Busca

Vatican News

Irmã Augusta: nós, mulheres, continuaremos a defender a vida na Amazônia

No início da tarde desta quarta-feira (12), a Sala de Imprensa da Santa Sé recebeu os jornalistas para a coletiva de apresentação da Exortação Pós-sinodal do Papa Francisco, "Querida Amazonia". Na apresentação do documento também estava Irmã Augusta de Oliveira, vigária geral das Irmãs Servas de Maria Reparadora. Como mulher, ecoam com comoção no seu coração as palavras do Papa sobre a presença de mulheres “fortes e generosas” que mantiveram em pé a Igreja naqueles lugares, transmitindo a fé quando, também, por decênios, “nenhum sacerdote passava por aquelas partes”.

Debora Donnini, Andressa Collet – Cidade do Vaticano

“Sonhamos pela e com a Amazônia”. É a estrada que, para irmã Augusta de Oliveira, vigária geral das Irmãs Servas de Maria Reparadora, o Papa indica com “Querida Amazonia”. Com palavras ricas de amor e de gratidão, a religiosa, da Congregação que está presente há 100 anos na região pan-amazônica, retoma a exortação do Papa para se empenhar pelos direitos dos mais pobres, dos indígenas, dos afroamericanos, das mulheres, do povo que trabalha no campo e na cidade: em todos aqueles cenários que o Sínodo de outubro do ano passado levou, com decisão, ao olhar da Igreja. É importante o protagonismo dos leigos, serve coragem missionária e profética, recorda ela, fazendo um chamado às experiências da Repam, a Rede Eclecial Pan-amazônica, e de outras associações, e definindo-as “um grito pela vida”.

Como mulher, no seu coração ecoam com comoção as palavras do Papa sobre a presença de mulheres “fortes e generosas” que mantiveram em pé a Igreja naqueles lugares, transmitindo a fé quando, também, por decênios, “nenhum sacerdote passava por aquelas partes”. E, assegura, que as mulheres continuarão o empenho em defesa da vida ameaçada na Amazônia, porque a presença feminina se encontra nas fronteiras mais remotas. A religiosa cita as tantas vidas doadas pelos missionários sobre o solo amazônico, sacerdotes, consagrados e leigos.

Na coletiva de imprensa de apresentação da Exortação Pós-sinodal nesta quarta-feira (12), na Sala de Imprensa do Vaticano, o testemunho de irmã Dorothy Stang foi retomado várias vezes. A religiosa foi assassinada por criminosos há exatamente 15 anos em Anapu, no Brasil, justamente pelo seu empenho contra o desmatamento. Sempre próxima a agricultores e operários, morreu com a Bíblia nas mãos.

As palavras de irmã Augusta de Oliveira são de gratidão ao Papa por esse caminho sinodal que abriu processos graças aos quatro pilares, isto é, aos quatro “sonhos”, propostos por Francisco, aquele social, cultural, ecológico e, sobretudo, pastoral.

Irmã Augusta de Oliveira durante a coletiva de imprensa
Irmã Augusta de Oliveira durante a coletiva de imprensa

Sonho e chamada à conversão

“Sonhos” sobre os quais se mantêm, em modo preferencial, Pe. Adelson Araújo dos Santos, professor de Espiritualidade na Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, que participou como especialista no Sínodo. É a poética que lhe chamou a atenção, assim como, o amor do Papa, aquele de cuidar dos nossos irmãos e do ambiente, porque – evidencia ele – quem ama, cuida. A palavra “sonho” segue a tradição bíblica, basta pensar ao sonho de José e àquele de São José, esposo de Maria, quando volta ao lugar onde Deus revela os seus desenhos. Não somente o Papa Francisco, mas também Bento XVI usou o mesmo recurso linguístico, ensinando aos jovens que nenhum sonho é inalcançável quando quem o desperta é o Espírito de Deus. E, assim, em cada um dos quatro sonhos partilhados pelo Papa na “Querida Amazonia”, pode-se reconhecer aquela chamada à conversão apresentada pelos padres sinodais no Documento Final.

Os cardeais Czerny e Baldisseri
Os cardeais Czerny e Baldisseri

O Sínodo e o seu caminho

A traçar toda a origem da Assembleia Sinodal, desde o anúncio do Papa até o Angelus de 15 de outubro de 2017, o cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo, recordou, entre outras coisas, a ampla consulta ao povo de Deus na Amazônia, na fase preparatória, e, depois, a rica participação no Sínodo com a presença significativa, entre outros, de 25 especialistas e de 16 representantes dos povos indígenas. Um percurso que resultou no Documento Final, emendado nos Círculos Menores, e, após, votado pela maioria dos dois terços. Um texto entregue, assim, ao Papa e, por seu pedido, tornado público.

Respondendo à uma pergunta a propósito da Episcopalis communio sobre o Sínodo dos Bispos, o cardeal Baldisseri esclareceu que o Documento Final do Sínodo para a Amazônia não tem a aprovação expressa do Papa, que exorta a lê-lo. Então, não havendo uma palavra clara de aprovação, esse documento tem “uma certa autoridade moral”, mas não é magistério ordinário. A questão foi enaltecida pelo diretor da Sala de Imprensa do Vaticano, Matteo Bruni, recordando que tal documento deve ser lido à luz da Exortação “Querida Amazonia” – que faz parte do magistério ordinário do Sucessor de Pedro – e, assim, para a sua aplicação. A Exortação leva a assinatura feita em San Giovanni in Laterano, que acontece, esclarece ainda, quando se reconhece uma conotação particularmente pastoral.

O professor Carlos Nobre e Pe. Adelson Araújo dos Santos
O professor Carlos Nobre e Pe. Adelson Araújo dos Santos

Uma poesia de amor por uma terra bonita e sofrida

Importante também a intervenção do professor Carlos Nobre, cientista e Prêmio Nobel 2007, que, trabalhando há anos em questões ecológicas, acolhe com grande prazer essa Exortação. A referência a um modelo de desenvolvimento em que ninguém é deixado para trás. Exorta, ainda, a integrar a antiga sabedoria indígena com as novas tecnologias para encontrar um terceiro caminho que não seja nem aquele da pura conservação nem aquele de um desenvolvimento em alta intensidade, mas que leve a cultivar a Amazônia sem destruir esse coração do planeta.

Através de uma conexão em vídeo, a coletiva abriu espaço para a intervenção de dom David Martínez de Aguirre Guinea, secretário especial do Sínodo dos Bispos para a Amazônia e bispo em Puerto Maldonado, onde – recorda – em 2018 começou a história do Sínodo. Forte o encorajamento do Papa buscar novos caminhos para encontrar Cristo, sublinha ele, com o desafio de estar próximos aos mais necessitados. Uma exortação, então, que é como uma poesia de amor que chora pelos crimes e se admira pela beleza dessa terra.

 Inclusive o cardeal Michael Czerny, secretário especial do Sínodo, coloca em evidência que a Amazônia chamou a atenção do Papa pela sua beleza e, juntamente, pelo seu sofrimento. E que, a Exortação, que começa como uma carta de amor, recorda que somente aquilo que é amado, pode ser salvo.

*O título da Exortação Pós-Sinodal “Querida Amazonia” segue a grafia do texto original em língua espanhola.

12 fevereiro 2020, 18:34