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Marcello Semeraro foi criado cardeal pelo Papa Francisco no Consistório de 28 de novembro Marcello Semeraro foi criado cardeal pelo Papa Francisco no Consistório de 28 de novembro 

Cardeal Semeraro: confio o meu cardinalato a Paulo VI

O novo Prefeito da Congregação das Causas dos Santos, Cardeal Marcello Semeraro, faz uma reflexão sobre o significado do cardinalato, que acaba de receber: “Quanto maior a responsabilidade, maior o risco de se extraviar”. “Depois do Consistório rezei junto ao túmulo de Paulo VI”. Na entrevista, que concedeu à Rádio Vaticano, o novo Cardeal fala da expectativa para saber o resultado do trabalho do Conselho de Cardeais, do qual foi Secretário por sete anos

Fábio Colagrande - Vatican News

Entre os Cardeais, que receberam o barrete cardinalício no Consistório do último dia 28 de novembro, estava também um colaborador estreito do Santo Padre: Dom Marcello Semeraro, bispo de Albano, cidadezinha perto de Roma. Em 2013, o Papa Francisco o escolheu para ser Secretário do Conselho dos Cardeais e, em 15 de outubro passado, o nomeou na Cúria como Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Após o Consistório, o novo Cardeal concedeu uma entrevista à Rádio Vaticano, na qual recorda as palavras de João XXIII, que o inspiraram no rito do cardinalato, e confessa que confiou seu novo mandato a outro Papa, São Paulo VI.

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Cardeal Semeraro: Enquanto recebia o barrete cardinalício, lembrei-me de um pensamento, que chamou muito a minha atenção, desde que o Papa Francisco anunciou meu nome na lista dos treze novos Cardeais, em 25 de outubro. Pensei no que Ângelo Roncalli, agora São João XXIII, escreveu em uma circunstância semelhante à minha, no fim de novembro de 1952, quando foi escolhido para receber o cardinalato. Li e reli as suas palavras, tentando torná-las minhas, nestes dias, e até durante a celebração do Consistório. Naquela ocasião, São João XXIII repetiu o seu lema "Oboedientia et Pax" e acrescentou: "Farei como São José, que deu uma nova orientação ao seu burrinho". Eu já desempenhava meu ministério episcopal e, agora, o Papa Francisco me convidou para uma colaboração diferente. Exercerei esta nova missão com muita disponibilidade, como se fosse começar tudo de novo. Mas, quem segue o Senhor, sempre começa de novo.

Na homilia da cerimônia do Consistório, o Papa Francisco advertiu os novos Cardeais para o perigo de se "extraviar", de se sentir uma "eminência" e de estar longe do povo. O senhor está ciente destes perigos?

Cardeal Semeraro: Na sua homilia, o Papa meditou sobre um trecho evangélico, que conhecemos, no qual Jesus recomenda, muitas vezes, aos seus discípulos a segui-lo. Ele o repetiu também a Pedro: siga-me. Seguir Jesus significa ser discípulos, mas, ao mesmo tempo, ter sempre os olhos fixos nele. Todo discípulo, como também um bispo ou um cardeal, pode correr o risco de perder Jesus de vista. Na verdade, quanto maior a responsabilidade, maior o risco. A gente pode seguir a Jesus e trilhar seu caminho, mas se perder Jesus de vista, pode se extraviar, como disse o Papa. Trata-se de um forte apelo, mas de uma advertência diária para cada um de nós.

Eminência, está para se concluir o trabalho do Conselho dos Cardeais sobre a Reforma da Cúria Romana, do qual o senhor é Secretário há mais de sete anos. Quais os resultados podemos esperar?

Cardeal Semeraro: Em meados deste ano, o Conselho dos Cardeais entregou o resultado deste trabalho nas mãos do Papa, concluindo assim, deste ponto de vista, seu mandato. Como acontece com os documentos mais importantes, agora o Papa tem a tarefa de ler e revisar, com base nas indicações e sugestões, com a ajuda de alguns Dicastérios específicos. A contribuição da Congregação para a Doutrina da Fé não pode faltar. Da minha parte, eu também concluí meu mandato como Secretário do Conselho dos Cardeais. Tenho certeza de que o Papa, ao término da sua leitura, dará a aprovação definitiva. A perspectiva é aquela indicada, sobretudo, pela Exortação Apostólica “Evangelii gaudium”. A nova Constituição Apostólica, que substituirá a “Pastor Bonus”, sempre se inspirou neste texto e na ideia de uma Igreja enviada até aos confins da terra.

Como o senhor pretende empregar a sua preparação teológica no seu novo cargo de Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos?

Cardeal Semeraro: Na verdade, este novo encargo me leva aos anos passados quando eu estudava e ensinava eclesiologia. O mistério da Igreja reflete-se na Comunhão dos Santos. Nós, aqui na terra, representamos aquela "communio sanctorum", que celebramos na liturgia diária, quando, "com os anjos e santos", cantamos a Deus, chamando-o três vezes Santo. Porém, a este respeito, o Papa Francisco também nos deu um documento específico, o “Gaudete et exsultate”, no qual fala da santidade que corresponde, plenamente, com os ensinamentos do Concílio Vaticano II. Na história da Constituição “Lumen Gentium”, o quinto capítulo fala sobre a vocação universal à santidade. Trata-se de um apelo universal da Igreja à santidade, dirigido a todos os homens. A Exortação apostólica de Francisco ressalta a importância desta santidade quotidiana e da resposta que devemos dar a Deus. Não somos chamados a viver sempre momentos excepcionais, pelo contrário, devemos viver aquela santidade quotidiana, que contém a nossa resposta ao Senhor, dia após dia.

Trata-se de uma "santidade da porta ao lado", como a chama o Papa, que deve ser redescoberta?

Cardeal Semeraro: Nestas semanas de trabalho, na Congregação das Causas dos Santos, tive que entregar ao Papa, para o seu discernimento final, algumas histórias de Santidade, concernentes à vida de cada dia: uma Santidade que não surge repentinamente, mas desabrocha todos os dias. Claro, há histórias que também dependem de uma conversão repentina. No entanto, sabemos que o estilo do Senhor é o de nos chamar, todos os dias.

Depois da celebração do Consistório, o senhor quis rezar junto ao túmulo de São Paulo VI. Por quê?

Cardeal Semeraro: Tive a oportunidade de passar, sozinho, alguns momentos de silêncio nas grutas vaticanas, quando não havia ninguém, para rezar. Paulo VI é o santo da minha vida sacerdotal, mas também o santo com quem aprendi amar e dar a vida pela Igreja. Por dezesseis anos, fui Bispo de Albano, uma diocese que traz os sinais da presença do Papa Montini, que faleceu em Castel Gandolfo, em 6 de agosto de 1978. Todas as cidadezinhas, que fazem parte desta diocese, falam da sua presença que, para mim, sempre foi um grande incentivo no meu ministério. Por isso, quis manter um diálogo silencioso com ele na cripta vaticana. Enfim, ao invés de continuar a conversar com ele, ajoelhado diante do seu túmulo, preferi recitar o Magnificat, como ele sempre o fazia”.

05 dezembro 2020, 08:03