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A ajuda do Papa chega a todos, sem distinção A ajuda do Papa chega a todos, sem distinção  Editorial

A lógica do Evangelho

A Esmolaria do Papa em 2018 destinou cerca de 3,5 milhões de euros para aqueles que não podiam pagar aluguel, eletricidade e gás, medicamentos e necessidades básicas.

Silvonei José – Cidade do Vaticano

Um gesto não muito tradicional chamou a atenção da imprensa italiana e internacional nos dias passados, realizado por um cardeal da Igreja Católica: depois de levar a solidariedade do Papa Francisco aos migrantes que vivem nos campos da Ilha de Lesbos, na Grécia, o Esmoleiro Apostólico, cardeal Konrad Krajewski, informado sobre a gravidade da situação em que se encontravam mais de 400 pessoas, dentre as quais várias crianças, num edifício romano, decidiu agir.

Do que se tratou: o prédio, ocupado por pessoas carentes, estava sem energia elétrica e água quente há vários dias. A empresa que fornece eletricidade tinha cortado a energia, porque as pessoas não pagavam as contas de luz. O purpurado sentiu o dever de cumprir um gesto humanitário e reativou pessoalmente a energia elétrica ao edifício. O Esmoleiro do Papa fez este gesto consciente das possíveis consequências, na convicção de que era necessário fazê-lo para o bem dessas famílias.

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“Eu intervim pessoalmente”, disse o cardeal Krajewski à agência de notícias ANSA, “para ligar novamente os contadores de energia. Foi um gesto desesperado. Havia mais de 400 pessoas sem eletricidade, com famílias e crianças, sem a possibilidade de fazer funcionar as geladeiras”. Numa entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, o purpurado disse que já sabia das dificuldades das pessoas que vivem naquele edifício. “Estamos falando de vidas humanas”, sublinhou.

“A coisa absurda é que estamos no centro de Roma. Quase quinhentas pessoas abandonadas. São famílias que não têm para onde ir, pessoas que lutam para sobreviver”, disse o cardeal ao jornal italiano. O Esmoleiro Apostólico reiterou que assume toda responsabilidade: “Se chegar alguma multa, pagarei, disse”.

A Esmolaria do Papa em 2018, destinou cerca de 3,5 milhões de euros para aqueles que não podiam pagar aluguel, eletricidade e gás, medicamentos e necessidades básicas. Uma cifra pouco superior a de 2017. "A ajuda chega a todos, sem distinção: muitos são italianos e romanos", disse o cardeal ao Vatican News.

Normalmente são os párocos a escrever ao Esmoleiro: eles indicam quem está realmente precisando. O Esmoleiro envia ao pároco um cheque que depois dá a contribuição a quem está necessitado, acompanhado de um bilhete: "Presente do Santo Padre".

Desde quando o Papa Francisco o nomeou esmoleiro de Sua Santidade no dia 3 de agosto 2013, elevando-o imediatamente à dignidade de arcebispo e, em seguida o criou cardeal no Consistório há menos de um ano, a vida quotidiana de Dom Konrad Krajewski é feita de saídas contínuas com o seu Fiat, juntamente com uma pequena equipe de confiança para levar bens de conforto, refeições, cobertores, sacos de dormir, guarda-chuvas e tudo o que possa ser de ajuda aos sem-abrigo de Roma, nas estações, nas praças e ruas do centro e das periferias.

Uma atividade caritativa contínua, incansável, a do cardeal nascido em 1963 em Lodz, Polônia - atualmente é o segundo mais jovem cardeal do Colégio cardinalício -, para todos "padre Corrado", que faz bom uso de cada centavo de euro proveniente dos pergaminhos com as bênçãos papais, produzidos pela Esmolaria Apostólica.

Ao ser nomeado, "padre Corrado" recebeu do Papa a indicação para não ficar "atrás da escrivaninha", mas sim para sair às ruas de Roma ou onde fosse necessário. Por isso, também as suas visitas às áreas de terremoto. Ou.., como poucos dias atrás, a ilha grega de Lesbos, em visita ao campo de refugiados de Moria para levar a concreta solidariedade do Papa com 100.000 dólares em ajuda.

O Papa Francisco citou o “Padre Corrado” no seu discurso proferido à diocese de Roma, na semana passada em São João de Latrão. "Eu convido vocês a visitarem a Esmolaria Apostólica: ali, o cardeal Krajewski, que é um pouco “travesso”, colocou uma fotografia que um jovem fotógrafo de Roma tirou, artista, disse: é a saída de um restaurante, no inverno. Uma mulher de uma certa idade, quase idosa, com um casaco de pele, chapéu, luvas, elegante a senhora. Só de olhar dá para sentir o cheiro do perfume francês, tudo perfeito... e aos pés da porta, no chão, outra mulher, vestida de trapos, que estende a mão; e aquela senhora elegante olha para o outro lado. Aquela fotografia se chama indiferença. Vão vê-la", disse.

O cardeal Konrad Krajewski é considerado "o braço da caridade do Papa". Sua principal tarefa - diz - é "esvaziar a conta do Santo Padre para os pobres, segundo a lógica do Evangelho".

18 maio 2019, 08:00