. As grandes ideias e as grandes inspirações também precisam de estruturas e é isso que tentamos sublinhar e apoiar também como a presença da missão da Santa Sé.

A segunda parte do evento se concentra no diálogo inter-religioso. Como as religiões podem contribuir para a paz e o desenvolvimento da família humana nesta fase histórica marcada pela pandemia?

Jurkovič: Isso já foi dito em muitas ocasiões. Nos últimos tempos é um discurso que se repete muito e cada vez com maior convicção. Eu diria que existe uma necessidade de diálogo dentro da religião. Pode-se encontrar as palavras mais apropriadas para defini-la, mas de ambos os lados é preciso saber que é uma necessidade e nossa percepção é que esta convicção está se tornando cada vez mais profunda e mais real. Não se trata de palavras, é uma necessidade concreta. O mundo deve ir adiante no caminho do diálogo entre as religiões. Estamos próximos e o futuro do mundo depende de nós, especialmente entre as grandes religiões, que facilmente representam mais da metade da humanidade. Isso significa que da qualidade do diálogo de duas ou três grandes religiões depende o futuro de mais da metade da humanidade. Estas são coisas grandes.

15 abril 2021, 09:49