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Missa da Páscoa e bênção Urbi et Orbi Missa da Páscoa e bênção Urbi et Orbi  (Vatican Media) Editorial

A fé no Ressuscitado, que transforma tudo em bem, e a nossa tarefa

O anúncio da Páscoa no momento de escuridão que o mundo atravessa. Desta forma, o Papa Francisco nos acompanhou com a homilia da Vigília e a mensagem Urbi et Orbi, convidando à responsabilidade de nos sentir parte de uma única família.

ANDREA TORNIELLI

Na homilia da Vigília Pascal, celebrada na noite do Sábado Santo em uma Basílica de São Pedro vazia e envolta em uma atmosfera surreal, o Papa citou a frase que, sobretudo nas primeiras semanas da pandemia, foi usada por muitos, exposta em janelas e sacadas, reproduzida em letreiros e faixas: "Tudo ficará bem".

Não é fácil repetir isso para alguém que perdeu um ente querido. Menos ainda, para aqueles que tiveram suas famílias destruídas pelo vírus. Certamente não é agradável ouvir a repetição desse slogan para aqueles que, por causa da emergência e da crise, não têm mais emprego e não sabem como irão alimentar seus filhos. Ou aqueles que sentem a incerteza das consequências, do futuro que nos espera e que sabemos será difícil. Tudo vai ficar bem?

Ouça e compartilhe

“Nesta noite, disse o Papa, conquistamos um direito fundamental, que não nos será tirado: o direito à esperança. É uma esperança nova, viva, que vem de Deus. Não é mero otimismo, não é uma palmada nas costas nem um encorajamento de circunstância. É um dom do Céu, que não podíamos obter por nós mesmos. Tudo correrá bem: repetimos com tenacidade nestas semanas – prosseguiu Francisco -, agarrando-nos à beleza da nossa humanidade e fazendo subir do coração palavras de encorajamento. Mas, à medida que os dias passam e os medos crescem, até a esperança mais audaz pode desvanecer. A esperança de Jesus é diferente. Coloca no coração a certeza de que Deus sabe transformar tudo em bem, pois até do túmulo faz sair a vida.”

Nem tudo ficará bem, portanto, mas a certeza de que o Ressuscitado que saiu vivo do sepulcro é o mesmo Crucificado cujo corpo, dilacerado pelos flagelos e imolado no mais infame dos suplícios, contemplamos na Sexta-feira Santa. Deus respondeu à pergunta sobre o motivo da dor e da morte, do sofrimento inocente, fazendo-a experimentar a seu Filho, para que jamais estivéssemos sozinhos. “Cristo, minha esperança, ressuscitou! – disse o Papa na mensagem Urbi et Orbi - Não se trata duma fórmula mágica, que faça desvanecerem-se os problemas. Não! A ressurreição de Cristo não é isso. Mas é a vitória do amor sobre a raiz do mal, uma vitória que não «salta» por cima do sofrimento e da morte, mas atravessa-os abrindo uma estrada no abismo, transformando o mal em bem: marca exclusiva do poder de Deus.”

Mas a mensagem pascal de Francisco nos convoca com realismo à responsabilidade que temos, porque “não é este o tempo da indiferença, porque todo o mundo está sofrendo e deve sentir-se unido ao enfrentar a pandemia”. Encoraja todos a colocar à disposição aqueles cinco pães e dois peixes que são servidos, graças ao milagre da multiplicação e da compartilha, para matar a fome da multidão.  Porque “não é este o tempo dos egoísmos, pois o desafio que enfrentamos nos une a todos e não faz distinção de pessoas”. Porque esta pandemia nos chama a ser corajosos, e a dizer sim à vida, como repetiu o Papa durante a vigília: “Façamos calar os gritos de morte: de guerras, chega! Parem a produção das armas, porque é de pão que precisamos, não de metralhadoras. Cessem os abortos, que matam a vida inocente. Abram-se os corações daqueles que têm, para encher as mãos vazias de quem não dispõe do necessário.”.

Neste contexto, encontra lugar também um apelo à Europa, para que neste momento de escuridão as rivalidades não retomem vigor, mas todos “se reconheçam parte de uma única família e se amparem reciprocamente”. Hoje, advertiu Francisco, “à sua frente, a União Europeia tem um desafio epocal, de que dependerá não apenas o futuro dela, mas também o do mundo inteiro. Não se perca esta ocasião para dar nova prova de solidariedade, inclusive recorrendo a soluções inovadoras. Como alternativa, resta apenas o egoísmo dos interesses particulares e a tentação dum regresso ao passado, com o risco de colocar a dura prova a convivência pacífica e o progresso das próximas gerações”.

12 abril 2020, 14:15