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Laudato si': o empenho de um padre contra a urbanização selvagem

A defesa dos valores paisagísticos, ambientais e naturais de Siracusa e da sua costa, na região italiana da Sicília, segundo os ensinamentos da encíclica do Papa Francisco. É aquela de Pe. Rosario Lo Bello e dos rapazes da comunidade de São Paulo Apóstolo que há anos trabalham para aumentar o sentimento de pertença, o enraizamento, o "sentir-se em casa" dentro da cidade siciliana.

Giada Aquilino – Vatican News

"Padre, o senhor cuida de almas". É uma frase que Pe. Rosário Lo Bello já ouviu ser repetida muitas vezes desde 2009, quando se tornou pároco da Igreja de São Paulo Apóstolo, em Siracusa, e começou a direcionar a ação pastoral e social para o que ele define como uma "reafirmação dos espaços públicos" da cidade, através de uma atividade de conscientização, empoderamento e estudo da paisagem.

Ao seu lado, mil paroquianos do bairro Graziella, na ilha de Ortigia, outrora uma área apenas de pescadores, agora também de pobreza, degradação e tráfico de drogas. O sacerdote não se cansa de contar ao Vatican News sobre o compromisso que se renova a cada dia em defesa dos valores paisagísticos, ambientais e naturais e que, nos últimos anos, encontrou - diz ele, não escondendo um certo alívio - uma espécie de "legitimidade" na Laudato si' do Papa Francisco.

Um trecho da linha costeira de Pillirina
Um trecho da linha costeira de Pillirina

O contraste entre modernidade e atraso

A sua, explica o padre, é uma terra que "no rescaldo da guerra, nos anos 50, experimentou um desenvolvimento industrial muito forte" sob a bandeira de uma "modernidade" que entrou no tecido social desta parte da Sicília "de forma muito invasiva", que não foi acompanhada por "um verdadeiro e próprio desenvolvimento social". O jovem pároco de Siracusa, de 45 anos, com doutorado em Teologia Dogmática pela Pontifícia Faculdade Teológica de Palermo, membro de um grupo de pesquisa em História da Filosofia Medieval na Univeresidade L'Orientale de Nápoles, e hoje professor de História da Teologia no Centro Acadêmico São Paulo de Catânia, fala da zona industrial local, principalmente petrolífera e metalúrgica, como uma fonte de "riqueza" para os habitantes ao longo dos anos: antes da crise desencadeada pela pandemia, diz ele, eram os "únicos" salários seguros na cidade. Essa realidade, acrescenta o sacerdote, sempre foi diminuída, no entanto, "a um contexto de atraso tanto do ponto de vista cultural, quanto de elaboração civil e política".

Segundo Pe. Rosario, "em Siracusa nunca houve uma burguesia iluminada": "mesmo os cristãos comprometidos com as suas reflexões sociais têm muitas vezes preferido se refugiar em uma erudição abstrata da qual surgiu uma classe dominante em sua maioria desprovida de história cultural e civil. Um pouco como em todas as cidades sicilianas dos anos 60 e 70; negociantes e promotores imobiliários acumularam uma certa riqueza".

O sacerdote faz mais uma observação: "causa-me impressão que hoje, em Siracusa, existem muito poucas livrarias em comparação ao número de habitantes", mais de 100 mil, e que a cidade perca "constantemente os jovens, porque não há uma universidade e eles preferem as universidades do norte da Itália". Portanto, é uma cidade de "adolescentes, adultos e idosos, mas falta toda aquela faixa etária dos 20 aos 40 anos".

Infelizmente, aponta ainda, "o impulso para o aumento da renda dos trabalhadores parou lentamente, especialmente nos últimos anos, gerando muita pobreza e não permitindo um vislumbre de futuro". "Eu percebo, como pároco, que muitos jovens, filhos de desempregados, não têm a oportunidade de estudar: hoje não têm banda larga para se conectar às aulas on-line ou dinheiro para os livros". A crise do coronavírus agrava essas dificuldades, particularmente para todo aquele grupo de "trabalhadores não declarados" que não têm "nem renda de cidadania nem os auxílios do desemprego".

Um dos momentos de formação organizados por Pe. Lo Bello
Um dos momentos de formação organizados por Pe. Lo Bello

Uma área marinha protegida

A partir do final dos anos 90, Pe. Rosario conta, "quando ficou claro que as indústrias estavam desacelerando, os empregos estavam sendo perdidos e os efeitos negativos das emissões sobre a saúde dos habitantes começavam a ser notados, uma segunda miragem nasceu para Siracusa: aquela do desenvolvimento turístico". "Um turismo que obviamente também se ancorava em valores positivos como, por exemplo, a recuperação e o acesso ao patrimônio arqueológico e arquitetônico", mas que se caracterizava por um "pobre planejamento territorial".

O sacerdote cita o Plano Diretor de 2005: "através de muitas variantes", abriu o caminho para um território "inteiramente para ser urbanizado" que, de fato, "se tornava mais atrativo para os investimentos nacionais e internacionais". A cidade, diz ele, "expandiu-se de uma forma quase monstruosa", com a criação de novos bairros "que, no entanto, permaneceram dissociados" dos outros.

E, "especialmente no interior do sul de Siracusa, foi dada a possibilidade de construir até seis áreas destinadas ao desenvolvimento turístico e com um volume muito alto de terra", em uma área à beira-mar "onde ainda não havia muita urbanização". Ao longo dos anos, explica Pe. Rosario, foram construídos duas: "uma na Fanusa e uma na Arenella". Para as outras, diz ele, foram identificados terrenos mesmo na praia de Pillirina, "um trecho de Plemmirio, área costeira da Península de La Maddalena, que é uma área marinha protegida desde 2009", e é cantada por Virgilio na Eneide. Tudo isso gerou, continua Pe. Rosario, uma campanha contra a cimentação (a aplicação de concreto em locais específicos), um "movimento dos cidadãos que conseguiu bloquear a construção desses resorts, encontrando também na paróquia de São Paulo Apóstolo um lugar de reflexão de identidade e misturando tanto jovens católicos - entre escoteiros e rapazes da Ação Católica - como pessoas que vieram de entidades como a Legambiente, Arci, Italia Nostra”.

Mobilização contra uma construção no território de Siracusa
Mobilização contra uma construção no território de Siracusa

O sacerdote lembra de uma manifestação que partiu da paróquia e representava metaforicamente "o funeral de Siracusa enjaulado em um sudário de concreto", ou aquela em que "levamos plantas e pequenas flores, como provocação, a uma reunião da comissão de planejamento urbano da cidade". Para Pe. Lo Bello, "os Planos Diretores não representam no planejamento territorial da cidade uma ideia ligada aos interesses coletivos, mas frequentemente uma espécie de instrumento de intercâmbio para facilitar os interesses de uns poucos às custas da grande maioria da cidade. O crime organizado não é obviamente estranho a tudo isso".

Espaços compartilhados com os outros

"A nossa reflexão nasce de duas motivações principais que, na Laudato si', encontraram confirmação", acredita Pe. Rosario. A primeira é que "uma paisagem tem valores que vão além das possibilidades de exploração empresarial". A segunda é que, "dentro da cidade, deve haver espaços nos quais a natureza tenha a possibilidade de não ser tocada pelo homem". Esses são espaços que devem continuar a ser compartilhados. Essa ideia é muito importante para nós crentes, porque espaços assim são lugares onde todos podem ir, ricos e pobres, jovens e velhos. E isso diz respeito, acima de tudo, a esses trechos de costa. Não são espaços onde a identidade do homem é pré-estabelecida, mas onde há divisão entre os vários grupos etários, as várias classes, onde todos vão ao mar".

Por outro lado, aponta o sacerdote, o Papa, no parágrafo 151 da encíclica de 2015, destaca como é necessário cuidar de "espaços públicos, marcos de perspectiva e pontos urbanos de referência que aumentem o nosso sentimento de pertença, a nossa sensação de enraizamento, o nosso 'sentir-se em casa' dentro da cidade que nos contém e nos une", exortando-nos a "viver a cidade inteira como um espaço compartilhado com os outros".

Contra a retaliação, o afeto do povo

Um empenho, aquele do pároco de Siracusa, para devolver os bens da Criação à gratuidade, que vem acontecendo há mais de uma década. Não faltaram momentos escuros, marcados por represálias, ameaças, insinuações contra ele, mesmo em nível pessoal. "Foi muito difícil no início", "sofri muito", confessa Pe. Rosario. "Diante de algumas ameaças, minha mãe, uma mulher com tanto autocontrole, chorava", conta o sacerdote com um toque de emoção, mas sem nunca perder a lucidez.

"Mas, desde que temos a Laudato si" do Papa Francisco, é como se todos os padres ‘infelizes’ como eu tivessem encontrado uma legitimidade. As pessoas agora compreendem que, se um pastor quer refletir sobre a degradação na cidade, sobre os espaços compartilhados e sobre a possibilidade de que os recursos paisagísticos e naturais não estejam apenas nas mãos de quem está bem, mas também dos mais pobres, é porque está seguindo a doutrina social da Igreja. Portanto, hoje, apesar de tudo, esta missão é mais fácil". Para reforçar a experiência do padre, há uma certeza:

“Agradeço muito à minha comunidade, porque os meus jovens são os que imediatamente perceberam que as notícias que circulavam sobre mim tinham uma raiz maligna, foram fabricadas, como mais tarde foi constatado pelos investigadores. Os jovens da minha paróquia, que são cerca de 20, sempre me apoiaram: eu os quero muito bem.”

Manifestação na costa de Siracusa
Manifestação na costa de Siracusa

As futuras gerações

Precisamente para os paroquianos, de todas as idades, o Padre Rosario continua a transmitir o convite do Pontífice que vem de Laudato si': ser "um nós que construímos juntos". "É um ato de amor. Cristo nos diz de amar o próximo como a si mesmo, e o nosso próximo são os filhos destas pessoas ou aqueles que se tornarão seus netos. Amar o próximo também significa deixar um ambiente e uma terra saudáveis para aqueles que vêm depois de nós. Portanto, a ideia de ter que respeitar o planeta, e depois entregá-lo às próximas gerações, faz parte do mandamento de Cristo".

O padre e os rapazes da paróquia também aderiram às iniciativas da "Comunidade de Conexões", do padre jesuíta Francesco Occhetta. "Estamos trabalhando em um percurso de análise política e social da cidade, sob a égide da Laudato si", que é comentada depois na paróquia. Infelizmente, em Siracusa, a política continua muitas vezes desinteressada pelos problemas urbanos e ambientais e percebemos que não basta mostrar às pessoas um caminho, mas também devemos apoiá-las. Por essa razão, esperamos criar em breve uma escola de formação para ajudar aqueles que abandonam a escola - em Siracusa temos uma taxa de evasão de 11% - a se reintegrarem nos percursos de formação e de escolaridade, também através de formas de tutoria". Isso significa que o caminho da paróquia de São Paulo Apóstolo em Siracusa não pára aqui.

(Vídeo gravado antes das últimas medidas tomadas para enfrentar a emergência da Covid-19)

09 fevereiro 2021, 08:00