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As duas pobrezas

O Papa Francisco nesta semana tocou em duas ocasiões o tema da pobreza, do pobre, e no mesmo dia; quarta-feira. Pobre de espírito e pobre materialmente. Primeiramente na audiência geral na Sala Paulo VI e depois na parte da tarde na Casina Pio IV, falando a economistas e banqueiros.

Silvonei José - Cidade do Vaticano

Pobreza de espírito

"Um estranho objeto de bem-aventurança", a pobreza de espírito, esteve no centro da catequese do Papa Francisco dedicada, novamente esta semana, à primeira das oito bem-aventuranças do Evangelho de Mateus. Ser pobre de espírito, disse o Papa, é inerente à nossa condição humana, significa reconhecer-nos como mendigos porque aceitamos os nossos limites e só assim nos tornamos capazes de perdoar. Significa então garantir o Reino de Deus não porque se tem um poder feito de prestígio e bens, que depois passa e acaba, mas porque se ama o verdadeiro bem mais do que a si mesmo. É o dar a vida de Cristo pelos homens e "nisto - assinala o Papa - reside a verdadeira liberdade". Porque existe uma pobreza que devemos aceitar, a do nosso ser, e uma pobreza que, em vez disso, devemos procurar, a pobreza concreta, das coisas deste mundo, para sermos livres e capazes de amar. Buscar sempre a liberdade do coração, aquela que tem suas raízes na pobreza de nós mesmos.

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A pergunta da qual a reflexão do Papa toma forma diz respeito ao que se entende por "pobres". Ele enfatiza que não é apenas uma referência à privação material, mas que há muito mais porque coloca em jogo a parte mais profunda do nosso ser. O espírito, segundo a Bíblia,  - disse Francisco - é o sopro de vida que Deus comunicou a Adão; é a nossa dimensão mais íntima, digamos, a dimensão espiritual, a mais íntima, a que nos torna humanos, o núcleo mais profundo do nosso ser. Então os "pobres de espírito" são aqueles que são e se sentem pobres, mendigos, no íntimo do seu ser. Jesus os proclama bem-aventurados, porque o Reino dos Céus pertence a eles.

Morador da rua
Morador da rua

“Ser algo, ser alguém", a vida de hoje está nestes caminhos que, explica Francisco, traz solidão e infelicidade porque significa competir com os outros e viver na preocupação obsessiva do ego, significa permanecer sempre "radicalmente incompleto e vulnerável". "Se eu não aceito ser pobre - continua o Papa - odeio tudo o que me recorda a minha fragilidade". Não há nenhum truque para cobrir esta vulnerabilidade".

"O Reino de Deus - afirma Francisco - é dos pobres em espírito", não um reino feito de bens e comodidades destinadas ao fim, mas construído sobre os tijolos do bem, o resto passa e depois da morte as coisas materiais não têm mais nenhum valor.

Pobreza material

E na tarde de quarta-feira Francisco encontrou-se com banqueiros, economistas e ministros das finanças reunidos no Vaticano pela Pontifícia Academia das Ciências Sociais para falar sobre "Novas formas de fraternidade solidária, inclusão, integração e inovação". Precisamos, disse o Papa, de uma "nova arquitetura financeira internacional" que apoie o desenvolvimento dos países pobres. "Não estamos condenados" à desigualdade social ou à "paralisia diante da injustiça": "um mundo rico e uma economia vibrante podem e devem pôr fim à pobreza", "gerar respostas criativas" para incluir e alimentar os últimos, "em vez de excluí-los". Criar uma "nova arquitetura financeira internacional" que apoie o desenvolvimento dos países pobres, aliviando a sua dívida, sem paraísos fiscais, evasão e lavagem de dinheiro "que roubam a sociedade", com governos que defendem a justiça e o bem comum "contra os interesses das corporações e multinacionais mais poderosas".

Dinheiro
Dinheiro

O Papa quer envolve os homens da economia e da finança em um trabalho comum para pôr fim às "injustiças da nossa atual economia global". Francisco recordou um dado de fato. "O mundo é rico e mesmo assim os pobres estão aumentando ao nossa redor”. Segundo relatórios oficiais, este ano a renda mundial será de quase 12 mil dólares per capita. No entanto, centenas de milhões de pessoas ainda vivem em extrema pobreza, sem comida, abrigo, cuidados de saúde, escolas, eletricidade, água potável e saneamento adequado e indispensável, sublinhou Francisco.

Estima-se, disse o Pontífice, "que este ano cerca de cinco milhões de crianças menores de cinco anos morrerão por causa da pobreza". Todos somos responsáveis, denuncia novamente o Pontífice, por termos permitido que o abismo entre pobreza extrema e riqueza (por sua vez extrema) "se alargasse para se tornar o maior da história". As cinquenta pessoas mais ricas do mundo têm um patrimônio exorbitante. Só estas cinquenta pessoas poderiam financiar os cuidados de saúde e educação de todas as crianças pobres do mundo. “Estas cinquenta pessoas poderiam salvar milhões de vidas todos os anos."

Muito lhe será pedido

A globalização da indiferença, recorda Francisco, tem sido chamada de "inação". São João Paulo II chamou-a "estruturas de pecado". Estruturas que, para o Papa, "encontram um clima favorável à sua expansão cada vez que o bem comum é reduzido ou limitado a certos setores" ou quando "a economia e a finança se tornam um fim em si mesmas", por "idolatria do dinheiro", "ganância" e "especulação".

O Pontífice conclui citando as palavras de São Lucas: "A quem muito foi dado, muito lhe será pedido " e as de Santo Ambrósio: "Você, rico, não dá do que é seu ao pobre quando você faz caridade... mas está dando-lhe o que é dele. Porque a propriedade comum dada em uso para todos, só vocês a está usando". Este é o princípio do destino universal dos bens, a base da justiça econômica e social, assim como o bem comum.

08 fevereiro 2020, 08:00