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Imagem de 2018, durante Missa com os migrantes Imagem de 2018, durante Missa com os migrantes  (Vatican Media)

"Que não existam mais muros que nos separam”

Na sua Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, o Papa afirma que “a Igreja é chamada a sair pelas estradas das periferias existenciais” nas quais se encontram “muitos migrantes e refugiados, deslocados e vítimas de tráfico humano, aos quais o Senhor deseja que seja manifestado o seu amor e anunciada a sua salvação”.

Rui Saraiva – Portugal

O 107º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado celebra-se a 26 de setembro neste ano de 2021. O Papa Francisco publicou uma mensagem com o título: “Rumo a um nós cada vez maior”.

O Santo Padre cita, desde logo, a sua Encíclica “Fratelli tutti”, “Todos irmãos”, publicada em 2020, na qual Francisco expressa uma sua preocupação: “Passada a crise sanitária, a pior reação seria cair ainda mais num consumismo febril e em novas formas de autoproteção egoísta. No fim, oxalá já não existam “os outros”, mas apenas um ‘nós’ ”.

Desta forma, assumindo esta ideia de unidade, o Papa indica “um horizonte para o nosso caminho comum neste mundo”.

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A história do “nós”

Francisco parte do “projeto criador de Deus” na leitura do Livro do Génesis: «Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher. Abençoando-os, Deus disse-lhes: “Crescei, multiplicai-vos”» (Gn 1, 27-28). Homem e mulher foram criados por Deus “para formarem, juntos, um nós destinado a tornar-se cada vez maior com a multiplicação das gerações” – escreve o Papa.

Contudo, este “nós querido por Deus está dilacerado e dividido, ferido e desfigurado. E isto verifica-se sobretudo nos momentos de maior crise, como agora com a pandemia” – diz Francisco.

“Os nacionalismos fechados e agressivos e o individualismo radical desagregam ou dividem o nós, tanto no mundo como dentro da Igreja. E o preço mais alto é pago por aqueles que mais facilmente se podem tornar os outros: os estrangeiros, os migrantes, os marginalizados, que habitam as periferias existenciais” – declara o Santo Padre.

O Papa reafirma que “estamos todos no mesmo barco e somos chamados a empenhar-nos para que não existam mais muros que nos separam, nem existam mais os outros, mas só um nós, do tamanho da humanidade inteira”.

Francisco lança o apelo de “caminharmos juntos rumo a um nós cada vez maior”. Na sua Mensagem, dirige-se, primeiro aos católicos e depois aos “homens e mulheres da terra”.

Uma Igreja cada vez mais católica

O Papa refere na sua Mensagem aquilo que recomendava S. Paulo à comunidade de Éfeso: “Um só corpo e um só espírito, assim como a vossa vocação vos chama a uma só esperança; um só Senhor, uma só fé, um só batismo”.

“De facto” – acrescenta Francisco – “a catolicidade da Igreja, a sua universalidade é uma realidade que requer ser acolhida e vivida em cada época”. Uma realidade que é “encontro com a diversidade” no contacto com estrangeiros, migrantes e refugiados. Nesse “diálogo intercultural” concretiza-se uma “oportunidade de crescer como Igreja” – assinala o Papa.

“Todo o batizado, onde quer que se encontre, é membro de pleno direito da comunidade eclesial local e membro da única Igreja, habitante na única casa, componente da única família” – declara o Santo Padre.

Francisco afirma que “os fiéis católicos são chamados, cada qual a partir da comunidade onde vive, a comprometer-se para que a Igreja se torne cada vez mais inclusiva. “

“Hoje, a Igreja é chamada a sair pelas estradas das periferias existenciais para cuidar de quem está ferido e procurar quem anda extraviado, sem preconceitos nem medo, sem proselitismo, mas pronta a ampliar a sua tenda para acolher a todos. Entre os habitantes das periferias existenciais, encontraremos muitos migrantes e refugiados, deslocados e vítimas de tráfico humano, aos quais o Senhor deseja que seja manifestado o seu amor e anunciada a sua salvação” – escreve o Papa. 

Um mundo cada vez mais inclusivo

O Papa dirige-se também, na sua Mensagem, “a todos os homens e mulheres da terra” apelando a “caminharem juntos rumo a um nós cada vez maior, a recomporem a família humana” com o objetivo da construção de um “futuro de justiça e paz, tendo o cuidado de ninguém ficar excluído”.

Francisco sublinha que o futuro das nossas sociedades “é um futuro a cores”, ou seja, “enriquecido pela diversidade e as relações interculturais”. “Por isso, hoje, devemos aprender a viver, juntos, em harmonia e paz” – declara o Santo Padre.

“A todos os homens e mulheres da terra, peço que empreguem bem os dons que o Senhor nos confiou para conservar e tornar ainda mais bela a sua criação” – escreve o Papa salientando que este deve ser um “compromisso pessoal e coletivo” para um “desenvolvimento mais sustentável, equilibrado e inclusivo”.

“Um compromisso que não faz distinção entre autóctones e estrangeiros, entre residentes e hóspedes, porque se trata dum tesouro comum, de cujo cuidado e de cujos benefícios ninguém deve ficar excluído” – diz o Santo Padre.

Oração

O Papa Francisco conclui a sua Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado com uma oração:

Pai santo e amado,
o vosso Filho Jesus ensinou-nos
que nos Céus se esparge uma grande alegria
quando alguém que estava perdido
é reencontrado,
quando alguém que estava excluído, rejeitado ou descartado
é reinserido no nosso nós,
que assim se torna cada vez maior.

Pedimo-Vos que concedais a todos os discípulos de Jesus
e a todas as pessoas de boa vontade
a graça de cumprirem a vossa vontade no mundo.
Abençoai todo o gesto de acolhimento e assistência
que repõe a pessoa que estiver em exílio
no nós da comunidade e da Igreja,
para que a nossa terra possa tornar-se,
tal como Vós a criastes,
a Casa comum de todos os irmãos e irmãs. Amen.

17 maio 2021, 18:06