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Padre Spadaro: Francisco indica o caminho da diplomacia multilateral

O discurso denso do Papa ao Corpo Diplomático nessa segunda-feira (07/01) envolveu diferentes países, temas e contextos. Em entrevista, o diretor da revista italiana "La Civiltà Cattolica", padre Antonio Spadaro, explica como o Papa indica o caminho da diplomacia multilateral de forma pujante, sem se esquecer de mencionar a tensão entre globalismo e localismo.

Cidade do Vaticano

O discurso do Papa Francisco ao Corpo Diplomático vem com um forte apelo à comunidade internacional para que as questões sejam tratadas de maneira multilateral, para que as nações voltem a colaborar na solução dos desafios globais. É o que destaca o diretor da revista italiana "La Civiltà Cattolica", Padre Antonio Spadaro:

R. - A diplomacia multilateral é um ponto central no discurso do Papa ao Corpo Diplomático, ele fala sobre isso no começo e no fim. O problema nos nossos dias é justamente o fato de que as nações tendem a resolver as questões individualmente. Com o surgimento dos nacionalismos, a tentação é propor soluções unilaterais. O Papa também afirma que há questões que devem ser resolvidas, como a tensão entre globalismo e localismo. Às vezes, há pouco respeito pelas situações locais e, portanto, os povos não se sentem ouvidos.

Segundo Antonio Spadaro, um ponto importante no discurso do Papa é certamente aquele em que ele lembra o flagelo do abuso físico e psicológico das mulheres:

R. - É interessante porque no discurso de Francisco há referência às mulheres três vezes, em três lugares diferentes. O Papa apontou o dedo para três situações e problemas muito específicos: a situação do abuso físico e psicológico das mulheres, em seguida a necessidade de descobrir formas de relações justas e equilibradas, baseadas no respeito mútuo e reconhecimento entre homens e mulheres, e o terceiro aspecto é a importância de que as violações dos direitos humanos cessem, o que causa sofrimento especialmente para as mulheres que estão frequentemente em situação de fraqueza. Nesse sentido, o Papa quis recordar o papel das mulheres na sociedade, colocando três grandes questões problemáticas que devem ser abordadas e sobre as quais é preciso maior conscientização.

Em seguida, o Papa se concentrou, como todos os anos, no drama das guerras, como destacou Spadaro.

R. - Fiquei impressionado quando o Papa falou que a política constrói a história, uma frase que de alguma forma mostra a vocação da política e articula os pontos de contato entre o trabalho das Nações Unidas e o da Santa Sé. Francisco também fala da defesa dos fracos, da construção de pontes entre os povos e do repensar o destino comum. Dentro desses três pontos, o Papa falou sobre o mundo, ele quase reconstruiu o Atlas, fez uma lista de países onde há sérios problemas, que devem ser enfrentados, e abriu as janelas de algumas situações, como o acordo histórico entre a Etiópia e a Eritreia. Ele quis, de alguma forma, indicar as situações que precisam ser enfrentadas com maior coragem e, ao mesmo tempo, mostrar como, quando há coragem, soluções podem ser encontradas. Em seu discurso, Francisco tocou vários pontos muito quentes, pelo menos três. Ele se referiu à situação dos migrantes e refugiados, mas olhando para essa situação de um ponto de vista verdadeiramente global. Outro ponto muito importante que está sempre na pauta é o dos abusos. O Papa lembrou o trigésimo aniversário da adoção da Convenção sobre os Direitos da Criança e reiterou que deve ser dada atenção a isso. Um terceiro ponto importante é o relacionamento com o planeta. Ele está ciente dos riscos do aquecimento global, que não são apenas riscos ecológicos, mas sociais. Isso porque a deterioração das condições climáticas leva muitas pessoas a emigrar. Para Francisco, a dimensão ecológica está profundamente ligada à dimensão social.

09 janeiro 2019, 11:41