· Cidade do Vaticano ·

Lista interminável de perguntas

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«Onde mora a luz?» de Teresa Bartolomei

30 dezembro 2019

Recentemente foi publicado pela editora Vita e Pensiero o livro de Teresa Bartolomei Dove abita la luce? Figure in cammino sulla strada della Parola (Milão, 2019, 151 páginas) no qual a autora encontra duas figuras entre as mais famosas da Bíblia, Noé e Judas, fazendo com que o leitor redescubra quanto os dois personagens muito populares da Escritura ainda têm para nos dizer. Publicamos o prefácio do cardeal e teólogo português, desde 1 de setembro de 2018 arquivista e bibliotecário da Santa Igreja Romana.

Alguns amigos falaram-me desta italiana que vive há anos em Lisboa, dizendo-me que eu tinha absolutamente que a conhecer. Porque era uma mulher muito culta. Porque falava da Bíblia com novidade e franqueza. Porque se dedicava com paixão a estudos de cultura e teoria da literatura. Porque era uma católica comprometida. Porque era uma voz diversa... Insistindo continuamente.

Normalmente os portugueses não são propensos a julgar as pessoas. Exceto em aspetos irrelevantes, eles preferem não dar opinião, exibindo uma neutralidade correta que muitas vezes se aproxima da monotonia. Por isso aquele coro superlativo sobre uma mulher desconhecida suscitava em mim mais curiosidade. A verdade, em todo caso, é que, por uma razão ou por outra, os nossos caminhos não se cruzaram depressa e demorei algum tempo para chegar finalmente a Teresa Bartolomei.

O nosso primeiro encontro teve lugar numa situação que eu nem sequer poderia ter previsto. Tendo sido convidado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para fazer parte do júri de alguns exames de doutoramento, recebi pelo correio um volume de 450 páginas intitulado Figura Huius Mundi. Figuras líricas da temporalidade na poesia de Emily Dickinson. Era a tese de doutoramento de Teresa Bartolomei.

Estabelecendo ler a obra da poetisa americana numa chave figurativa, ela começou contudo com uma meticulosa reconstrução da categoria de “figura” nos textos e na teologia de São Paulo, mostrando o papel tão hermeneuticamente central desta categoria na construção do Ocidente cristão, e a razão pela qual a contemporaneidade teria vantagem em a redescobrir. Ao contrário da noção de forma (morphê) já amplamente tratada, entendida como abstração conceitual ou precetual, Teresa Bartolomei via nos termos paulinos de skhêma (que indica a passagem no tempo que resta) e de typos (que, ao contrário, designa o permanecer no tempo que passa) um modo mais qualificado de expressar a complexidade da experiência que fazemos do tempo.

Entendi então a razão de convidar um biblista como eu para fazer parte do júri de uma tese em Teoria da literatura. De facto, um caráter distintivo de Teresa Bartolomei era a recusa em aceitar o crepúsculo da teologia ou a sua desativação como ciência interpretativa do mundo. Ela insistia, por exemplo, na Bíblia como “grande código” da cultura, mas não apenas para registar o movimento ininterrupto de citação do texto bíblico que a produção cultural moderna tem praticado, com maior ou menor oportunismo, como se a Bíblia fosse reduzida a um excêntrico parque arqueológico de personagens e aforismos. A Bíblia é um “grande código” porque as suas principais categorias hermenêuticas permanecem ativas. Há muitos, hoje, que estudam a Bíblia e falam sobre ela; não há muitos, porém, que estejam convencidos do que Teresa Bartolomei reivindica. Ou não estão tão convencidos disso como ela, com a sua erudição e inteligência, com o seu radicalismo e a sua incomum rendição à paixão de pensar.

Lembro-me que lia a tese e me perguntava repetidamente: «Quem é ela?». E talvez o leitor deste volume que a editora «Vita e Pensiero» publica no momento certo, me compreenda, porque provavelmente está a fazer a mesma pergunta. O facto é que, geralmente, uma tese de doutorado ou um livro de estreia são um momento seminal, a ser amadurecido posteriormente nos passos que o seguirão. Com Teresa Bartolomei tive a impressão (uma impressão que o leitor, com toda a probabilidade, partilhará) de que estava diante de uma pensadora no ápice do seu potencial. É uma estranheza que tem uma dupla explicação. A primeira é que, na verdade, Teresa Bartolomei já percorreu um importante caminho intelectual. É essencial perceber isto para compreender a verdadeira natureza destes escritos.

Em 1983 a autora discutiu a sua tese de Filosofia da linguagem na Universidade La Sapienza de Roma, sob a direção de Tullio De Mauro. A tese tinha um título longo e um pouco complexo — Dalla deduzione soggettiva della sintesi trascendentale dell’appercezione al principio della comunicazione: riflessioni kantiane — [Da dedução subjetiva da síntese transcendental da aperceção ao princípio da comunicação: reflexões kantianas — mas correspondente ao seu perfil rigoroso, com uma posição ética pronta a rejeitar qualquer forma de escapismo. Aquele ensaio académico abriu-lhe a porta para uma atividade de estudo e pesquisa no Instituto Filosófico da Universidade Goethe em Frankfurt, sob a direção de Karl-Otto Apel, entre 1985 e 1989. Colaborou também com o Instituto de Estudos Filosóficos de Nápoles e com a Fundação «Comunità di Ricerca» em Gallarate. Regressou à universidade em 2013, desta vez em Portugal, onde reside agora, onde concluiu o doutoramento em Teoria da literatura depois de ter trabalhado com um dos principais professores universitários do país, António Feijó.

Atualmente é docente e pesquisadora na Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lisboa, e trabalha num projeto de pós-doutoramento na área da teoria da literatura. Além disso, é muito ligada à comunidade católica da igreja dos italianos, que está localizada no pitoresco bairro do Chiado em Lisboa.

Publicou ensaios sobre ética, hermenêutica e literatura, bem como ficção curta, em revistas italianas, francesas e portuguesas («Il Cannocchiale», «Fenomenologia e Società», «Reset», «Conférence», «Nova Renascença») e na Alemanha para a Campus Verlag. Colabora regularmente com o blog Landino, que reúne nomes ligados à experiência na Fuci (Federação das universidades católicas italianas) entre os anos 70 e 90. Em 2018 publicou Radix, Matrix. Community belonging and the ecclesial form of universalistic communitarism, um ensaio que teria merecido mais difusão e debate. Mas o futuro terá algo a dizer sobre isto.

A segunda razão da estranheza da qual falámos, e que talvez também o leitor sentirá em contato com este texto, é explicada (ou está encerrada), desde o início, no versículo do capítulo 38 do livro de Job que a autora escolheu como título. A pergunta «Onde mora a luz?» aparece dentro de uma lista interminável de perguntas que Deus faz a Job e que funcionam retoricamente como uma espécie de demonstração da ignorância do homem que insiste, ao afirmar as suas razões, contra o enigma da existência. «Onde mora a luz?» parece ser uma daquelas perguntas que servem sobretudo para ilustrar a impossibilidade de uma resposta. E no entanto, precisamente em relação a esta questão, Deus acrescenta: Sciebas tunc quod nasciturus esses et numerum dierum tuorum noveras? (Job 38, 21). Como entender este comentário? Podemos certamente lê-lo em chave irónica, e então o propósito de Deus seria dissuadir o homem de identificar a direção da luz. Mas podemos lê-lo como um desafio de Deus ao homem para que não desista de buscar, porque Deus o preparou para isso: «Deverias sabê-lo, pois já tinhas nascido e era já grande o número dos teus dias!».

É para este segundo significado que Teresa Bartolomei aponta. O subtítulo, Figure in cammino sulla strada della Parola [Figuras a caminho na estrada da Palavra], não poderia ser, nesta linha, mais esclarecedor. As figuras bíblicas que escolhe incorporam o oposto: o crepúsculo da história, a impossibilidade de uma saída, o colapso da esperança e o trágico desespero da vida que sucumbe. No entanto, Teresa Bartolomei faz delas «figuras a caminho». É uma obra de inversão, de conversão do olhar. Creio que poucas coisas, nos tempos que correm, sejam tão necessárias. Por esta razão, conhecer Teresa Bartolomei é um dever.

José Tolentino Mendonça