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75º aniversário da explosão da bomba atômica em Nagasaki 75º aniversário da explosão da bomba atômica em Nagasaki  (ANSA)

Japão: 75º aniversário da explosão da bomba atômica em Nagasaki: as palavras do Papa

O prefeito de Nagasaki recordou Francisco: "um mundo em paz, livre de armas nucleares" em realidade "requer a participação de todos".

Silvonei José - Vatican News

Foi recordado na manhã deste domingo, 9 de agosto em Nagasaki, Japão, o 75° aniversário do lançamento da bomba atômica pelos Estados Unidos. Durante a cerimônia, que conta todos os anos com a presença de milhares de pessoas, este ano teve apenas cerca de 500 devido à emergência do coronavírus, o prefeito Tomihisa Taue leu uma "Declaração de Paz de Nagasaki". Em seu discurso, o prefeito mencionou como palavras-chave para o desarmamento nuclear as palavras pronunciadas pelo Papa Francisco em 24 de novembro do ano passado, no "Atomic Bomb Hypocenter Park", durante sua visita pastoral ao país. O Pontífice, naquela ocasião, salientou que a transformação do ideal de "um mundo em paz, livre de armas nucleares" em realidade "requer a participação de todos", e que "é necessário quebrar a dinâmica de desconfiança que prevalece atualmente e que corre o risco de chegar ao desmantelamento da arquitetura internacional de controle de armas".

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O prefeito de Nagasaki também pediu perseverança na construção das bases para uma cultura de paz na sociedade civil e fez um apelo aos líderes de países de todo o mundo ao diálogo e ao desarmamento nuclear. Em particular, ele convidou o governo do Japão a assinar e ratificar o Tratado de Proibição de Armas Nucleares o mais rápido possível. A cerimônia de comemoração contou com a presença de Fukahori Shigemi, 89 anos, um sobrevivente do bombardeio atômico, que deu seu testemunho. No ano passado, junto com Sakue Shimohira, ele entregou ao Papa Francesco, no Atomic Bomb Hypocenter Park, a coroa de flores colocada aos pés do monumento comemorativo das vítimas de 9 de agosto de 1945. Fukahori Shingemi, que na época tinha 14 anos e perdeu seus 4 irmãos, disse que tinha visto a cidade destruída e tantos cadáveres e que temeu por muitos dias de morrer. Ele também disse que estava determinado a continuar seus esforços para fazer de Nagasaki a última cidade atingida por uma bomba atômica. Ele ainda reiterou o que o Papa Francisco disse sobre a abolição das armas nucleares, acrescentando que se sentiu encorajado pelas palavras do Pontífice.

Testemunho de Shigemi Fukahori

Em 1945, ano em que a bomba atômica foi lançada, eu era estudante da sétima série. Para me tornar sacerdote, eu havia deixado a casa de meus pais e vivia no Seminário Latino de Nagasaki, atrás da Catedral. Naqueles dias não havia aulas, mas eu trabalhava como estudante operário no "Canteiro Naval Mitsubishi-Nagasaki Shipyard" em Akunouramachi.

Em 9 de agosto, enquanto trabalhava com os colegas, de repente vi um forte brilho e ouvi um barulho. Pensei que uma bomba tivesse caído e imediatamente deitei no chão. Mas as telhas do teto começaram a cair e assim eu fugi para o túnel que tinha sido cavado na fábrica. Quando a noite caiu, saí do túnel e voltei para o seminário. Naquela mesma noite os 5 seminaristas mais velhos voltaram, mas todos morreram antes que se passasse um dia.

Na tarde do dia 10 de agosto recebi permissão para ir para casa e comecei a caminhar. Nas ruas vi os restos de trens dos quais se reconheciam somente as rodas e os esqueletos brancos de homens. O rio estava cheio de homens queimados, mas eu não sabia dizer se eles estavam vivos ou mortos. Às vezes ouvia vozes que pediam "Água... Água..." mas eu não conseguia ajudá-los.

A Catedral de Nagasaki foi destruída e a minha casa, que estava atrás dela, também foi destruída. Meu pai que trabalhava dentro de uma fábrica de armas tinha conseguido sobreviver, mas minhas duas irmãs mais velhas e um irmão e uma irmã mais novos morreram. Talvez porque eu vi tantos cadáveres, estranhamente eu não conseguia nem chorar. Penso nisso hoje, mas naquele momento eu não tinha uma condição psíquica normal.

O cheiro das cremações dos cadáveres permaneceu na cidade por um tempo. Como vi tantas pessoas aparentemente imunes que morriam uma após a outra, não conseguia me libertar do pensamento terrível de que o próximo a morrer seria eu. Não quero que ninguém mais viva esta experiência.

Em novembro do ano passado, o Papa Francisco visitou Nagasaki como um "peregrino da paz". Lembro-me do momento em que, junto com o Papa, ofereci flores às vítimas da bomba atômica e o quanto me senti encorajado pelas palavras do Papa Francisco que aprofundou aquela frase do Papa João Paulo II "A guerra é obra do homem". As palavras do Papa Francisco tornam o caminho do desarmamento nuclear ainda mais claro. E quando o Papa definiu esta cidade "testemunha das catastróficas consequências humanitárias e ambientais de um ataque nuclear", nós "hibakusha" (os sobreviventes) de Nagasaki sentimos que temos uma missão ainda maior.

Espero que muitos se unam a nós, respondendo ao apelo do Papa que nos convida a trabalhar juntos na construção do mundo de paz. Peço sobretudo a vocês, jovens, que segurem firmes este bastão de revezamento da paz e continuem correndo.

Eu já fiz 89 anos de idade. Para os hibakusha resta apenas um pouco de tempo. Hoje, já se passaram 75 anos desde que a bomba atômica foi lançada em Nagasaki e os hibakusha estão desaparecendo um após o outro. Nesta ocasião, tirando força das palavras do Papa que pede o desarmamento nuclear, renovo minha vontade de manter Nagasaki como a última cidade bombardeada pela bomba atômica e aqui apresento esta "declaração de paz".

Vatican News Service – TC

 

10 agosto 2020, 10:03