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Bangladesh: encontro com consagrados Bangladesh: encontro com consagrados  (AFP or licensors)

Papa aos consagrados bengaleses: servir a Deus com alegria

Deixando de lado o discurso preparado de 8 páginas, o Papa falou informalmente em espanhol aos consagrados bengaleses.

Jackson Erpen - Daca

Momentos de grande alegria e entusiasmo no final da manhã deste sábado no encontro do Papa Francisco com a vida consagrada de Bangladesh, na Catedral de Chitagong, intitulada ao Santo Rosário. Distante pouco mais de 10 km da Nunciatura Apostólica, a Igreja acolheu cerca de 2 mil sacerdotes, religiosos e religiosas, seminaristas e noviças. Também presentes irmãs de clausura, liberadas nestas ocasiões para sair dos conventos.

Deixando de lado o discurso preparado de 8 páginas, o Papa falou informalmente em espanhol aos consagrados bengaleses.

Discurso espontâneo

“Queridos irmãos e irmãs,

Obrigado ao Arcebispo Costa pela sua introdução e obrigado pelos pronunciamentos de vocês. Eu havia preparado um discurso de oito páginas para vocês (risos e aplausos), mas nós estamos aqui para ouvir o Papa e não para nos chatearmos. Por isto, para não nos chatearmos, entregarei o discurso ao Cardeal que depois fará uma tradução para o bengali, enquanto eu direi algumas palavras que me vem no coração (aplausos). Não sei se será melhor ou pior, porém, estejam certos de que será menos chato.

Ao entrar e saudar vocês me veio em mente uma imagem, do Profeta Isaías, e precisamente a primeira leitura que teremos na próxima terça-feira: “Naqueles dias, da casa de Israel, nascerá um pequeno rebento, crescerá e crescerá, e com o Espírito de Deus, gerará o espírito da sabedoria, de inteligência, da ciência, do conhecimento...”. Em um certo sentido, Isaías aqui descreve os aspectos pequenos e grandes da vida de fé, da vida a serviço de Deus. E falando de vida de fé e de serviço a Deus, me dirijo a você, que são homens e mulheres de fé no testemunho a Deus.

É Deus que faz a planta crescer

Iniciamos pela planta.  O broto surge na terra, e é uma semente. A semente não é nem tua, nem minha: a semente é semeada por Deus. E é Deus que a faz crescer. Eu sou o broto: isto pode ser dito por cada um de vocês, mas não por mérito próprio; porque dissemos isto do diálogo inter-religioso: faremos o contrário dentro da nossa própria confissão católica, das nossas comunidades?

Também neste âmbito, Bangladesh deve ser exemplo de harmonia! São muitos os inimigos da harmonia, são muitos. Gosto de citar um, que para mim é fundamental O inimigo da harmonia em uma comunidade religiosa, em um presbitério, em um episcopado, em um seminário é o espírito de fofoca (risos e aplausos). E isto não foi inventado por mim: há dois mil anos disse um tal Tiago em uma de suas Cartas. A língua irmãos e irmãs. O que destrói uma comunidade é o falar mal de outra pessoa.

Fofocar é criar divisões

O enfatizar os defeitos dos outros, mas não dizê-lo às pessoas interessadas, mas falar delas nas costas e assim criar um ambiente de desconfiança, um ambiente de suspeita, um ambiente onde não existe a paz, mas reina a divisão.

É feia esta imagem que me vem, por este espírito de fofoca: é terrorismo. Terrorismo (risos e aplausos). Porque quem fala mal do outro, não o faz publicamente; o terrorista não diz publicamente: “Sou terrorista”. E quem fala mal do outro, o faz escondido: fala com alguém, atira a bomba e vai embora. E aquela bomba destrói. E ele vai embora tranquilamente, lança uma outra bomba, e assim por diante...

Queridos irmãos e irmãs, quanto vocês tiverem vontade de falar mal de uma pessoa, mordam a língua: o pior que pode acontecer é fazer mal a vocês, mas não fará mal a outro irmão ou irmã.

O espírito de divisão: quantas vezes nas Cartas de São Paulo lemos sobre sua dor quando na Igreja entrava este espírito de divisão. Vocês poderiam me perguntar: “Padre, mas se eu encontro um defeito em um irmão ou uma irmã e gostaria de corrigi-lo, gostaria de apontá-lo, mas não posso atirar a bomba, o que posso fazer?”.

Você pode fazer duas coisas (...) A primeira, se pode – mas nem sempre é possível – é falar diretamente à pessoa, face a face. Jesus nos dá este conselho. É verdade que alguém poderia dizer: “Não se pode fazer, Padre, porque é uma pessoa complicada, como também você: não se pode fazer”. Está bem: pode ser que por uma forma de prudência não seja oportuno. Mas o segundo princípio, portanto, é: se você não pode dizer à pessoa, diga a quem poderia remediar, mas a ninguém mais.

Quantas comunidades – e não falo daquilo que “ouvi”, falo daquilo que “vi”: quantas comunidades vi serem destruídas por causa do espírito de fofoca! Por favor, mordam a língua! (aplausos)

Manter espírito de alegria

O terceiro pensamento que gostaria de partilhar – ao menos vocês não estão se chateando...depois vocês terão o texto chato (risos ) é: procurem manter um espírito de alegria. Sem alegria não se pode servir a Deus. Eu peço a cada um de vocês – mas cada um responda em seu coração: “Como está a sua alegria?”.

Asseguro a vocês que é realmente triste quando encontro sacerdotes, consagrados, consagradas, seminaristas, bispos amargurados, com um rosto triste, que alguém tem o desejo de perguntar: “O que você tomou hoje no café da manhã? Vinagre?” (risos) Cara de vinagre. Esta amargura no coração, que nasce da erva má, e diz: “Oh, veja aquele, foi promovido à Superior, aquela à Superiora, aquele à Bispo, e quanto a mim, me deixaram de lado...”.

Nisto, não existe alegria. Santa Teresa – a Grande – Santa Teresa tem – e é quase uma maldição, uma frase que é quase uma maldição, e ela diz isso às suas monjas: “Ai daquela monja que diz: ‘Sofri uma injustiça’”. Usa a expressão em espanhol “sin razón”, sem razão (...)”. Quando encontrava uma religiosa que se lamentava porque “não me deram aquilo que deveriam dar, (...) não me promoveram à Priora” ou algo do gênero, ai daquela monja: está uma estrada em descida...

A alegria. A alegria também nos momentos difíceis. É aquela alegria que, se não faz você rir porque a dor é muito grande, também é paz. Mas por outro lado me vem em mente uma cena da vida da pequena Tereza, Terezinha do Menino Jesus.

Devia acompanhar todas as noites uma monja idosa ao refeitório; esta irmã era realmente insuportável, sempre irritada e, pobrezinha, muito doente e reclamava de tudo. Em qualquer lugar que a tocassem dizia: “Não, que me faz mal!”. E era esta irmã idosa que Terezinha tinha que levar ao refeitório.

Uma noite, enquanto a acompanhava atravessando o convento, escutou – de um prédio vizinho – a música de uma festa, a música de pessoas que estavam se divertindo, de pessoas boas, como havia mostrado às suas irmãs. Imaginou as pessoas que dançavam e disse: “A minha grande alegria é esta. Agora. Não lá, mas aqui e agora, com esta irmã idosa”.

A alegria do coração

Nos momentos difíceis vividos nas comunidades, tolerar às vezes uma Superiora “um pouco estranha”, e nestes momentos dizer: “Sou feliz, Senhor. Sou feliz”, como dizia São Alberto Hurtado: a alegria do coração.

Estejam certos que me causa tanta ternura quando encontro sacerdotes, bispos ou religiosas idosas que viveram a vida em plenitude. Os seus olhos são indescritíveis, tão cheios de alegria e paz. Para aqueles que não viveram a sua vida deste modo, Deus é bom e se preocupa também por eles; mas falta aquela vibração do coração que vem quando você foi alegre em sua vida.

Procurem olhar – sobretudo as mulheres – olhar nos olhos das irmãs idosas, aquelas irmãs que passaram toda a vida servindo, com tanta alegria e paz: têm o olhar agudo, desperto, brilhante, cheio de vida. Porque têm a plenitude do Espírito Santo.

O pequeno broto, nestes idosos, nestas idosas, entrou na plenitude dos sete dons do Espírito Santo. Recordem-se disto, na próxima terça-feira, quando vocês ouvirem a Leitura, a Missa e perguntem-se: “Estou cuidando da minha plantinha? A rego? Cuido também das plantinhas dos outros, rego também elas? Tenho medo de ser terrorista e por isto nunca falarei mal dos outros? E: tenho o dom da alegria?

Desejo a todos vocês, como o bom vinho, no final de vossos dias, que os vossos olhos brilhem de esperteza, de alegria e de plenitude do Espírito Santo. Por favor, rezem por mim como eu rezarei por vocês”.

 

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Papa Francisco encontra a vida consagrada bengalesa na Igreja Santo Rosário
02 dezembro 2017, 14:40