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Cardeal Czerny: minha família como uma pintura da "Fuga para o Egito"

Em exclusiva ao Vatican News, o subsecretário da Seção Migrantes e Refugiados do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, o cardeal Michael Czerny, conta a experiência da própria família durante a II Guerra Mundial. Cardeal desde 5 de outubro de 2019, como lema escolheu a imagem de um barco com quatro pessoas: reflexo da sua história e do empenho no qual foi chamado.

Em entrevista concedida a Johanna Bronkova e Emanuela Campanile, o cardeal conta que "os meus pais raramente falavam das experiências da sua família do tempo da guerra, por várias razões: as lembranças eram dolorosas; queriam evitar interpretações erradas da história da nossa família; e preferiram concentrar-se em começar uma nova vida no Canadá". No entanto, para esta entrevista, "tenho o gosto de revelar alguns detalhes de interesse sobre a nossa vida no país onde nasci, na altura a Checoslováquia, antes de nos mudarmos para o Canadá em 1948, e sobre a minha avó, que pintou a imagem da “Fuga para o Egito” que agora comemora a minha nomeação como Cardeal".

Qual foi a experiência ou o envolvimento dos seus pais durante a II Guerra Mundial?

Os meus pais moravam na Morávia. A minha mãe, Winifred Hayek Czerny, foi presa e levada para um campo de concentração por um período de vinte meses durante a II Guerra Mundial. Foi também obrigada a fazer trabalhos agrícolas. Embora nascida e criada como católica por pais católicos, os seus avós eram judeus de nascimento, pelo que foi classificada como judia pelas autoridades nazis que governavam o chamado Protetorado da Boémia e da Morávia a partir de março de 1939.

O meu pai, Egon Czerny, também era católico; não tendo ascendência judaica, foi poupado ao campo de concentração; foi levado para o campo de trabalhos forçados em Postoloprty nos últimos oito meses da guerra, devido à sua recusa de se divorciar da minha mãe, enquanto ela estava detida em Terezín.

Por que razão foi presa a sua mãe e levada para um campo de concentração?

As autoridades nazis exigiram que todos os que eles classificavam como judeus lhes entregassem os seus objetos de valor. Foi descoberto que a minha mãe havia retido algumas joias de família. Foi julgada e condenada por roubo ao Estado e cumpriu uma sentença de um ano na prisão feminina em Leipzig.

Como é que a sua mãe lidava com o facto de ser uma sobrevivente do Holocausto?

A minha mãe não se revia nesses termos porque o “Holocausto” é apropriadamente atribuído à comunidade judaica, enquanto ela se identificava como católica. A sua atitude era a de pensar que tinha tido a sorte de sobreviver à loucura assassina de um regime que não tinha nenhuns motivos legítimos para perseguir e executar alguém apenas por causa dos seus antecedentes.

A minha mãe retornou a Terezín em abril de 1995 e, no livro de visitas do museu, escreveu “Eu sobrevivi”. De facto, ela sobreviveu a um mal monstruoso que pegou em seres humanos, cada um deles uma pessoa única, e os tornou anónimos, primeiro reduzindo-os pela força a números e depois, pelo gás e pelo fogo, reduzindo-os a cinzas, a poeira. Na sua arte, a minha mãe reverteu esse mal. Com “poeira” ou argila, esculpiu a semelhança de muitas pessoas vivas, semelhanças que perdurarão durante muito tempo, muito além da duração normal de uma vida, porque, ironicamente, elas foram “queimadas” num forno. A nossa família doou três das suas esculturas de bustos, incluindo uma minha, ao museu de Terezín (ver Terezínské listy 34/2006, pp. 2-3).

Reproduziu uma pintura da “Fuga para o Egito” de autoria da sua avó, Anna Hayek. Por favor, fale-nos dela.

Além de esposa e mãe de três filhos, Anna Löw Hayek era uma desportista talentosa e artista amadora. A sua produção artística que sobreviveu consiste em duas dúzias de aguarelas e páginas de desenhos a lápis, além da pintura em estilo popular da “Fuga para o Egito” em vidro que foi reproduzida para o meu cartão.

Ela nasceu em 1893. Tanto ela como o marido, Hans, eram católicos de nascença, mas foram classificados como judeus devido aos seus antepassados judaicos. Com o marido e os dois filhos, Karl Robert e Georg, foi transportada para o campo de concentração de Terezín em 1942 ou 1943. Morreu em Auschwitz algumas semanas após o fim da guerra; os outros três morreram antes.

Conte-nos então um pouco sobre a mudança da sua família para o Canadá.

Eu nasci em Brno em julho de 1946 e o meu irmão Robert em maio de 1948. Nesse mesmo ano, a nossa família fugiu. O primeiro de muitos desafios foi o de sair, e tivemos de encontrar um lugar para onde ir. Os nossos pais indagaram muito. Ficaram a saber que o Canadá nos deixaria entrar, se pudéssemos encontrar alguém no país que nos apadrinhasse. Primeiro, um parente estava disposto a fazê-lo, mas depois retirou a oferta. Então um empresário disse que sim, poderia contratar o meu pai, mas mudou de ideias quando a sua fábrica pegou fogo.

Por fim, com a nossa família em perigo sempre crescente, um colega de escola dos meus pais apadrinhou-nos. Ele próprio tinha emigrado para o Canadá apenas alguns anos antes com a sua esposa e o filhinho. O risco do apadrinhamento incluía ter de nos sustentar durante um ano se o meu pai não conseguisse encontrar trabalho. Não obstante, essa família ajudou-nos a entrar no país, recebeu-nos em Montreal e guiou-nos através do processo bastante complicado de conhecer uma nova cidade antes de se aprender a falar um novo idioma, como se comportar antes de entender uma cultura diferente, ganhar a vida, até finalmente se atravessarem as barreiras étnicas e fazer amigos... contudo, ainda continuando a viver nas línguas e culturas que trouxemos connosco.

No Canadá, a nossa família morou num bairro de língua francesa durante dois anos e depois mudou-se para outra área de Montreal e, por fim, em 1953, para o subúrbio de língua inglesa de Pointe Claire (na época conhecido como Lakeside). Então, já falando checo, aprendi a seguir o francês e depois o inglês, que agora é a minha “primeira” língua.

Teve mais tarde algum contacto com a Checoslováquia ou a República Checa?

Já adulto, voltei à Checoslováquia de meados de outubro de 1987 a meados de janeiro de 1988. Queria explorar a terra onde tinha nascido e ter alguma experiência em primeira mão da vida sob o comunismo. Em Brno, encontrei-me várias vezes com o provincial jesuíta P. Jan Pavlik, que morava na casa da mãe dele e tinha lá o seu “escritório”. Em Praga, visitei muitas vezes o P. Karel Dománek, que morava muito discretamente no prédio onde tinha trabalhado durante muitos anos como porteiro. Também visitei o P. František Lízna em Velké Opatovice e concelebrámos a Eucaristia no pequeno altar em casa da mãe dele.

Voltei durante algumas semanas em abril de 1989, tendo visitado o P. Pavlik e o provincial eslovaco P. Andrej Osvald em Važec, onde ele era pároco e também servia pastoralmente a população de etnia cigana.

Em todos esses encontros, fiquei impressionado com a coragem e a fé daqueles que mantiveram acesa a chama da fé cristã e o santuário da vida da Igreja aberto ao longo dos anos do Comunismo.

Ninguém imaginava que uma tão grande mudança estava para acontecer passados apenas alguns meses! Desde então, estive na República Checa e na Eslováquia para reuniões do Apostolado Social Jesuíta na Europa Central/Oriental, uma na residência jesuíta do Kostel svatého Ignáce em Praga, em janeiro de 1996, e outra na Exercičný dom sv. Ignáca em Prešov, em novembro de 1998.

Explique, por favor, o seu brasão como cardeal.

Desde janeiro de 2017, sou um dos dois Subsecretários da Secção para os Migrantes e Refugiados do Vaticano. Para refletir esse ministério, bem como a minha própria experiência de vida, o meu brasão de armas mostra um barco que leva uma família de quatro pessoas – os refugiados e outras pessoas “em movimento” costumam muitas vezes deslocar-se de barco. De facto, a nossa família de quatro pessoas veio de barco para o Canadá em 1948, pelo que a água debaixo do barco me recorda o Oceano Atlântico. O barco é também uma imagem tradicional da Igreja como a Barca de Pedro, a qual tem um mandato de Nosso Senhor de “Acolher o estrangeiro” (Mateus 25, 35), independentemente de onde a própria Igreja se encontrar. Além disso, tal como o símbolo do movimento L´Arche, o barco é um lembrete das obras de misericórdia para com todos os que são excluídos, esquecidos ou desfavorecidos. Os raios de sol dourados por cima do barco correspondem ao selo da Companhia de Jesus, os jesuítas. E o fundo verde é um lembrete da encíclica Laudato si’ do Papa Francisco, que nos convida a todos a cuidar do bem-estar da Criação, a nossa casa comum.

O lema do cardeal Czerny
O lema do cardeal Czerny

E o seu lema?

O meu lema é “Suscipe”, a primeira palavra e o título da oração que Santo Inácio coloca na contemplação final dos Exercícios Espirituais, a saber, a Contemplação para Alcançar o Amor de Deus. Assim, com esta única palavra “Suscipe”, pretendo evocar toda a oração de entrega pessoal e total a Deus como a espiritualidade de ser Cardeal. Na sua carta aos novos Cardeais de outubro de 2019, o Papa explicou o que isso realmente significa: “A Igreja pede de vós uma nova forma de serviço... um apelo a um maior autossacrifício e um testemunho consistente de vida”. E as vestes escarlate representam o derramamento de sangue - usque ad effusionem sanguinis - em total lealdade e fidelidade a Cristo.

A sua cruz peitoral é feita de madeira. Pode falar-nos disso?

A minha cruz peitoral foi feita pelo artista italiano Domenico Pellegrino. Ele empregou madeira dos restos de um barco usado por migrantes para atravessar o Mediterrâneo a partir do Norte de África, na tentativa de chegar à ilha italiana de Lampedusa.

O material sugere a madeira da cruz na qual Jesus foi crucificado, o Filho de Deus, “para tirar os pecados do mundo”. O cravo original lembra-nos claramente que Jesus foi pregado na cruz; o brasão jesuíta inclui os três cravos tradicionais. A madeira pobre sugere o voto jesuíta de pobreza e o desejo de uma Igreja humilde e comprometida. A origem da madeira reflete a fuga da minha família para a segurança quando eu era muito pequeno, bem como as minhas responsabilidades atuais na Secção Migrantes e Refugiados.

As rachaduras na tinta vermelha e na madeira lembram as feridas, o sofrimento, o sangue derramado na Crucificação e quando o mundo esquece a compaixão e a justiça, enquanto a cor mais clara na parte superior sugere a Ressurreição de nosso Senhor e Salvador e a plenitude da vida que Ele veio trazer.

Por fim, poderia por favor ler-nos a expressão que citou no seu cartão da ordenação e do cardinalato?

Com gosto. Vem dos Dialogues des Carmélites de George Bernanos.

Une seule chose importe, c’est que, braves ou lâches, nous nous trouvions toujours là où Dieu nous veut, nous fiant à Lui pour le reste.

Só uma coisa importa, quer sejamos corajosos ou cobardes: estar sempre lá, onde Deus nos quer, e quanto ao resto confiar em Deus.

15 fevereiro 2020, 07:55