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Congregação para a Doutrina da Fé: a serviço do tesouro de todos

Os dicastérios da Santa Sé vistos por dentro: história e missão, objetivos e custos de gestão das estruturas de apoio ao ministério do Papa. A Congregação para a Doutrina da Fé na entrevista com o Prefeito, Cardeal Ladaria Ferrer

Alessandro Di Bussolo – Vatican News

"Não somos mais a Inquisição". O Cardeal Luis Francisco Ladaria Ferrer, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, abre com um importante esclarecimento a apresentação de seu dicastério.  Tocamos "as verdadeiras periferias", talvez menos visíveis que outras, "mas não menos reais e dolorosas", afirma referindo-se, entre outras coisas, à questão do abuso de menores por parte de expoentes do clero. Fazemos com que as pessoas envolvidas, explica o cardeal, vejam que "na Igreja não há impunidade" e por isso sustentamos sua "confiança na Igreja". Um trabalho que feito com um orçamento "modesto" e, no entanto, adequado à missão de "promover e tutelar a doutrina sobre a fé", porque a Igreja - sublinha- "tem o dever de transmitir o ensinamento dos Apóstolos às novas gerações".

O cardeal prefeito, Luis Francisco Ladaria Ferrer
O cardeal prefeito, Luis Francisco Ladaria Ferrer

A Congregação para a Doutrina da Fé é a primeira e mais antiga, entre as da Cúria Romana, mas seu nome está ligado ao lugar comum de uma Igreja rigorista, e lembra instituições como a Inquisição e o Índice. Hoje, em um contexto profundamente mudado, qual é a missão da Congregação que o senhor lidera?

Cardeal Ladaria: O passado de nossa Congregação ainda pesa muito, porque nem sempre percebemos as profundas mudanças que ocorreram na Igreja e na Cúria Romana nos últimos tempos. Nós não somos mais a Inquisição, o Índice não existe mais. Nossa missão é promover e tutelar a doutrina sobre a fé. Uma tarefa que será sempre necessária na Igreja, que tem o dever de transmitir o ensinamento dos Apóstolos às novas gerações. O que foi chamado de "preocupação pela reta doutrina" nasceu antes do Santo Ofício, já está no Novo Testamento. Isso é testemunhado por muitos Concílios, Sínodos, etc. Certamente, a forma concreta de realizar esta tarefa mudou ao longo dos séculos e podemos imaginar que mudará novamente. Mas a preocupação com a fidelidade à doutrina dos Apóstolos permanecerá sempre. 

A entrada do edifício da Congregação para a Doutrina da Fé
A entrada do edifício da Congregação para a Doutrina da Fé

Uma tarefa que parece muito distante de uma atividade de simples gestão econômica. Quais são os itens de despesas de seu dicastério e de que forma seu "balanço econômico" é justificado pelo "balanço da missão" que deve caracterizar o serviço de todos os componentes da Cúria Romana?

Cardeal Ladaria: Nosso orçamento é modesto. Naturalmente existem os salários dos funcionários e as despesas de um funcionamento normal do dicastério. Acrescentamos algumas viagens, as sessões da Pontifícia Comissão Bíblica, da Comissão Teológica Internacional, algumas publicações, a modesta remuneração de nossos colaboradores externos... O orçamento de nossa Congregação é o orçamento adequado à nossa missão. Não temos que inventar "missões": o trabalho que fazemos no cumprimento de nossas tarefas é suficiente para nós.

Há sete anos um jesuíta ocupa a Cátedra de Pedro e há três anos o senhor, um coirmão jesuíta, chefia a Congregação para a Doutrina da Fé, após mais de vinte anos como consultor e depois secretário. Qual é a marca da espiritualidade inaciana hoje no governo da Igreja universal e, em particular, do dicastério do qual o senhor é Prefeito?

Cardeal Ladaria: É claro que em muitos discursos do Papa se descobre facilmente sua familiaridade com a espiritualidade de Santo Inácio de Loyola. É natural que seja assim. E é normal que isso tenha consequências em seu modo de governar e em suas decisões. Mas a espiritualidade inaciana é universalista, não particularista, é aberta a tudo e a todos, e por isso é difícil identificar consequências concretas. Talvez outras pessoas possam descobrir isso melhor do que eu. Posso dizer o mesmo sobre nosso próprio dicastério: devemos perguntar aos outros se reconhecem estas marcas inacianas e até que ponto.

O senhor pode nos dar três exemplos concretos – como na melhor tradição da Companhia de Jesus - para ilustrar a realização de seu trabalho, sublinhando em particular se tem apenas uma dimensão "romana" ou se também envolve missões em outras partes do mundo?

Cardeal Ladaria: Nossa missão é universal, mesmo que nosso trabalho ocorra em Roma. Nossos documentos são para a Igreja universal e as decisões que temos de tomar todos os dias, no âmbito de nossas competências, muito raramente dizem respeito diretamente a Roma. As missões mais importantes que nos levam fora de Roma envolvem reuniões periódicas com as comissões doutrinárias das Conferências Episcopais dos diferentes continentes. No meu tempo de serviço na Congregação, participei de três dessas reuniões: para a África (Dar es Salam, 2009); Europa (Budapeste 2014); Ásia (Bangkok, 2019). Em duas ocasiões também estivemos na Índia. E não esqueçamos as reuniões com o episcopado do mundo inteiro, por ocasião das visitas "ad limina", aqui no Vaticano. Essas visitas têm grande importância, e consomem muito tempo e energia.

Entrada do edifício da Congregação
Entrada do edifício da Congregação

Sobre a questão crucial do abuso de menores, a Congregação está empenhada não apenas na esfera estritamente "disciplinar", para identificar e julgar com rigor os casos denunciados, mas também em um trabalho de sensibilização e orientação voltado para os bispos e as Igrejas locais. Quais são as modalidades e os custos deste compromisso?

Cardeal Ladaria: Devemos estudar e resolver os muitos casos de abuso dos quais tomamos conhecimento. E ao lidar com estes casos, fazemos um trabalho de sensibilização, para que as pessoas envolvidas mantenham a confiança na Igreja, deixando claro que na Igreja não há impunidade. As visitas "ad limina" são fundamentais para que os episcopados dos diversos países tomem consciência do problema. Infelizmente nestes últimos meses, por causa da pandemia, tivemos que suspender estas reuniões.

É possível identificar uma estratégia "social" na atividade da Congregação, particularmente em resposta ao mandato do Papa de alcançar as "periferias" de nosso tempo e de estar ao lado dos pobres e dos últimos?

Cardeal Ladaria: Há periferias de muitos tipos. As pessoas que temos que ouvir, os problemas que temos que resolver, tocam verdadeiras periferias, talvez não tão visíveis como as outras, mas não menos reais e dolorosas. Não esqueçamos que em não poucas ocasiões as vítimas de abusos estão entre as mais pobres entre os pobres. Evidentemente, devemos estudar todos os casos.    

02 fevereiro 2021, 09:48