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Golpe de Estado em Mianmar: Aung San Suu Kyi é presa

O chefe das Forças Armadas assume poderes plenos no país denominado Mianmar, antiga Birmânia, e a líder do partido da maioria é presa. Em comunicado, o secretário-geral da ONU, Antònio Guterres, condena "firmemente" a prisão de Aung San Suu Kyi e de outros líderes políticos e fala de duro golpe nas reformas democráticas.

Fausta Speranza – Vatican News

O anúncio na TV: estado de emergência por um ano. O primeiro ato foi prender a chefe do governo de fato, Aung San Suu Kyi, líder da Liga Nacional para a Democracia (NLD), que em novembro venceu por maioria as eleições legislativas.

Os militares vinham falando sobre irregularidades há várias semanas. A líder, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1991, mas que foi criticada internacionalmente pela questão da minoria denominada Rohingya, continua sendo muito querida no país justamente por seus anos de batalha política contra o poder absoluto da junta militar que - de fato, depois de ter governado por meio século - foi dissolvido após as primeiras eleições vencidas pela Liga em 2011.

Mas, entre altos e baixos, o Exército manteve o controle sobre três ministérios fundamentais: o do Interior, o da Defesa e o das Fronteiras. Agora, o chefe das forças armadas, general Min Aung Hlaing, assumiu poderes plenos na véspera da primeira sessão do novo Parlamento, fruto das eleições de novembro, vencidas pelo partido de Aug San Suu Kyi.

E o general Myint Swe, que era um dos vice-presidentes, tornou-se presidente interino. Entre as primeiras decisões adotadas está o fechamento de todos os bancos do país, a partir desta segunda-feira, 01, até novo aviso; os serviços de saque automático também são suspensos.

O apelo dos Estados Unidos

 

Os Estados Unidos "continuam a afirmar seu forte apoio às instituições democráticas" e "em coordenação com nossos parceiros na área, conclamamos os militares e todas as outras" partes interessadas "a aderir às normas democráticas e libertar os detidos", afirma a Casa Branca, observando que o presidente, Joe Biden, foi informado sobre os eventos, incluindo a prisão de Aung San Suu Kyi. Os EUA, “alarmados” com as informações que chegam, opõem-se a qualquer tentativa de alterar o resultado das últimas eleições ou impedir uma transição democrática”.

A questão da minoria no Estado de Rakhine

 

Em 2016, eclodiu a questão da minoria muçulmana em fuga para Bangladesh em condições desumanas. Estamos falando de uma minoria que vive no Estado de Rakhine, conhecida como Rohingya, na fronteira com Bangladesh.

Sua origem é controversa: alguns acreditam tratar-se de indígenas do Estado de Rakhine, enquanto outros afirmam que são imigrantes muçulmanos que viviam originalmente em Bangladesh. Eles teriam se transferido para a Birmânia durante o período de domínio britânico.

De acordo com a lei de cidadania que data de 1982, os Rohingya não fazem parte dos 135 grupos étnicos reconhecidos pelo Estado e, portanto, não têm direito à cidadania birmanesa. Antes das repressões de 2016/2017, cerca de um milhão de pessoas viviam no país; em dezembro de 2017, cerca de 625.000 deles se refugiaram em campos de refugiados em Bangladesh. Segundo relatórios da ONU, eles são uma das minorias mais perseguidas do mundo.

Precisamente naqueles anos, San Suu Kyi foi duramente criticada a nível internacional como líder de fato no país, ainda que se no papel de ministra das Relações Exteriores. Seu longo silêncio inicial foi interrompido em setembro de 2017, quando disse que seu país estava pronto para uma "verificação internacional" sobre como o governo administrou a crise da minoria muçulmana no país budista e para verificar a situação dos 410.000 refugiados em Bangladesh.

Imediatamente a Missão Internacional de Inquérito sobre Mianmar do Conselho de Direitos Humanos da ONU pediu acesso ilimitado ao país e uma prorrogação de seu mandato, para poder estabelecer em um relatório "fatos e circunstâncias" de violações e abusos de direitos humanos no país, particularmente no Estado de Rakhine.

A crise do final dos anos 1980

 

Até 1989 o país se chamava Birmânia. No final dos anos 80, a nação asiática entrou em uma grave crise econômica que foi seguida por um caos total e um golpe de Estado. Milhares de pessoas morreram nos confrontos. A junta militar governante fez várias mudanças na Constituição, que foi aprovada em 1974 e anunciou eleições para o ano seguinte em 1989, que foram então vencidas por partidos de oposição, incluindo a Liga Nacional para a Democracia, liderada por Aung San Suu Kyi e U Tin U. O resultado da votação não foi respeitado: a junta militar não permitiu que San Suu Kyi e seu partido assumissem e ela permaneceu em prisão domiciliar durante anos. O país se tornou a União de Mianmar, abreviado para Mianmar.

A junta também corrigiu os nomes de muitos outros lugares, explicando que queria se distanciar dos nomes em vigor no período colonial britânico, que durou mais de um século a partir de 1824. 

01 fevereiro 2021, 08:17