Patriarca de Babilônia dos Caldeus, no Iraque, cardeal Louis Raphaël I Sako Patriarca de Babilônia dos Caldeus, no Iraque, cardeal Louis Raphaël I Sako

Sako: não é sábio perseguir projeto de uma "província cristã" no Iraque

“É melhor para nós agora conviver com nossos vizinhos. Pedimos a todos que respeitem nossos direitos, não tentando mudar o equilíbrio nas regiões em que vivemos. Mas se tentarmos pedir uma província ou uma área com status especial para os cristãos, acabaremos pagando um preço mais alto." O patriarca de Babilônia dos Caldeu expressou repetidamente suas reservas sobre a possibilidade de se estabelecer na Planície de Nínive uma área "protegida" para os cristãos

Vatican News

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A solução para os problemas enfrentados pelos cristãos no Iraque não passa pela criação de um "enclave cristão" baseado na Planície de Nínive, que acabaria se tornando "o bode expiatório" nas lutas entre as várias facções sectárias.

Foi o que reiterou o patriarca da Babilônia dos Caldeus, no Iraque, cardeal Louis Raphaël I Sako, numa ampla entrevista concedida a Rudaw TV, uma emissora do grupo editorial com sede no Curdistão iraquiano.

Reservas do patriarca a uma área “protegida” para os cristãos

Os cristãos - explicou o patriarca - representam na sociedade iraquiana um componente "sem milícias", sem aparatos de proteção tribal, e neste tempo em que o país é continuamente dilacerado por tensões e conflitos "não é sábio pedir autonomia para nós dentro de uma província. Desse modo, nos tornaríamos o bode expiatório entre os contendentes".

“É melhor para nós agora conviver com nossos vizinhos. Pedimos a todos que respeitem nossos direitos, não tentando mudar o equilíbrio nas regiões em que vivemos. Mas se tentarmos pedir uma província ou uma área com status especial para os cristãos, acabaremos pagando um preço mais alto."

O patriarca caldeu Sako expressou repetidamente suas reservas sobre a possibilidade de estabelecer na Planície de Nínive uma área "protegida" para os cristãos.

Perspectiva relançada também em Washington

A Província de Nínive, historicamente pontilhada de cidades e vilarejos de maioria cristã, já de há muito está no centro de projetos ideais que visam criar uma área independente do ponto de vista político-administrativo, projetos fortemente apoiados por grupos organizados em algumas comunidades da diáspora caldeia e assíria.

Esta perspectiva foi de certa forma relançada também na Convenção Nacional promovida em Washington, nos EUA, em setembro de 2016 pela organização norte-americana sem fins lucrativos Em Defesa dos Cristãos (IDC).

Na recente e ampla entrevista concedida ao grupo editorial Rudaw, o patriarca caldeu reiterou que grande parte dos cristãos que fugiram da Planície de Nínive em 2014 diante do avanço das milícias do autoproclamado Estado Islâmico (Isis) não está voltando para suas terras de origem porque "perderam a confiança em seus vizinhos", que em muitas situações locais tomaram posse de suas propriedades e casas.

Superar pertença étnica ou religiosa

"Não foi apenas o Isis que queimou todas as casas. Havia também outras mãos que acendiam o fogo, e na área há milícias de diferentes matrizes que impõem pedágio, instilam medo e ameaçam a propriedade das pessoas de uma forma ou de outra."

“O cardeal iraquiano também se referiu aos processos que precisamente na Planície de Nínive, a área tradicional de assentamento das comunidades cristãs autóctones, estão alterando os equilíbrios demográficos anteriores, alimentando o medo e a incerteza entre a população.”

O patriarca caldeu reiterou que a condição de violência e conflito permanente em que o Iraque vive desde 2003 - o ano das campanhas militares lideradas pelos EUA que puseram fim ao regime de Saddam Hussein - só pode ser superada quando os sistemas de gestão e divisão de poder em bases étnico-religiosas sectárias forem arquivados, para dar lugar a um "Estado civil moderno" baseado no princípio da cidadania, capaz de garantir direitos e deveres iguais para todos os cidadãos, independentemente de sua pertença étnica ou religiosa.

A anunciada viagem do Papa Francisco ao Iraque

Na entrevista, o patriarca também se deteve sobre a anunciada viagem do Papa Francisco ao Iraque, programada para realizar-se de 5 a 8 de março de 2021.

"O Papa é uma pessoa de paz, e não penso que haverá ataques contra ele. O governo está trabalhando na proteção da viagem", assegurou o cardeal Sako, que também se deteve sobre alguns detalhes do programa, confirmando o momento de partilha espiritual com leituras da Bíblia e do Alcorão que verá judeus, cristãos e muçulmanos reunidos em nome de Abraão, pai de todos os crentes, para enviar mensagens de paz "ao Líbano, Iêmen, Irã e Líbia".

Além das etapas anunciadas da visita papal a Irbil, Mosul e Qaraqosh, o patriarca caldeu manifestou a esperança de que o Papa também pudesse ir a Najaf, a cidade santa do Islã xiita, onde reside o aiatolá Ali al Sistani.

(Fides)

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29 dezembro 2020, 10:23