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Jornalista Fernando Pinho (Portugal) Jornalista Fernando Pinho (Portugal) 

A Rádio Vaticano uma escola de vida, um modelo de organização

“A Rádio Vaticano foi para mim uma escola de vida. Foi um modelo de organização. Foi, no meu tempo – e penso que continua a ser – uma instituição ocupada e preocupada com a prestação de um serviço de qualidade à Santa Sé – é a Radio do Papa – e, ao mesmo tempo, atenta aos aspetos da humanização do trabalho”: quem o diz é o jornalista Fernando Pinho que há 25 anos trabalhou na RV, sobretudo na informatização, preparação e acompanhamento das viagens apostólicas de São João Paulo II.

Cidade do Vaticano

Por ocasião dos 90 anos da Rádio Vaticano que decorrem nesta sexta-feira, 12 de fevereiro, o jornalista português Fernando Pinho quis estar presente através de um testemunho escrito sobre a sua experiência na na Rádio Vaticano, e em aprticular no Sector da SEDOC. Eis as suas palavras:

Ouça e compartilhe!

O ambiente de então permitia criar relações pessoais e laços de amizade, que perduram ainda hoje, passados 25 anos.

Ainda hoje recordo os nomes de quase todos os colaboradores dos anos em que trabalhei, sobretudo no SEDOC, onde mantinha um contacto direto com toda a Rádio, e tenho saudades dos momentos partilhados, dentro e fora do espaço de trabalho – o Palazzo Pio, com a sua posição estratégica e privilegiada – e a Cidade do Vaticano, os dicastérios e os Jardins, lá em cima, onde permaneciam as estruturas históricas e centrais da Emissora – lá no topo da colina …

Os Jesuítas, mestres também na dimensão humana

 

Os jesuítas foram sempre mestres capazes de combinar competência, abnegação e “lungimiranza”, aquela perspicácia que os fazem admirar e invejar no mundo inteiro.

Mas a dimensão humana, as relações pessoais e a valorização do trabalho, que criam motivação, são os traços que recordo com mais admiração e reconhecimento: como dizia, foi para mim uma escola de vida, observando a atuação dos sucessivos diretores – Tucci, Borgomeo, Quercetti, Lombardi – ao lado de colaboradores competentes e sorridentes, como o Dr. Alberto Gasbarri, para mencionar apenas um nome.

A relação com todos eles, assim como com os técnicos, os engenheiros – menciono apenas os nomes de Roberto Calvigioni e Lorenzo Petitta, que me acompanhou em Timor-Leste – com os colegas jornalistas do Radiogiornale, a começar pelo P. Arregui – e com os responsáveis dos chamados “Programas”, ou secções, são referências que me ficaram não só na mente, mas sobretudo no coração.

Esforço de actualização técnica e jornalística

 

Recordo sempre com saudade todos esses anos, e com veneração e orgulho, o esforço de atualização técnica e jornalística, sob o ímpeto inovador liderado pelo P. Cabasés, com ações de formação regulares, a introdução pioneira das novas tecnologias de informação, a distribuição das 12 agências noticiosas que, através da Rádio e do seu serviço, chegavam então a todos os organismos do Vaticano… Como não recordar o trabalho calmo e competente do Eng. Mauro Milita, uma presença constante no SEDOC – a secção locomotiva da Rádio, com uma equipa de colegas competentes, dedicados e pioneiros no esforço de mudar hábitos de trabalho, trocando as tradicionais canetas e lapiseiras por teclados, por vezes, impertinentes, desafiadores…?

Os meus ex-colegas nesse setor – Paola, Elide, Marina, Salim Ghostine, António Mancini, Giovanni Peduto, Fabrizio Mastrofini… (e outros, entre os quais, vários estagiários)… – pelo modo como enfrentaram esses desafios e por me terem aturado durante quase dez anos, irão certamente para o paraíso!

A RV um ‘monumento’ no mundo da comunicação

 

A Rádio Vaticano é uma emissora, e é também um monumento no mundo da comunicação, um símbolo de competência profissional, um emblema e um «objeto do desejo»: nunca me esqueço da avidez com que todas as figuras do mundo da cultura ou do mundo político que passavam por Roma – não apenas bispos e padres – procuravam ser entrevistados, e o prazer e orgulho que tinham nisso …

Entrevista aos Madredeus …

Entre os muitos episódios que confirmam essa admiração pela emissora da Santa Sé, recordo uma entrevista que fiz aos Madredeus, nos anos 80 (do século passado): Pedro Ayres de Magalhães nunca tinha ouvido uma emissão sequer da Rádio Vaticano e tinha uma vaga ideia do que ela era, mas mandou esperar outros jornalistas que o queriam entrevistar e deu prioridade ao testemunho que lhe foi pedido para “ir para o ar” na edição portuguesa do radiogiornale do dia em que o grupo dava em Roma um espetáculo musical.

João Paulo II em Cabo Verde: “podeis o que fazeis!”

 

Entre muitos outros episódios que poderia referir, recordo este – diferente – que ocorreu em Cabo Verde, quando JPII passou junto da humilde “postazione” da Rádio, um “estaminé” organizado à entrada na casa do bispo, D. Paulino do Livramento, na cidade da Praia: “Santidade, fazemos o que podemos”, disse-lhe o P. Borgomeo, vendo-o passar, tentando justificar aquelas modestas instalações. O Papa Wojtila, habituado a “animar a malta” e habituado a responder com bom humor nas mais diversas situações, parou, deteve-se a olhar para nós, apanhou a deixa, invertendo as palavras, e comentou, testemunhando de forma jocosa e original a grandeza do trabalho da Rádio: Podeis o que fazeis! ­– disse, antes de prosseguir o seu caminho, sorrindo amavelmente.

12 fevereiro 2021, 12:08