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Gaël Giraud, o economista “Laudato si’”

O grito da terra e o grito dos pobres se unem e nos desafiam. É o que destaca a Encíclica do Papa Francisco Laudato si', publicada em 2015. Uma denúncia que Gaël Giraud já tinha ouvido forte no Chade há 20 anos. Jesuíta e economista, Giraud há anos reflete sobre os vínculos entre economia, finanças e ecologia, a fim de construir um modelo econômico que respeite a pessoa e preserve o meio ambiente das consequências do aquecimento global.

Xavier Sartre – Vatican News

Sarh é a terceira maior cidade do Chade, no sul do país, às margens do rio Chari. Foi nessa cidade, que hoje tem uma população de 100 mil habitantes, que Gaël Giraud chegou há 25 anos para cumprir dois anos de serviço público. Ele ensina matemática e física no colégio jesuíta Saint-Charles-Lwanga. Para esse jovem com uma brilhante carreira universitária, que vai se tornar um pesquisador no CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), o templo da pesquisa científica francesa, essa experiência foi tanto um choque quanto uma revelação.

O jesuíta Gaël Giraud
O jesuíta Gaël Giraud

"Lá eu vi materialmente, mesmo naquela época, tanto a escassez de água em uma área que ainda era savana, quanto o avanço muito rápido da desertificação", diz o economista jesuíta. "Isso me fez perceber – a um parisiense que veio da elite universitária francesa -, tocando com as minhas próprias mãos, que a questão da desertificação, do aquecimento global, da escassez de água, da erosão do solo, da biodiversidade era algo extremamente tangível".

As crianças de rua, ou o grito dos pobres

A estadia de dois anos em uma cidade onde não havia nem mesmo eletricidade colocou Giraud frente a frente com uma outra realidade, uma realidade humana desta vez: as crianças de rua. Ele passou o primeiro ano como voluntário no colégio jesuíta em Sahr, mas depois decidiu passar o segundo entre as pessoas da região, nas condições materiais dos pobres.

Gaël Giraud com as crianças de Balimba
Gaël Giraud com as crianças de Balimba

Todas as manhãs vai ao poço para pegar água, prepara o chá no ‘kanoune’, o braseiro. Dia após dia ele se encontra lado a lado com as crianças que vivem nas ruas. Não aqueles que pedem esmola, mas aqueles que não têm mais família ou que são obrigados a deixá-la para não sobrecarregar - muitas vezes - os ombros das mães.

Gaël Giraud, portanto, se instala entre as ruínas do cinema Rex para dormir com eles. Assim nasceu o Centro de Balimba, que hoje fica a poucos quilômetros fora da cidade. Cerca de 40 crianças encontram abrigo ali, com alimentação e instrução. Os mais violentos entre eles não vão à escola, mas recebem uma educação no local, graças aos professores que vêm com esse objetivo.

A consciência de que tudo está conectado

Essa experiência "me permitiu ver com os próprios olhos o que significa para os despossuídos ser vítimas do aquecimento global", explica ele. "Basicamente, quando na Encíclica Laudato si' o Papa diz que o grito da terra e o grito dos pobres são só um e o mesmo grito, encontro ali a experiência que as crianças de rua no Chade me fizeram viver já há vinte anos", diz o padre.

De volta à França, Gaël Giraud estuda para se tornar jesuíta e prossegue a formação teológica, enquanto continuava o trabalho como economista. "Pouco a pouco, a experiência que tive no Chade e o que aprendi no campo da economia me fizeram perceber como minha tarefa fosse entender, como economista, o extraordinário impacto da mudança climática sobre a população".

O contraste com o aquecimento global
O contraste com o aquecimento global

A fé questionada e confirmada

A reflexão pessoal e as obras do Padre Gaël Giraud foram influenciadas pela fé. "A experiência da fé cristã alimenta em mim a 'esperança contra toda esperança' que garante que eu não tenha - ou não tenha imediatamente - o reflexo de me esconder na negação" da situação ambiental e da catástrofe em curso. Ao mesmo tempo, a sua fé cresceu.

"Hoje percebo muito mais fortemente a fragilidade da Criação, assim como o fato de que a Criação é colocada em nossas mãos e que temos a responsabilidade como guardiões", explica o jesuíta; “e isto é o que o Papa Francisco escreve na Laudato si’. Não somos os donos da Criação: o único dono da Criação é Deus". Mas Ele mesmo "não quer ser o dono do mundo, mas servo dele". E esse é o caminho que devemos seguir, diz o economista.

A Laudato si', um evento

Gaël Giraud saudou, portanto, a Encíclica Laudato si' com "extraordinária surpresa". Esse texto, segundo o economista, é "o evento eclesial mais importante depois do Concílio Vaticano II". Logo todos perceberam que "era a primeira vez que uma instituição internacional, no caso específico da Igreja Católica, tomasse uma posição de maneira tão clara, preparada e correta e em nível mundial sobre a questão fundamental da crise ecológica, que é aquela da nossa geração".

E Gaël Giraud está convencido: "nós, cristãos, temos um papel, uma responsabilidade na resolução desta crise extremamente grave". Para o padre jesuíta, uma das causas antropológicas da situação atual é a concepção, que surgiu nos séculos XVI e XVII na Europa, do homem como patrão e dono da natureza.

A antropologia cristã se difere dessa concepção. Devemos entender o significado de "dominar a Terra", como expresso no Livro do Gênesis, com o significado de "servir ao crescimento da Criação". Cabe, portanto, aos cristãos, fortalecidos por essa tradição bíblica e espiritual encarnada em particular por São Francisco de Assis, "inventar juntos as soluções para a crise ecológica". É isso que Gaël empreenderá na nova missão que lhe foi confiada pela Companhia de Jesus: criar e desenvolver um centro de justiça ambiental na Universidade de Georgetown de Washington, nos Estados Unidos.

02 março 2021, 08:00