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Mapa da tríplice fronteira Mapa da tríplice fronteira 

Tríplice Fronteira: a pandemia se torna uma verdadeira tragédia

O inexorável coronavírus se difunde até a profunda Amazônia e não dá desconto, seja em termos de contágios que de vitimas, também entre a povos indígena, particularmente vulneráveis.

Bruno Desidera, agência de noticias SIR

A emergência da Covid-19 tornou-se uma verdadeira tragédia não só nas cidades mais afetadas da América do Sul, como Manaus e Belém no Brasil, ou em Iquitos no Peru, mas também no coração da floresta. É o caso, por exemplo, da assim chamada tríplice fronteira, o lugar onde se encontram, no longo percurso do Rio Amazonas, entre os Países: Brasil, Peru e Colômbia. Local de comércio e trocas, geralmente ilegais, onde as fronteiras são somente teóricas, como acontece entre Letícia, localizada no extremo sul da Colômbia que nos últimos anos se tornou meta turistica, e a brasileira Tabatinga, uma das principais cidades do Alto Solimões. Próprio alí na Triplice fronteira o Sir (serviço de informação religiosa) vai direto virtualmente, para contar como se vive a pandemia nessas localidades amazônicas, onde o vírus chegou através do grande rio e por vias aereas, de Manaus e Iquitos.

O inexorável coronavírus se difunde até a profunda Amazônia, e não dá desconto, seja em termos de contágios que de vitimas, também entre a povos indígena, particularmente vulneráveis. Os dados são eloquentes, segundo o mapa cotidiano elaborado cotidianamente pela REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica) e pela COICA (Coordenador das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica): 92.870 contágios e 5.346 mortes (em 21 de maio).

Brasil, pico de contágios também entre indígenas

A nossa viagem tem início em Tabatinga, com o Bispo do Alto Solimões Dom Adolfo Zon Pereira, xaveriano espanhol. A dias, o Bispo observa e analisa os dados dos sete municípios da sua imensa diocese, tão vasta quanto o norte da Itália mas habitada somente por 220 mil habitantes.

Impressionam de fato, não tanto os números absolutos (2.130 positivos e 93 mortes, segundo os dados de 21 de maio), porém o percentual em relação a população, com uma taxa de positivos relativo a 0,97% da população (quase o triplo da Itália). Não esquecendo que os teste efetuados são poucos e que a comunicação com muitas comunidades é precária, a situação poderia ser muito pior. Afirma o Bispo: Mesmo que os prefeitos tenham tomado provedimentos de distanciamentos desde 19 de março e as fronteiras tenham sido fechadas, a pandemia avança. No início as indicações não foram levadas a sério. Eu recomendo às pessoas e aos nossos sacerdotes, todos os dias, de ficar atento e de permanecer em casa, outro remédio não há. Dois sacerdotes foram contagiados, e por sorte se recuperaram, mas as mortes aumentam e o município precisou criar um novo cemitério, em um terreno colocado a disposição por nossa diocese”. A preocupação maior e pela população indígena: “A maior parte dos contagiados e dos mortos indígenas por coronavírus são do nosso territorio”, cerca de 60% dos 600 contagios e 110 mortos”. A etnia mais difusa, no território, é o povo ticuna. “O covid-19 ainda não entrou nos territórios do povo Javari”, prossegue o Bispo. É também alarmante, as prospectivas de nível econômico: “Aqui estamos em uma localidade distante, chega pouca ajuda e nos viramos com a solidariedade entre nós. Por sorte, depois da ligação do núncio, recebemos uma soma colocada a disposição pelo Papa”.

A dar suposte ao Bispo na caridade para com a população, é a responsável da Pastoral social da diocese, a missionária laica marista argentina Verónica Rubí: “O isolamento social é necessário, mas está levando as famílias à fome, aqui se prática uma economia de subsistência”.

“A fome não espera” é o título da campanha, em conjunto com a Cáritas brasileira: “pedimos doações seja em dinheiro que em gêneros alimentares de primeira necessidade. Encontramos uma generosidade além da expectativa, montamos 350 cestas básicas de alimentos e as distribuímos. Aqui em Tabatinga existe muita pobreza, muitas vezes as casas não têm luz e gás”. E o contexto, já antes da chegada da Covid-19, não era um dos mais fáceis: “Não tem trabalho – explica a missionária -, a economia é informal, as conexões com as demais cidades são difíceis e custosas. As fronteiras normalmente são praticamente inexistentes, criamos uma rede de sensibilização do tráficos de pessoas. Além disso, existem os comércios ilegais de madeira, animais e de droga”.

Na Colômbia sistema de saúde e social em colapso

Mas agora, as fronteiras estão fechadas e os militares patrulham o frágil confim entre Tabatinga e a colombiana Letícia, onde os contágios são cerca de 1.500, com 47 mortes. “É verdade que dos três países chegaram respostas diferentes e que a atitude do Brasil foi negativa. Mas a resposta não é militalizar as fronteiras - diz padre Alfredo Ferro, coordenador do Serviço jesuíta pela Pan-Amazônica -. Seria necessário, sobretudo, fazer uma reunião entre os três países para harmonizar as políticas. Aqui a fronteira sempre foi muito porosa, existem pessoas que têm parentes no Brasil. O verdadeiro problema é que se sofre com a fome e a única opção é sair de casa e procurar comida. Aqui o sistema social e de saúde é completamente em colapso, se trata de um problema endêmico e estrutural. Em Letícia falta uma UTI, as conexões são difíceis, mesmo que se trate só do transporte de doente”. E depois a economia é em queda, “os turistas sumiram, serviria o envio de aviões com alimentos. Falta um plano claro, uma coordenação”

Confirma padre Yilmer Alonso Pérez, responsável da Pastoral social Cáritas do vicariato apostólico de Letícia: “Aqui só tem um hospital, que porém conseguiu acolher somente alguns pacientes. Muitos estão em casa, em condições inadequadas. Faltam ambulâncias e ventiladores. Os testes são levados a Bogotá e são necessários três dias para haver os resultados. A questão, é que as pessoas permaneçam em casa e recebam alimentos, que porém não são suficientes. Entre os indígenas, que saem para cultivar o próprio sustento, o risco de contágio é muito elevado”. Como vicariato apostólico, “estamos pedindo a instalação de um hospital de combate. Estamos distribuindo máscaras às comunidades indígenas, junto com medicamentos e alimentos e estamos em contato com o Banco de alimentos da capital. Mas estamos dando também um apoio espiritual e psicológico, através da radio e das redes sociais, e é importante também a dimensão pedagogica”.

No Peru uma comunidade indefesa

É o próprio padre Yilmer a nos relatar que, em respeito a Colômbia, a situação é ainda mais grave no Peru. Nas proximidades da tríplice fronteira não existem grande centros, mas o contágio se está alargando em várias comunidades, como confirma padre César Luis Caro Puértolas, vigário-geral do vicariato apostólico de São José do Amazonas, também grande como norte da Itália, no território peruano que confina com o Brasil, Colômbia e Equador. Aqui o Bispo, mons. José Javier Travieso, foi o primeiro em toda a América Latina a resultar positivo ao Covid-19 e agora é em convalescença. “A situação – nos refere  – é muito complicada -. Já são 36 mortes, muitos indígenas Ticunas, 287 casos confirmados e 750 suspeitos nas várias comunidades. Em particular na ilha Santa Rosa de Javali e a Caballococha, o nosso é um vicariato rural e de comunidade indígena, com uma rede de saúde muito fraca, formada por dois pequenos hospitais e por alguns centros de saúde locais, há uma colaboração com a vizinha Colômbia e a cidade de Letícia para a assistência de alguns casos”.

O vicariato apostólico iniciou uma campanha para distribuir ajuda, e conta com um projeto financiado da Misión América da Conferência episcopal espanhola, muito articulado e centralizado em angariar recursos sanitários, em particular ventiladores, medicamentos e meios de proteção. Uma ajuda fundamental para uma comunidade, que caso contrário, “corre o risco de ficar completamente indefesa”.

29 maio 2020, 11:35