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Seca e desertificação Seca e desertificação 

Contra a desertificação uma agricultura mais responsável

Na luta contra a desertificação instituída pelas Nações Unidas a sensibilização da opinião pública é fundamental. Principalmente em matéria de cooperação internacional para combater os efeitos da seca. Há necessidade crescente de falar e se engajar em todos os níveis porque as consequências são cada vez piores

Marina Tomarro – Vatican News

“A desertificação do solo é como uma doença física que afeta a todos”. Palavras do Papa Francisco na Laudato si’ ao falar da desertificação que, infelizmente cada vez mais difundida em várias partes do planeta, tem efeitos negativos sobre as pessoas, a pecuária, as colheitas e o custo dos alimentos, aumentando as crises alimentares e a fome, causando milhares de vítimas entre os mais vulneráveis. É justamente para conscientizar sobre esta questão que as Nações Unidas instituíram o Dia Mundial da luta contra a Desertificação.

"A desertificação - explica Andrea Masullo, diretor científico da Greenaccord - depende de várias causas: do mau uso da terra pelo homem, da destruição das florestas e da agricultura que explora a terra e pelas mudanças climáticas que estão perturbando os ciclos hidrogeológicos. A violência contra a natureza volta-se contra o homem".

A água continua a ser um bem precioso. Por que não se consegue geri-la e conservá-la?

Andrea Masullo: Pensemos que 70% dos usos da água são para a agricultura, por isso voltemos a falar de deserto. A agricultura intensiva com fins lucrativos deteriora a qualidade biológica e orgânica do solo, por isso não retém água, precisa cada vez mais de água que leva os fertilizantes químicos e todos os agrotóxicos para o solo, e assim destroi não só o solo, mas também este recurso, que rapidamente é devolvido ao meio ambiente de forma poluída. Podemos considerar também que 3 a 4 milhões de pessoas morrem a cada ano devido à falta de água potável e a maioria delas são crianças. Então é a gestão, é a nossa relação com a Criação que cria este grande problema, porque a água não desaparece, mas é sua distribuição e sua qualidade que destruímos, com as mudanças climáticas e o mau uso dos recursos naturais.

Quanto o homem pode ajudar a evitar isso? E quais são as soluções possíveis?

Andrea Masullo: Temos que parar de destruir as florestas, parar de violentar a terra para lucrar com a agricultura química e intensiva. Certamente esta é a forte inovação que deve haver na agricultura orientada para a conservação da biodiversidade e das florestas. Mas mesmo nós, pessoalmente, não temos que desperdiçar água, e isso podemos fazer todos os dias, toda vez que usamos a água: não deixá-la escorrer quando precisamos lavar a louça ou fazer a higiêne, pequenas coisas... tudo isso não nos custa tanto esforço.

Outro fenômeno ligado à desertificação é o da migração por razões climáticas...

Andrea Masullo: Este é o primeiro motivo das migrações que deverá afetar, até meados deste século, cerca de 350 milhões de pessoas, que fugirão de suas terras para o norte do mundo. Pensemos, por exemplo, da África para a Europa, ou da América do Sul à América do Norte, justamente por causa desse motivo, ou seja, pela necessidade de água limpa e a desertificação. É belo que o Santo Padre tenha lançado um ano para o Laudato si’. Está tudo lá. É a consideração de uma responsabilidade coletiva, porque somos uma família e o comportamento errado não se trata apenas de quem o faz, mas de todos.

Na Laudato si’, o Papa Francisco define a desertificação como uma doença física. O que isso significa?

Andrea Masullo: É a falta, mais uma vez, do sentido de responsabilidade por parte de um sistema econômico que confia e conta exclusivamente com a tecnologia, sem considerar os aspectos éticos e as consequências das ações que desenvolve. Um sistema que deve começar a avaliar, no bem ou no mal, os instrumentos que a ciência coloca à nossa disposição, para usá-los bem, para usar os corretos. O progresso é medido pelo número de pessoas que conseguem melhorar suas condições de vida, e pela perspectiva que deixamos para as gerações futuras. Este é o verdadeiro ponto de virada, a verdadeira conversão ecológica para a qual Laudato si’ nos lembra.

18 junho 2020, 12:12